“É o meu apartamento. Foi pago com o meu dinheiro” disse Ana, cansada, perante a acusação indignada da sogra

Histórias
Injusto e mesquinho, o ataque à escolha pessoal.

Ana fitou-a, incrédula.

— A Rita é a sua filha mais nova, Maria. Tem trinta e dois anos. Que estudos são esses?

— Quer inscrever-se nuns cursos! — disparou a sogra, como se aquilo explicasse tudo.

— E o João precisa de carro para quê? Ele nem carta tem.

— Há de a tirar!

Ana fechou os olhos por um instante. Aquilo já não era discussão; era um disparate a crescer sem travão.

— Maria, aquele dinheiro era meu. Veio da minha avó. Eu tinha todo o direito de comprar uma casa para mim.

— Casa tu já tens. É esta!

— Esta casa é sua. Nunca foi minha.

— Somos uma família!

— Uma família onde, há cinco anos, vivo como se estivesse sempre de favor. Onde nem posso fazer o jantar sem pedir licença.

Maria levou as mãos ao ar, teatral:

— João! Estás a ouvir a maneira como ela fala comigo?

Encostado à parede, João continuava calado.

— João — chamou Ana, com a voz firme. — Diz alguma coisa.

Ele ergueu a cabeça devagar. Primeiro olhou para a mãe, depois para a mulher.

— Bem… a minha mãe não deixa de ter razão, Ana. Devias ter falado connosco antes. Era muito dinheiro.

— Era o meu dinheiro.

— Sim, mas somos uma família…

— Então a tua mãe tem razão? — A voz de Ana saiu baixa, mas cada palavra parecia bater no chão. — Eu devia ter entregado o dinheiro a vocês em vez de comprar uma casa para mim?

João hesitou, atrapalhado.

— Não digo entregar… Mas devias ter conversado.

— Conversado com quem? Contigo? Com a tua mãe? Com a tua irmã, que aparece uma vez por mês para pedir dinheiro?

— Ana, estás completamente fora de ti! — indignou-se Maria.

— Pelo contrário. Estou muito lúcida. Só que, pela primeira vez em cinco anos, fiz aquilo que eu queria. Não aquilo que vocês mandavam.

Virou-lhes as costas e entrou no quarto onde Inês dormia. Acordou a filha com cuidado, passando-lhe a mão pelo cabelo.

— Meu amor, apanha os teus brinquedos. Vamos mudar-nos.

— Para onde? — murmurou Inês, ainda ensonada.

— Para a nossa casa nova.

Em vinte minutos, Ana tinha tudo pronto. Duas malas apenas: roupa, documentos e os brinquedos preferidos de Inês. O resto podia ficar. Nada daquilo era essencial.

João apareceu à entrada do quarto.

— Vais mesmo embora?

— Vou.

— Ana, isto é ridículo. Por causa de quê?

Ela parou, encarou-o nos olhos e respondeu sem levantar a voz:

— Por causa de cinco anos em que nunca ficaste do meu lado. Nem uma única vez disseste à tua mãe: “Chega.” Nem uma única vez me defendeste.

— Eu só não queria arranjar conflitos…

— E eu não quero continuar numa casa onde não sou respeitada.

Atrás delas, Maria gritava qualquer coisa sobre ingratidão, egoísmo e juventude sem valores. Ana não se virou.

Segurou a mão da filha, chamou um táxi e foi-se embora.

Chegaram ao apartamento já tarde. Inês correu curiosa pelas divisões vazias, e a voz dela espalhava-se em eco pelas paredes nuas. Ana estendeu uma manta no chão e tirou da mala um termo com chá.

— Mãe, agora vamos viver aqui? — perguntou Inês, sentando-se ao lado dela.

— Vamos, meu amor.

— E o pai?

Ana respirou fundo.

— O pai… por enquanto fica em casa da avó.

— Porquê?

Ela puxou a filha para junto de si.

— Porque às vezes os adultos precisam de viver separados durante algum tempo. Para pensar melhor.

Inês assentiu com uma seriedade inesperada, daquela sabedoria limpa que só as crianças têm.

Ficaram sentadas no chão, a beber chá pela mesma caneca, olhando pela janela para a cidade adormecida. Não havia gritos. Não havia ordens. Não havia ninguém a vigiar-lhe os gestos.

Havia silêncio. E paz.

Pela primeira vez em cinco anos, Ana sentiu-se realmente tranquila.

João ligava todos os dias. No início vinha cheio de revolta. Depois passou a pedir que ela voltasse. Por fim, quase suplicava.

— Ana, já chega desta teimosia. Volta para casa.

— Não.

— A minha mãe ficou magoada.

— Eu também.

— Então?

Casa da Encarnação