— Ana, querida — entoou Maria, com aquela voz melosa que usava quando queria parecer razoável. — Não faças uma tragédia. Arrumei as tuas coisas com todo o cuidado, pus tudo em caixas e levei para a arrecadação. Não desapareceu nada, podes ficar descansada. Quanto ao dinheiro… bem, havemos de te devolver. Aos poucos. Em prestações. Quando o João se conseguir endireitar.
— Endireitar-se de quê? — Ana sentiu uma fúria fria subir-lhe pelo peito. — Ele trabalha na vossa empresa, recebe ordenado todos os meses. Que raio de “endireitar-se” é esse?
— Não me fales nesse tom — cortou a sogra, e a doçura evaporou-se de imediato. — Viveste três anos na casa que era da minha falecida mãe. Achavas que isso não tinha preço? Considera esses valores uma renda. Estamos quites.
E desligou.
Ana ficou sentada nos degraus mais uns dez minutos. Vizinhos entravam e saíam, cumprimentavam-na, olhavam para trás com estranheza. Ela não lhes respondeu. Nem sequer os via. Estava a pensar.
Três anos antes, casara-se com João convencida de que tinha encontrado um homem sólido, sereno, confiável. Não era arrebatado nem especialmente romântico, mas parecia decente. Previsível. Seguro. O único problema tinha sempre sido a mãe dele: uma mulher autoritária, incapaz de ver o filho como adulto e não como uma posse.
Maria aparecia em casa deles sem avisar. Mudava móveis de lugar, abria armários, criticava a comida de Ana, explicava-lhe como se deviam engomar as camisas do “menino”. Ana engolia em seco. Sorria. Dizia a si própria que, com tempo, a sogra acabaria por aceitá-la como parte da família.
Mas Maria nunca tivera essa intenção. Limitara-se a esperar. Durante três anos, tecera a sua teia, gota a gota, envenenando a cabeça do filho. E agora, aproveitando a viagem de trabalho de Ana, a aranha atacara.
Ana levantou-se. Sacudiu o casaco, tirou o telemóvel da mala e marcou um número.
— Inês, olá. Posso dormir em tua casa esta noite? Explico-te tudo quando chegar.
Os três dias seguintes foram vividos como uma operação de combate. Ana contratou um advogado, reuniu todos os papéis relacionados com o apartamento, foi buscar extratos bancários dos últimos três anos. Descobriu que, legalmente, Maria não podia trocar a fechadura sem autorização de todos os titulares. E, de acordo com a certidão de casamento e o contrato do crédito à habitação, Ana também tinha direitos sobre aquele imóvel.
O advogado era um homem prático, de olhar cansado, com ar de quem já vira demasiadas guerras familiares.
— Um clássico — murmurou ele, folheando a documentação. — A mãezinha decidiu salvar o filhinho da mulher “errada”. Já vi isto mais vezes do que gostaria. Mas, neste caso, ela foi longe demais. Mudar a fechadura e impedir a sua entrada equivale a privá-la do acesso a um bem onde tem interesse legal. Podemos apresentar queixa por exercício arbitrário e coação.
— E quanto ao apartamento? — perguntou Ana.
— Foi integrado na vida do casal e há um contrato de crédito associado. Mesmo que tenha vindo da família dele, a senhora investiu dinheiro nas prestações e nas obras. Tem comprovativos?
— Tenho todos. Recibos, transferências, faturas. Não falta nada.
— Então, em caso de divórcio, terá direito a uma compensação. E não será pequena.
Ana assentiu em silêncio. Divórcio. A palavra, que antes lhe parecia um abismo, soava agora de outra maneira. Soava a saída. A ar limpo. A liberdade.
No quarto dia, ligou a João.
— Temos de nos encontrar. Precisamos de falar.
Ele aceitou sem entusiasmo, claramente orientado pela mãe, que, ao que tudo indicava, queria supervisionar a tal “devolução do dinheiro”. Combinaram encontrar-se num café a poucos quarteirões daquele mesmo apartamento.
