“Sua ingrata miserável!” — Helena atirou a chávena ao chão, espalhando estilhaços pela cozinha e humilhando a nora entre gritos

Histórias
Crueldade gratuita, silêncio aterrador e cobardia.

— Escuta-me bem, Helena — dizia Manuel, num tom baixo, mas sem espaço para fugas. — Tenho uma proposta para te fazer. A casa de campo está vazia. É pequena, mas está em bom estado, tem condições, tem sossego. Vai para lá passar o verão. Descansas, pensas na vida, afastas-te um pouco desta confusão da cidade.

Helena ergueu os olhos húmidos para ele.

— Estás a pôr-me fora?

— Estou a dar-te uma saída digna — corrigiu Manuel. — A casa é tua. O Carlos deixou tudo tratado em teu nome ainda em vida. Podes ficar lá quanto tempo quiseres. Fazes uma horta, conversas com as vizinhas, apanhas ar. E deixas os miúdos respirarem sem estares sempre em cima deles.

Helena limpou o rosto com a ponta do lenço. Pela primeira vez naquela conversa, pareceu realmente ponderar.

— E se eles precisarem de mim?

— Se precisarem, chamam-te. E tu vais. Mas vais quando fores convidada, não quando te apetecer entrar pela vida deles dentro.

A ideia, por mais que lhe custasse admitir, tinha o seu encanto. Na casa de campo, Helena conhecia mulheres da sua idade, com quem podia jogar às cartas, trocar receitas, comentar a vida alheia e ocupar os dias sem sentir que sobrava. Na cidade, pelo contrário, restavam-lhe quatro paredes, silêncios pesados e guerras constantes com Ana.

— Está bem — disse por fim, depois de uma longa pausa. — Vou experimentar. Um mês. Só um mês.

Mas esse mês longe não curou nada. Quando regressou, Helena vinha ainda mais amarga, mais desconfiada, mais pronta a exigir. Como se a distância, em vez de lhe acalmar o ressentimento, tivesse alimentado ainda mais a sua raiva.

Mal entrou em casa, largou a mala no corredor e disparou:

— Já percebi tudo enquanto lá estive. Queriam era despachar-me! Pensaram que a velha parva ia para a terra, entretinha-se com as couves e se esquecia de voltar?

Ana recebeu a sogra em silêncio, parada à entrada. As três semanas sem gritos tinham-lhe parecido um milagre. João voltara a sorrir, a casa respirara outra vez, e até tinham conseguido fugir durante um fim de semana até à costa, só os dois, como se ainda fosse possível reconstruir alguma coisa. Agora, porém, tudo parecia regressar ao mesmo inferno.

Só que Ana trazia consigo um segredo. Um segredo que ainda não tivera coragem de revelar a ninguém.

Vira as duas riscas no teste uma semana antes. Primeiro julgou que os olhos a enganavam. Comprou outro. Fez novamente. O resultado repetiu-se, claro, impossível de negar. Estava grávida. Grávida depois de tanta espera, de tanto medo, de tantas consultas e desilusões.

Durante três anos, ela e João tinham tentado ter um filho. Os médicos encolhiam os ombros: os exames não mostravam nada de grave, tudo parecia estar bem, mas a gravidez simplesmente não acontecia. E agora acontecera. Justamente quando, por breves semanas, a casa finalmente conhecera alguma paz.

Nessa noite, quando ficaram a sós, Ana aproximou-se do marido.

— João — murmurou —, preciso de te contar uma coisa.

Ele desviou os olhos da televisão.

— O que foi?

Ana respirou fundo.

— Estou grávida.

João ficou imóvel, com o comando ainda na mão. Durante alguns segundos não disse nada. Depois virou-se devagar para ela, como se tivesse medo de ter ouvido mal.

— Estás a falar a sério?

— Completamente. Fiz dois testes. Os dois deram positivo.

Ele levantou-se de repente e abraçou-a com tanta força que Ana quase perdeu o ar.

— Meu Deus, Ana… Finalmente! — sussurrou, com a voz embargada. — Nem acredito. Estou tão feliz.

— Baixo, João, baixo — pediu ela, olhando instintivamente para a porta. — A tua mãe pode ouvir.

