“Não vou repartir coisa nenhuma! O apartamento é meu, ponto final!” — disparou Ana, encarando o marido sem desviar os olhos

Histórias
Lar amado, agora injusto e dolorosamente vazio.

— Não vou repartir coisa nenhuma! O apartamento é meu, ponto final! — disparou Ana, encarando o marido sem desviar os olhos.

Ana abriu a porta de casa e ficou parada no limiar, como fazia tantas vezes nos últimos anos. Diante dela estendia-se a sala ampla, de teto alto e janelas grandes, por onde a luz entrava generosa. No chão, o soalho de madeira continuava a ser o mesmo que os pais tinham colocado com as próprias mãos.

Aquele T3 no centro era a herança que lhe restara depois da morte deles. Em cada canto permanecia alguma coisa dos dois: os serões em família, as conversas, as gargalhadas, o calor de uma casa onde tinha sido amada.

Quando João a pediu em casamento, Ana nem hesitou. Propôs-lhe logo que fosse viver com ela. Espaço não faltava, o apartamento era grande, confortável, cheio de possibilidades. João aceitou de imediato, abraçou-a, beijou-a e disse que era uma ideia excelente. Casaram-se sem luxo, numa cerimónia simples, sem alaridos. Depois da lua de mel, começaram a transformar a casa num lugar dos dois.

Ana trabalhava como designer de interiores. João, por sua vez, tinha emprego numa empresa de informática. Decidiram juntos fazer algumas obras e renovar o ambiente. Compraram um sofá novo para a sala, trocaram os cortinados antigos por estores modernos e refizeram a cozinha de alto a baixo: móveis claros, eletrodomésticos encastrados, tudo pensado ao pormenor. Ana alegrava-se com cada alteração. A casa mudava pouco a pouco e parecia, finalmente, tornar-se o lar comum do casal.

João gostava de receber amigos. Juntavam-se na cozinha, bebiam cerveja e falavam de futebol, de videojogos, de trabalho. Quase sempre alguém comentava, meio a brincar, meio a sério:

— João, tu soubeste mesmo orientar a vida. Um apartamento destes, uma mulher bonita assim… És um sortudo.

Ele limitava-se a sorrir. Nunca contradizia. Ana ouvia aquelas frases, mas não levava a mal. O apartamento era, de facto, bonito, e para ela era natural partilhar tudo com o homem que tinha escolhido.

Os primeiros seis meses passaram sem sobressaltos. Ana trabalhava a partir de casa, quase sempre fechada no escritório, sentada ao computador, a desenhar projetos. João chegava tarde, cansado, mas satisfeito. À noite jantavam juntos, viam séries e combinavam planos para o fim de semana. A vida seguia num ritmo calmo, sem discussões, sem nuvens no horizonte.

Tudo começou a mudar quando a sogra passou a aparecer com mais frequência. Maria morava num bairro próximo, num apartamento antigo de duas assoalhadas que arrendava havia anos. Antes do casamento, quase nunca os visitava; aparecia apenas em datas especiais ou em ocasiões combinadas. Depois, porém, as visitas multiplicaram-se.

No início chegava sempre com alguma coisa doce.

— Aninha, fiz uns bolinhos. Provem. O meu João adora os de maçã.

Ana agradecia e punha água ao lume para o chá. Maria sentava-se à mesa, bebia devagar, conversava um pouco. Depois levantava-se e começava a circular pela casa, como quem observa distraidamente, mas com atenção demais.

— Que maravilha isto tudo. A disposição é muito boa, entra imensa luz. E a remodelação ficou fresca, nota-se que foi feita com gosto.

— Obrigada, Maria — respondia Ana, sempre educada.

A sogra ia até ao quarto, olhava para os armários, espreitava também para o escritório.

— E aqui é o quê? O teu cantinho de trabalho?

— Sim. Trabalho em casa.

— Pois, deve ser muito cómodo. Uma divisão inteira só para escritório… Que luxo.

O tom parecia elogioso, mas Ana percebia algo escondido por trás daquelas palavras. Não era exatamente inveja. Era mais como uma avaliação silenciosa, como se Maria estivesse a calcular de que modo aquele espaço poderia ser aproveitado.

As visitas continuaram. Umas vezes Maria trazia bolos; outras aparecia “só porque estava de passagem”. Houve dias em que surgia a meio da tarde, quando João ainda estava no trabalho. Ana abria-lhe a porta e deixava-a entrar, mas, por dentro, a inquietação crescia. A sogra observava o apartamento com minúcia excessiva, fazia perguntas de mais sobre a distribuição das divisões, sobre a área, sobre os preços das casas naquela zona.

Certa vez, Maria parou junto à janela do escritório e ficou a olhar para o pátio.

— A vista é bonita. Há sossego, há árvores… Um sítio destes vale ouro.

— Sim. Os meus pais gostavam muito deste bairro.

— Os teus pais, dizes tu? Então o apartamento veio deles?

Casa da Encarnação