Etapa 1. Metade de um sonho
— Não podem? — repetiu a sogra, estreitando o olhar. — Ou simplesmente não querem?
Ana ergueu os olhos para Maria sem perder a calma.
— Não queremos entregar o dinheiro da entrada da nossa casa a um negócio que ninguém calculou como deve ser.
À mesa, o silêncio caiu de repente. Até Inês, no quarto ao lado, deixou de fazer barulho com os lápis.

Beatriz soltou uma risada curta, cheia de desprezo.
— Portanto, para vocês, um apartamento vale mais do que a minha vida?
— Para nós, o mais importante é a vida da nossa filha — respondeu Ana. — E a segurança da nossa família.
Maria afastou a chávena devagar, como se aquele gesto encerrasse a conversa.
— Família, pois claro. Então falemos com honestidade. Há seis anos que vocês vivem no meu apartamento quase de graça. Se estivessem a arrendar casa, já tinham deixado uns dez mil euros nas mãos de desconhecidos. Eu ajudei-vos. Agora chegou a vossa vez de ajudar a Beatriz.
João pousou finalmente a colher.
— Mãe, nós pagamos as despesas, arranjámos a cozinha, trocámos janelas, canalização…
— Fizeram isso para vocês! — cortou Maria. — Não venham agora apresentar-me a conta de cada parafuso.
Ana sentiu um frio a espalhar-se por dentro. As palavras da sogra magoavam, mas também tinham uma utilidade cruel: acabavam com qualquer resto de ilusão.
— Maria, o que nos está a dizer é isto: ou damos seis mil euros à Beatriz, ou saímos do apartamento?
— Exatamente — confirmou a sogra. — Se não querem comportar-se como família, no fim do mês deixam a casa livre.
João levantou-se num impulso.
— Mãe, tens noção de que temos uma criança?
— Precisamente por causa da criança deviam saber agradecer. Outros, no vosso lugar, beijavam o chão onde pisam.
Ana também se pôs de pé.
— Inês, guarda os lápis. Vamos para casa.
Beatriz sorriu de lado.
— Para casa? Por enquanto ainda podem chamar-lhe isso.
Ana voltou-se para ela, sem levantar a voz.
— Guarda bem essa frase. Um dia talvez percebas como ela soa.
Etapa 2. A viagem sem palavras
Regressaram à cidade sem trocar uma única frase.
Inês adormeceu quase de imediato, apertando contra o peito uma boneca de papel. João conduzia com tanta força nas mãos que os nós dos dedos lhe ficaram brancos. Ana observava as luzes da estrada e pensava no absurdo daquela situação: durante seis anos chamara lar àquele apartamento, embora, no fundo, sempre tivesse sabido que só seria realmente deles no dia em que as chaves lhes pertencessem.
— Desculpa — disse João, por fim.
Ana demorou alguns segundos a olhar para ele.
— Desculpa por quê, exatamente?
Ele esboçou um sorriso amargo.
— Por ter contado das nossas poupanças. Por ter acreditado que a minha mãe ficava apenas contente por estarmos a juntar dinheiro. Por não ter percebido antes.
— Tu querias confiar nela. É tua mãe.
— E ela fez contas ao nosso dinheiro.
— Fez.
João entrou no pátio do prédio. As janelas deles, no quarto andar, brilhavam com uma luz amarela e morna. Ali Inês dera os primeiros passos. Ali Ana colara papel de parede na cozinha, equilibrada num banco velho. Ali João montara, de madrugada, o berço da filha, resmungando baixinho para não acordar a bebé recém-nascida.
E, de repente, tudo aquilo se revelava provisório.
Já em casa, Ana deitou Inês. Depois abriu o portátil.
— O que estás a fazer? — perguntou João.
— A procurar apartamentos.
— Agora?
— Agora. Deram-nos prazo até ao fim do mês.
Ele sentou-se ao lado dela.
— Temos doze mil e quatrocentos euros. Se não mexermos na reserva, dá para avançar com uma entrada.
— Então a reserva fica intacta. Vamos ver apenas aquilo que conseguimos suportar de verdade.
João cobriu a mão dela com a sua.
— Ana, eu não vou entregar esse dinheiro à Beatriz.
Ela fitou-o com atenção.
— Mesmo que a tua mãe te pressione?
— Mesmo que ela me chame mau filho.
Pela primeira vez naquele dia, Ana conseguiu respirar fundo.
Etapa 3. A casa que não chegaram a escolher
Os dias seguintes transformaram-se numa corrida. Trabalho, infantário, visitas a apartamentos, chamadas a mediadores, simulações de crédito habitação. Ana criava folhas de cálculo. João, depois do turno, ia ver casas que mal cabiam no orçamento.
Maria telefonava todas as noites.
Primeiro, vinha com doçura:
— João, pensa melhor. A Beatriz não é uma estranha.
Depois, passava à mágoa:
— Nunca pensei que fosses capaz de tanta frieza comigo.
E, por fim, atacava sem rodeios:
— Foi a Ana que te virou contra nós. Antes dela, tu eras outro filho.