— E se ouvir? Vai ficar contente. É neto dela.

Ana não respondeu logo. Conhecia Helena demasiado bem para partilhar do entusiasmo ingénuo do marido.

— Primeiro vou ao médico — disse. — Preciso de confirmar que está tudo bem. Depois contamos.

Mas, num apartamento pequeno, os segredos raramente sobrevivem muito tempo. Uma semana depois, quando Ana regressou da consulta de ginecologia com a confirmação da gravidez, encontrou Helena sentada na cozinha, rígida, de rosto fechado, como se a estivesse à espera há horas.

— Então? — atirou a sogra, sem sequer cumprimentá-la. — Arranjaste maneira de te safar, foi?

Ana parou à porta.

— Desculpe?

— Não te faças de sonsa. Eu não sou cega. Andas enjoada de manhã, já não suportas certas comidas, recusas leite… Estás prenha, não estás?

Ana foi até ao frigorífico sem responder. Tirou uma garrafa de água, mas os dedos tremiam tanto que quase a deixou cair.

— Pensas que agora podes fazer tudo o que quiseres? — continuou Helena, a voz cada vez mais cortante. — Achas que vou andar em bicos de pés dentro da minha própria casa para não incomodar a criancinha?

— Helena, esse bebé é seu neto…

A mulher soltou uma gargalhada seca.

— Meu neto? E quem me garante isso? Sei lá eu de quem é essa criança. Talvez seja do vizinho e agora queiras pendurá-la ao meu filho.

Aquelas palavras acertaram em Ana como uma bofetada. O sangue fugiu-lhe do rosto. Agarrou-se à beira da mesa para não vacilar.

— Como é que se atreve a dizer uma coisa dessas?

— Atrevo-me porque tenho olhos na cara! — Helena levantou-se, aproximando-se dela com ar ameaçador. — Três anos casada e nada. Nada! De repente, quando te convém, apareces grávida como se fosse por encomenda. Muito estranho, não achas?

Nesse instante, a porta da entrada bateu. João tinha chegado do trabalho.

— Mãe, estou em casa! Ana, onde estás?

— Estamos aqui — respondeu Helena em voz alta, sem tirar os olhos da nora. — A falar de uma notícia maravilhosa!

João entrou na cozinha e percebeu logo que algo estava errado. Viu Ana pálida, quase sem forças, e a mãe com aquele sorriso duro, satisfeito, cruel.

— O que se passa?

— Passa-se que a tua mulherzinha vai fazer de nós avós — disse Helena, saboreando cada palavra.

O rosto de João iluminou-se.

— Ana! Contaste-lhe?

— Ela não contou nada — interrompeu Helena. — Eu percebi sozinha. E já aviso: de mim não esperem ajuda nenhuma. Que trate ela das consequências das suas manobras.

— Mãe, mas o que estás a dizer? — João franziu o sobrolho. — É o nosso filho.

— Nosso? — Helena virou-se para ele, indignada. — João, meu querido, acorda! Ela está a prender-te. Assim que a criança nascer, ficas nas mãos dela para sempre.

Ana não aguentou mais. As lágrimas rebentaram-lhe sem controlo.

— Eu… eu já não consigo viver assim…

Saiu da cozinha quase a correr.

João fez menção de a seguir, mas Helena segurou-o pelo braço.

— Deixa-a chorar. Talvez ganhe juízo.

Ele arrancou o braço da mão da mãe.

— Tu tens noção do que estás a fazer? Ela está grávida! Este stress pode fazer mal ao bebé!

— A que bebé? — A voz de Helena tornou-se gelada. — João, abre os olhos. Ela está a enganar-te.

Foi nesse momento que alguma coisa dentro dele se partiu de vez. João olhou para a mãe, para aquele rosto transtornado pela maldade e pela suspeita, e compreendeu que já não havia mais desculpas a dar, nem mais paciência a inventar.

— Mãe — disse ele, baixo, mas com uma firmeza que nunca antes tivera —, amanhã eu e a Ana vamos embora.

Helena ficou imóvel.

— Vão embora para onde?

— Para o Algarve, para junto do mar. Tenho lá uma saída.

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