João ouvia tudo em silêncio, sentia o rosto a arder, apertava o telemóvel com força, mas a resposta era sempre a mesma, dita quase sem variação:
— Mãe, não vamos dar dinheiro. E vamos sair do apartamento.
Ao quinto dia, a sogra escreveu diretamente a Ana:
«Conseguiste o que querias. Separaste um filho da mãe. Espero que ainda consigas olhar a tua filha nos olhos sem vergonha.»
Ana leu a mensagem sentada à mesa da cozinha. Ao lado, Inês moldava uma casinha de plasticina, com um telhado vermelho cuidadosamente achatado com os dedos.
De repente, a menina levantou a cabeça.
— Mãe, quando é que nós vamos ter uma casa nossa?
Ana ficou imóvel por um instante.
— Em breve, Inês.
— Uma casa de onde a avó não nos possa mandar embora?
João, que estava junto ao fogão, virou-se de costas num movimento brusco.
Ana baixou-se ao lado da filha e pousou-lhe a mão no ombro.
— Sim. Uma casa de onde ninguém nos possa expulsar.
Nessa mesma noite encontraram uma possibilidade. Um apartamento pequeno, com dois quartos, num prédio antigo, no extremo oposto do bairro. Não tinha remodelação perfeita, nem cozinha moderna, nem fotografias de revista. Mas havia uma escola perto, um parque a poucos minutos e uma paragem de autocarro mesmo ali. O preço roçava o limite do que podiam pagar, mas não era impossível.
João ficou muito tempo a olhar para as imagens no ecrã. Depois disse, baixo:
— É este.
Ana assentiu.
— Então vamos vê-lo amanhã.
Fase 4. Um acordo em vez de humilhação
O apartamento era luminoso. A cozinha já tinha muitos anos, o soalho rangia em alguns pontos e as janelas davam para um pátio interior onde cresciam choupos enormes. Ainda assim, havia ali qualquer coisa de respirável, de seguro. Inês escolheu de imediato o quarto junto à varanda.
— A minha cama fica aqui, e a secretária ali — anunciou, muito séria. — E ninguém vai dizer para irmos embora?
A mediadora imobiliária sorriu, embaraçada. Ana sentiu o coração apertar-se de uma forma quase física.
— Ninguém — respondeu João. — Se o banco aprovar.
Três dias depois, o banco deu luz verde.
Maria não soube por eles. Beatriz viu a notificação no telemóvel de João quando ele passou pela casa de campo para ir buscar um casaco de Inês, e não perdeu tempo: contou tudo à mãe.
Nessa noite, a chamada de Maria já não trazia mágoa. Trazia raiva.
— Portanto, para comprar casa há dinheiro, mas para ajudar a tua irmã não há?
João pôs a chamada em alta-voz. Ana ficou ao lado dele, calada.
— Mãe, esse dinheiro juntámo-lo durante três anos para termos onde viver.
— E então? A Beatriz também quer viver como deve ser!
— Que trabalhe e que poupe.
— Como é que tens coragem de falar assim da tua irmã?
— Com a mesma coragem com que nos mandaste sair.
Do outro lado, fez-se um silêncio pesado.
— Eu disse aquilo para vocês pensarem melhor.
Ana falou baixo, mas cada palavra saiu nítida:
— Pensámos. E vamos comprar a nossa casa.
Maria percebeu a voz dela e inflamou-se de imediato.
— Ah, é assim? Então o meu apartamento já não vos serve?
— Foi a mãe que pediu para o deixarmos livre — lembrou João.
— Eu não esperava que levassem isso tão à letra!
Ana olhou para o marido. A verdade estava ali, finalmente descoberta. Maria nunca quisera realmente que eles saíssem. Quisera que se assustassem, que cedessem, que voltassem atrás de cabeça baixa.
Mas o medo deles já se tinha transformado num contrato com o banco.
Fase 5. O último mês
Começaram a empacotar.
Primeiro foram os livros, a roupa de outra estação e os brinquedos antigos de Inês. Depois vieram a loiça, os lençóis, as toalhas, os documentos. Ana escrevia nas caixas com letra firme e arrumada: «Cozinha», «Quarto da Inês», «Documentos», «Inverno».
Cada caixa fechada arrancava mais um pedaço da vida que tinham construído naquele apartamento.
Maria apareceu duas vezes.
Da primeira, veio verificar se eles não levavam “coisas a mais”.
— Este armário fui eu que comprei — disse, parada no corredor.
— Então leve-o — respondeu Ana, sem se alterar. — Nós já encomendámos outro.
A sogra não estava preparada para aquela calma.
— E os cortinados?
— Também pode ficar com eles.
— Não era isso que eu queria dizer!
— Então o que era?
Maria apertou os lábios e foi para a cozinha. Tirou de uma prateleira uma caneca que, anos antes, oferecera a Inês.
— Isto é meu.
A menina falou quase num sussurro:
— Avó, tu deste-ma nos meus anos.
Maria ficou parada. Durante um segundo, pareceu envergonhada. Só durante um segundo.
— Bem… se te dei, então leva.
Ana pegou na caneca sem dizer nada e colocou-a na caixa marcada «Quarto da Inês».
Da segunda vez, Maria trouxe Beatriz consigo. A filha percorreu com os olhos a casa já meio desmontada, as paredes nuas, as caixas empilhadas, os móveis afastados.
— Posso vir viver aqui depois? — perguntou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Já que o apartamento vai ficar livre.
Maria lançou-lhe um olhar rápido e severo.
— Logo se vê.
Foi nesse momento que Ana compreendeu: Beatriz já se imaginava dona daquele espaço. Maria, porém, tinha os seus próprios planos.
