— Eu proíbo-te de ires para lá! — a sogra irrompeu-lhes em casa sem sequer bater à porta, trazendo na mão a folha impressa da viagem que eles tinham reservado.
— Eu disse que te proíbo de ires! — repetiu Maria, com a voz a tremer de uma fúria mal contida, depois de entrar no apartamento do filho como se a casa também lhe pertencesse.
Ana ficou imóvel junto ao fogão, ainda com uma panela nas mãos, incapaz de acreditar no que via. No meio da cozinha estava a sogra, enfiada no seu casaco caro, apertando entre os dedos um papel amarrotado. O rosto dela ardia de indignação.
João levantou-se de um salto da mesa, onde, segundos antes, almoçava tranquilamente com a mulher.
— Mãe, mas o que aconteceu? De que é que estás a falar?

Maria atirou o papel para cima da mesa. Era a confirmação impressa de uma agência de viagens: uma reserva para duas pessoas, duas semanas de férias no Algarve.
— Aconteceu isto! A vizinha Sofia viu-te entrar na agência! E ainda bem que teve a decência de me avisar! Como foste capaz?
Ana pousou com cuidado a panela no fogão e virou-se para ela.
— Maria, o João e eu andamos a planear estas férias há seis meses. Qual é exatamente o problema?
A sogra nem lhe concedeu um olhar. Continuou a fitar o filho, como se Ana não existisse.
— O problema é que o meu único filho se prepara para abandonar a mãe durante duas semanas! Já não vos chegou irem viver separados de mim? Agora ainda desaparecem para sabe-se lá onde!
— Mãe, são só férias — tentou João, num tom conciliador. — Daqui a duas semanas estamos de volta.
— E se me acontece alguma coisa? — Maria levou a mão ao peito, dramática. — Tenho sessenta e oito anos! A tensão anda aos saltos, as articulações doem-me, mal me aguento às vezes! E vocês vão ficar estendidos ao sol, numa praia qualquer, enquanto eu fico aqui sozinha…
Ana sentiu a irritação conhecida começar a subir-lhe pela garganta. Em três anos de casamento, já assistira a dezenas daqueles “ataques” da sogra, que surgiam sempre, por coincidência, quando ela e João planeavam alguma coisa sem a incluir.
— Maria, a senhora tem telefone. Se acontecer alguma coisa, pode ligar-nos a qualquer momento — respondeu Ana, mantendo a calma.
Só então a sogra lhe dirigiu o olhar. Frio, duro, carregado de desprezo.
— Contigo eu não estou a falar! Isto é tudo obra tua! Antes de tu apareceres, o meu filho nunca ia a lado nenhum sem mim!
— Antes de eu aparecer, o seu filho tinha vinte e cinco anos — retorquiu Ana. — Agora tem trinta e dois. As pessoas crescem, casam, formam a própria família e, imagine-se, até vão de férias…
— Não me venhas ensinar como se vive! — cortou Maria, erguendo a voz. — Criei o meu filho sozinha, sem marido, sem ajuda de ninguém! Dei-lhe a minha vida inteira! E agora aparece uma… — lançou a Ana um olhar cheio de significado — que mo quer tirar!
João colocou-se entre as duas, tentando impedir que a discussão se transformasse numa explosão.
— Mãe, ninguém está a tirar ninguém de ninguém. Nós só queremos descansar um pouco. São as nossas primeiras férias a dois em três anos!
— Descansar também se descansa cá! — disparou Maria. — Na casa de campo, por exemplo. Eu também podia ir, apanhava ar puro, fazia-me bem…
Ana não conseguiu evitar revirar os olhos. A famosa casa de campo da sogra merecia um capítulo à parte. Todos os fins de semana, Maria esperava que eles aparecessem para ajudar: arrancar ervas, arranjar canos, limpar, carregar coisas, cozinhar. E, claro, nunca faltava motivo para criticar a nora: porque mondava mal, porque a comida ficava sem sabor, porque lavava a loiça de maneira errada.
— A viagem já está paga — disse João, desta vez com mais firmeza. — Não vamos cancelar.
Maria abriu os braços num gesto teatral.
— Já está paga! E perguntar-me a mim, não? Eu sou tua mãe!
— E então? — Ana perdeu a paciência por um instante. — Temos de pedir autorização para cada passo que damos? Somos adultos!
— João! — Maria ignorou-a de propósito, como se a frase não tivesse sido pronunciada. — Vais permitir que ela fale assim comigo?
João olhou da mãe para a mulher, visivelmente dividido.
— Mãe, a Ana tem razão. Nós temos o direito de ir de férias…
— Direito! — repetiu Maria, com escárnio. — E deveres para com a tua mãe, já não existem? Ou essa mulher — apontou para Ana com um gesto brusco — já te virou completamente a cabeça?
Ana fechou as mãos em punhos, sentindo a humilhação ferver-lhe por dentro.
