E era ela quem mandava em tudo, como se a casa fosse um pequeno reino onde só a sua vontade contava. Maria decidia o que se comia ao jantar, a que horas se ligava a televisão, quando Inês devia ir para a cama, que compras eram aceitáveis e quais eram um desperdício.
Ana não opinava. Limitava-se a viver numa casa que não era sua, submetida a regras que nunca tinha escolhido.
— Aninha, assim não se veste a menina. Ela vai constipar-se!
— Ana, para que foste comprar esse fiambre? Eu disse que era só o que estivesse em promoção.
— Aninha, não leias histórias à Inês antes de dormir. Depois fica excitada e não adormece.
João, por seu lado, refugiava-se no silêncio. Sempre que Ana tentava tocar no assunto de arranjarem finalmente um espaço deles, ele fugia à conversa.
— Vamos aguentar mais um bocadinho — dizia, sem a encarar. — Para quê tanta pressa? A minha mãe sozinha não se orienta.
— E eu oriento-me? — perguntava Ana, já cansada.
— Tem paciência. É a minha mãe.
E Ana teve. Durante quatro anos. Depois cinco. Trabalhava, entregava metade do ordenado à sogra, cuidava da filha, engolia as críticas à comida, à roupa, à forma como educava Inês. Calava-se tantas vezes que já nem sabia onde acabava a prudência e começava a resignação.
Esperava, no fundo, que um dia João se levantasse e dissesse: “Chega. Vamos embora.”
Mas esse dia nunca chegou.
Então morreu a avó de Ana.
Aurora, velhinha doce e discreta, vivera a vida inteira numa pequena terra, num apartamento modesto de duas assoalhadas. Não tinha outros netos. Só Ana. E deixou-lhe tudo o que possuía.
A casa estava envelhecida e precisava de obras, mas ficava no centro da localidade. Ana foi ao funeral, tratou dos papéis, esvaziou gavetas, separou documentos e pôs o apartamento à venda.
Não demorou muito a aparecer comprador. Vendeu-o por vinte e cinco mil euros. O dinheiro entrou na conta de Ana numa tarde cinzenta de outubro. Sentada no trabalho, ela olhava para os números na aplicação do banco e, pela primeira vez em cinco anos, sentiu que talvez ainda pudesse escolher alguma coisa na própria vida.
Não contou a ninguém. Nem a João. Muito menos a Maria.
Começou a procurar em segredo. Via anúncios à hora de almoço, telefonava às escondidas, marcava visitas depois do expediente. Queria apenas um lugar pequeno, limpo, luminoso. Não precisava de luxo, nem de uma morada perfeita. Precisava que fosse seu.
Ao fim de um mês encontrou-o: um T1 num prédio recente, nos arredores. Trinta e oito metros quadrados, acabamentos simples, janelas claras e um pátio sossegado. O preço era certo: vinte mil euros.
Ana comprou-o nesse mesmo dia.
Assinou tudo em seu nome, recebeu as chaves e foi lá sozinha. Ficou parada no meio da divisão vazia, a ouvir o silêncio. Depois sorriu. Sorriu sem se forçar, sem pedir desculpa, sem ter de justificar nada a ninguém.
Aquele era o seu lar. Só dela.
Planeava contar a João nessa noite, com calma, quando estivessem a sós. Dir-lhe-ia que comprara a casa com o dinheiro da avó, que estava na altura de saírem da casa da mãe dele, que Inês já tinha sete anos e merecia um quarto seu.
Mas Maria descobriu antes.
Como, Ana nunca percebeu. Talvez tivesse ouvido uma conversa telefónica. Talvez tivesse mexido na mala dela e encontrado os papéis. A verdade, naquela altura, já pouco importava.
Quando Ana regressou do trabalho, a sogra esperava-a armada para a guerra.
— És uma traidora! — gritava Maria. — Eu meti-te debaixo do meu teto, dei-te comida, tomei conta da tua filha, e tu fazes isto? Esse dinheiro devia ter sido gasto na família!
— Em que família? — perguntou Ana, exausta.
— Na nossa! Comprar um carro ao João! Para pôr de lado para os estudos da Rita!
