Ana chegou antes da hora marcada. Sentou-se junto à janela, pediu um chá e ficou a observar a rua, sem tocar na chávena. Quinze minutos depois, João apareceu à entrada. E, como era de esperar, atrás dele vinha Maria. A sogra avançava com a rigidez de quem entra num campo de batalha: costas direitas, boca apertada, olhar carregado daquela superioridade fria que Ana conhecia bem demais.
— Ainda bem que finalmente ganhaste juízo, Ana — começou Maria, antes sequer de se sentar. — O João já tratou do pedido de divórcio. Só falta assinares a tua concordância. Também trouxemos os documentos em que declaras que não tens qualquer pretensão sobre o apartamento. Assinas isso e cada um segue o seu caminho sem confusões.
Ana não respondeu logo. Virou apenas o rosto para o marido. João mantinha os olhos presos ao menu, como se ali estivesse escrita a salvação dele.
— João — chamou ela, num tom baixo. — Não tens nada a dizer? Ou a tua mãe vai continuar a falar por ti até ao fim da vida?
Ele contraiu o rosto, incomodado, mas não abriu a boca.
— Não sejas malcriada — cortou Maria. — O meu filho merece alguém melhor. Uma mulher que cuide dele, que esteja em casa, que lhe dê filhos, que tenha a comida ao lume e a casa em ordem. Não uma ambiciosa que anda sempre de um lado para o outro em trabalho. Tu nunca soubeste o que é uma família.
Ana soltou uma pequena gargalhada seca.
— Não sei? A minha vida está bem assente, Maria. Tenho formação, trabalho e amor-próprio. Já o seu filho, pelo que vejo, nem opinião própria tem.
— Como é que te atreves? — A sogra começou a erguer-se da cadeira, rubra de indignação.
— Sente-se — disse Ana.
A voz dela saiu tranquila, mas havia nela uma firmeza cortante. Maria ficou imóvel, a meio do gesto, surpreendida por aquele tom que nunca lhe ouvira.
— Não vou assinar renúncia nenhuma — prosseguiu Ana, abrindo a mala e retirando uma pasta com documentos. — Aqui estão os extratos bancários. Durante três anos transferi cerca de catorze mil euros para ajudar a pagar o crédito da casa. Aqui estão as faturas das obras e das melhorias: mais três mil euros. E aqui está a informação da advogada a confirmar que mudar as fechaduras sem o meu consentimento configura uma atuação ilegal.
Espalhou os papéis sobre a mesa, alinhando-os diante deles com calma, como quem pousa cartas decisivas.
— Se no prazo de vinte e quatro horas eu não voltar a ter acesso ao apartamento, apresento queixa. Se, no divórcio, não me for compensado aquilo que investi, avanço para tribunal. E vou ganhar.
João perdeu a cor. Só então levantou os olhos para ela, e Ana viu neles algo que se parecia muito com medo.
— Ana, espera lá… — murmurou ele, atrapalhado. — Talvez possamos resolver isto a bem. A minha mãe exaltou-se, nós também nos exaltámos…
— Não, João — interrompeu ela. — A bem devíamos ter resolvido isto há três anos. Quando a tua mãe mexeu nos meus móveis pela primeira vez. Quando deitou fora as minhas plantas porque, segundo ela, “só juntavam pó”. Quando abria as minhas gavetas e lia a minha correspondência. Tu viste tudo. E ficaste calado. Comias a comida dela, abanavas a cabeça e deixavas passar. Agora é tarde.
Maria ficou da cor do vinho.
— Não vais conseguir provar nada — sibilou. — Esse apartamento veio da minha mãe para o João. Ele é o único herdeiro.
— A herança não está em causa — respondeu Ana, inclinando ligeiramente a cabeça. — Mas as melhorias feitas durante o casamento têm consequências legais. E eu fiz muitas. Tenho testemunhas, recibos e fotografias. Se querem discutir isto em tribunal, discutimos.
Um silêncio pesado caiu sobre a mesa. A empregada aproximou-se para anotar o pedido, viu as expressões fechadas dos três e recuou discretamente.
João passou a mão pelo rosto e engoliu em seco antes de conseguir falar.
