Ana ficou imóvel diante da porta do seu próprio apartamento, apertando entre os dedos a chave que, por mais força que fizesse, se recusava a girar na fechadura. Acabara de regressar de Lagos, onde passara uma semana em trabalho, e tudo o que desejava era um duche quente e a cama macia. Porém, a porta não cedia.
Tentou de novo. A chave entrava sem dificuldade, mas o mecanismo permanecia mudo, sem o estalido familiar. Era como se, por dentro, alguém tivesse substituído completamente as entranhas da fechadura.
— Mas que raio é isto? — murmurou, já a procurar o telemóvel na mala.
João não atendeu. Ana ligou uma vez, depois outra, depois uma terceira. Em todas, o toque prolongou-se até morrer no vazio. Por fim, escreveu-lhe: “Estou à porta. A fechadura não abre. Estás em casa?”
A resposta chegou passado menos de um minuto. Só que não vinha de João.

“Boa noite, Ana. Fala a Maria. O João está ocupado, está comigo. Mandei trocar as chaves do apartamento enquanto estavas fora. As antigas já não servem. Se quiseres vir buscar as tuas coisas, telefona antes para combinarmos uma hora.”
Ana leu a mensagem uma vez. Depois voltou ao início e leu-a outra. E ainda uma terceira. As letras pareciam desfocar-se no ecrã, mas o sentido não mudava: a sogra tinha mudado a fechadura da sua casa. Da casa onde Ana pagava metade do empréstimo. Da casa onde estavam o seu sofá, a sua estante, os seus livros, as compras que ela própria deixara no frigorífico.
Sentou-se no degrau frio da entrada sem sequer sentir o cimento através da roupa. Uma única ideia repetia-se-lhe na cabeça, teimosa: devia haver algum engano. Um absurdo qualquer. João ia ligar-lhe, explicar tudo, dizer que a mãe se tinha precipitado.
O telemóvel tocou cinco minutos depois.
— Ana, olá — disse ele, com uma voz estranhamente seca, quase profissional, como se estivesse a falar com uma colega e não com a mulher. — Já chegaste?
— Estou diante da nossa porta, João. A tua mãe escreveu-me a dizer que mudou as fechaduras. Isto é uma brincadeira?
Do outro lado houve uma pausa breve.
— Não é.
— Não é? — Ana sentiu a voz tremer, mas obrigou-se a mantê-la firme. — Então o que é?
— Ouve… eu e a minha mãe conversámos muito enquanto estiveste fora. Pensámos bem. E chegámos à conclusão de que assim é melhor para toda a gente.
— “Assim” como? — perguntou ela, devagar. — Melhor em que sentido?
— Este apartamento veio-me da minha avó, Ana. É uma herança. A minha mãe acha que deve ficar na família. E tu… bem, tu percebes. Nós nem sequer falamos em ter filhos. Para quê continuar?
— Para quê continuar o quê? — perguntou ela, embora a resposta já se desenhasse dentro dela, terrível e nítida.
— O nosso casamento — respondeu João, soltando um suspiro que não parecia de tristeza, mas de alívio, como se finalmente se livrasse de um peso antigo. — A minha mãe sempre disse que tu não eras mulher para mim. Independente demais, demasiado agarrada à carreira. Até o caldo verde te sai bem só quando calha. Aguentei três anos, Ana. Chega.
Ana ficou a olhar para o ecrã. A fotografia dele sorria-lhe no fundo do telemóvel. Tinham tirado aquela imagem no ano anterior, na Serra da Estrela. Nessa altura, ele parecia feliz. Ou, pelo menos, ela acreditara nisso.
— João — disse por fim, num tom tão baixo e liso que parecia gelo sobre água parada. — Eu investi quinze mil euros neste apartamento. Tenho recibos, transferências, extratos. Não podes simplesmente pôr-me na rua como se eu nunca tivesse existido.
— A minha mãe já tratou de pensar nisso — respondeu ele.
Ao fundo, Ana ouviu uma voz feminina. Segundos depois, João passou o telemóvel à mãe.
— Ana, minha querida — começou Maria, com aquela doçura pegajosa que usava sempre que queria parecer bondosa.
