— Sim — confirmou Ana.
Maria assentiu devagar, como se acabasse de encaixar uma peça importante.
— Está percebido. Tiveste sorte, Ana. Nem toda a gente recebe uma herança destas.
Ana não respondeu. Aquela palavra, “sorte”, ficou-lhe a bater no ouvido de uma forma desagradável. Como se o apartamento que lhe tinha ficado depois da morte dos pais fosse um prémio, e não a marca dolorosa de uma perda.
João, por seu lado, nunca dava importância às perguntas da mãe. Quando Ana tentava falar com ele sobre aquelas visitas constantes, ele limitava-se a encolher os ombros.
— Que exagero… A minha mãe aparece cá, e então? Vive sozinha, aborrece-se, vem distrair-se um bocado.
— Mas ela observa a casa toda de cada vez que entra. Parece que está a avaliá-la.
— Isso é impressão tua. Não inventes problemas onde eles não existem.
Ana acabou por não insistir. Talvez fosse mesmo ela que estivesse a ver fantasmas. Maria era educada, sorria, agradecia sempre o chá, nunca levantava a voz. Criar uma discussão por causa de uma suspeita parecia-lhe absurdo.
Alguns meses mais tarde, Carolina, a irmã de João, anunciou que estava noiva. Tinha vinte e quatro anos, trabalhava como assistente numa empresa e ganhava pouco. O noivo, Pedro, fazia biscates na construção civil. Os dois viviam juntos num T1 arrendado, mas o dinheiro mal chegava até ao fim do mês.
O casamento fez-se num pequeno restaurante, sem luxos, com cerca de trinta convidados. Maria andava radiante, fazia brindes, abraçava a filha a cada momento. João felicitou a irmã, e Ana também lhe dirigiu algumas palavras carinhosas. A festa correu bem, com ambiente animado, e os últimos convidados só se foram embora já tarde.
Uma semana depois do casamento, Maria apareceu novamente em casa deles. Desta vez, não trazia bolo nem qualquer pretexto simpático. Vinha séria, com uma mala na mão. João estava em casa, sentado no sofá a ver televisão. Ana preparava o jantar na cozinha.
— João, Ana, precisamos de conversar — anunciou a sogra, entrando na sala.
Ana limpou as mãos a um pano e saiu da cozinha. Maria sentou-se à mesa e retirou da mala vários papéis. João aproximou-se, curioso, enquanto Ana preferiu ficar de pé.
— Sobre o que é que quer falar, Maria?
— Sobre a Carolina. Ela e o Pedro estão com um problema sério de habitação. A renda é pesada, leva-lhes quase todo o ordenado. Comprar casa está fora de questão, não têm poupanças para isso.
— Isso é uma situação deles — respondeu Ana com cautela. — São adultos.
— Claro que são adultos. Mas somos família. E a família existe para se ajudar.
Ana sentiu o corpo ficar rígido. A palavra “ajudar”, dita daquela maneira, soava-lhe perigosamente ambígua.
— E que tipo de ajuda tem em mente?
Maria olhou primeiro para João e só depois para Ana. Esboçou um sorriso.
— Vocês aqui têm espaço de sobra. Três assoalhadas para duas pessoas. Convenhamos, é muita área sem uso.
— Sem uso? — Ana franziu o sobrolho. — O que quer dizer com isso, Maria?
— Pensei apenas que talvez se pudesse trocar este apartamento por dois mais pequenos. Um para vocês, outro para a Carolina e o Pedro. Ficava toda a gente resolvida. Até já estivemos a ver algumas hipóteses. Tenho aqui fotografias, localizações, valores…
Disse aquilo com uma naturalidade tão tranquila que parecia estar a sugerir uma ida rápida ao supermercado. Ana ficou imóvel, sem conseguir acreditar no que ouvia. Trocar o apartamento? O apartamento dela?
— Está a falar a sério? — perguntou, com a voz a tremer.
— Evidentemente que estou. Cada casal ficaria com o seu cantinho. A Carolina teria finalmente uma casa dela, e vocês continuariam a ter onde morar. E, se ainda sobrasse algum dinheiro da operação, eu podia ir uns dias para umas termas, tratar um pouco da saúde. Também já não vou para nova.
Maria falava com firmeza, desenvolvendo o plano como se tudo estivesse perfeitamente decidido. Não parecia estar a referir-se a uma propriedade alheia, mas a um bem familiar, uma espécie de recurso comum à disposição de todos. Ana escutava-a e sentia cada músculo a contrair-se por dentro.
— Maria, este apartamento é meu — disse Ana, devagar, escolhendo cada palavra.
— Pois claro que é teu. Mas tu e o João são marido e mulher. Numa família, as coisas partilham-se.
— Não. Isto não é um bem comum. O apartamento veio dos meus pais antes de eu me casar. É património meu, só meu.
— Ora, isso agora que importância tem? Vocês vivem juntos. Quando os parentes precisam, ajuda-se.
Ana virou-se para o marido. João permanecia calado, com os olhos fixos no chão. Tinha o rosto tenso e os lábios apertados numa linha dura.
— João, não dizes nada?
