“Não vou repartir coisa nenhuma! O apartamento é meu, ponto final!” — disparou Ana, encarando o marido sem desviar os olhos

Histórias
Lar amado, agora injusto e dolorosamente vazio.

João ergueu finalmente a cabeça. Primeiro encarou a mãe; depois, devagar, olhou para Ana.

— No fundo, a ideia não é assim tão disparatada — disse ele, quase em voz baixa.

Ana ficou imóvel. Por um instante, teve a sensação de que não ouvira bem.

— Estás a falar a sério?

— Estou. A Carolina precisa mesmo de ajuda. Podíamos trocar este apartamento por outro mais pequeno. Continuávamos a ter onde viver e, ao mesmo tempo, dávamos uma mão à minha irmã.

— Um apartamento mais pequeno? — Ana sentiu os dedos começarem a tremer. — Tu tens noção do que acabaste de dizer?

— Tenho. Não é uma tragédia. Há pessoas que fazem trocas, arranjos desse género.

— Arranjos? — a voz dela subiu, cortante. — Este apartamento é meu, João. Foi deixado pelos meus pais. Eu cresci aqui.

— Ana, não grites. Vamos conversar como pessoas civilizadas.

— Conversar sobre o quê? Sobre tu quereres que eu abdique da minha casa por causa da tua irmã?

— Ninguém falou em abdicar. Seria apenas uma troca. Tu continuarias com uma casa.

— Mas não seria esta. Não seria o meu lar.

Maria interveio, com aquele tom falso de paciência que só agravava tudo:

— Ana, não te enerves dessa maneira. Nós só apresentámos uma solução sensata. Tu ficavas com um apartamento, a Carolina ficava com outro. Todos saíam beneficiados.

— Não, Maria. Nem todos. Eu perderia a minha casa.

— É apenas um apartamento — disse a sogra, fazendo um gesto de desdém com a mão. — O que importa é a família. A família deve manter-se unida.

Ana sentiu o sangue ferver-lhe nas veias. O rosto ardia-lhe, e as mãos fecharam-se em punhos.

— Eu não vou trocar coisa nenhuma. O apartamento é meu. E ponto final.

As palavras saíram duras, altas, sem espaço para mal-entendidos. Ana fitou o marido diretamente nos olhos, sem desviar o olhar. João estremeceu, como se tivesse levado uma pancada. Maria soltou um suspiro pesado.

— Então é assim — murmurou a sogra, abanando a cabeça. — És egoísta. Só pensas em ti.

— Estou a defender aquilo que é meu.

— Para ti, umas paredes valem mais do que pessoas? — Maria levantou-se de repente. — Nós estamos a falar de família, e tu só falas de propriedade! És ingrata, Ana. O João ama-te, cuida de ti, e tu nem sequer és capaz de ajudar a irmã dele.

— Eu não tenho obrigação de ajudar ninguém à custa da minha casa.

— Tens, sim! És mulher dele. Deves apoiar o teu marido em tudo.

João pôs-se de pé, tentando colocar-se entre as duas.

— Mãe, acalma-te. Ana, por favor, não vamos gritar.

— Não vamos gritar? — Ana virou-se para ele, incrédula. — Tu queres tirar-me o apartamento, e eu é que tenho de ficar calada?

— Não quero tirar-te nada. Estou a falar de trocar. Não é a mesma coisa.

— Para mim é exatamente a mesma coisa. Eu não quero perder este lugar.

— Mas por que dizes perder? Terias outro apartamento.

— Eu não quero outro. Quero viver aqui.

Maria levou as mãos à cabeça, teatral.

— Meu Deus, que teimosia! Não pensas na família, só em ti mesma.

— Penso em mim porque, aparentemente, mais ninguém pensa.

A discussão ganhou outra força. Maria começou a acusá-la de ingratidão, de egoísmo, de destruir a harmonia da família. João tentava calar a mãe, mas ao mesmo tempo insistia com Ana, dizendo que tudo poderia ser resolvido com calma, sem dramas, se ela apenas cedesse um pouco. Ana permaneceu no meio da sala, direita, com uma certeza fria a instalar-se dentro dela: dali já não havia regresso.

— Este apartamento pertence-me. Foram os meus pais que o conquistaram, foram eles que mo deixaram. Não o entregarei a ninguém.

— Ana, eu só estou a propor que ajudemos a minha irmã, e tu estás a fazer disto uma guerra — disse João, olhando-a com censura.

— Queres resolver os problemas da tua família à minha custa.

— À nossa custa! Somos marido e mulher, somos uma família.

— Família não significa eu sacrificar o meu lar.

Maria aproximou-se mais um passo e apontou-lhe o dedo.

— És uma má esposa. Uma mulher a sério apoia sempre o marido. Ajuda a família dele quando é preciso. Tu, pelo contrário, só vês o teu próprio lado.

Ana respirou fundo. Quando falou, a voz saiu baixa, mas firme.

— Maria, peço-lhe que se vá embora.

— Como disseste?

— Peço-lhe que saia da minha casa. Agora.

O rosto da sogra ficou vermelho.

— Estás a pôr-me na rua?

— Estou. Esta é a minha casa, e não permito que venha para aqui gritar comigo.

— João! — Maria virou-se para o filho. — Estás a ouvir a maneira como ela fala comigo?

João ficou parado, confuso, entre a mãe e a mulher.

Casa da Encarnação