“Aquela mulher.” Era assim que Maria gostava de lhe chamar. Em três anos, nunca uma única vez se dera ao trabalho de a tratar pelo nome. Para ela, Ana era sempre “essa”, “a tua mulher” ou, simplesmente, uma presença que preferia fingir que não existia.
Ana deu um passo em frente, incapaz de se conter por mais tempo.
— Sabe uma coisa, Maria? Chega. Estou farta da sua insolência, das suas chantagens emocionais e dos seus dramas constantes. Nós vamos viajar, quer a senhora goste, quer não goste.
O rosto de Maria ficou vermelho de indignação.
— João! Estás a ouvir? A tua mulher está a insultar-me! A mim, a tua mãe!
— Eu estou apenas a dizer a verdade — respondeu Ana, já sem conseguir travar a voz. — A senhora controla todos os nossos passos, telefona dez vezes por dia, exige saber onde estamos, com quem estamos, o que fazemos. Isto não é normal.
— O que não é normal é um filho esquecer-se da mãe! — disparou Maria. — O que não é normal é uma mulher virar o marido contra quem o criou!
— Eu não viro ninguém contra ninguém! — Ana ergueu a cabeça. — Só quero viver a minha vida sem ter de pedir autorização para respirar.
Maria soltou uma gargalhada seca, carregada de desprezo.
— A tua vida? Que bonito. E a casa onde vivem, é de quem? Queres que te recorde quem vos ajudou com o dinheiro da entrada?
Ali estava a carta que Maria guardava sempre na manga. Quando Ana e João tinham comprado o apartamento, ela emprestara-lhes três mil euros para completar o sinal. Desde então, não perdera uma única oportunidade de transformar aquela ajuda numa corrente ao pescoço deles.
— Nós pagamos-lhe todos os meses — lembrou Ana, esforçando-se por manter alguma firmeza. — Duzentos euros, exatamente como combinámos.
— Dinheiro é uma coisa. Gratidão é outra — retorquiu a sogra. — Uma rapariga com educação saberia valorizar a ajuda da mãe do marido, em vez de lhe responder dessa maneira.
— Uma sogra com educação não entrava pela casa dos outros sem ser convidada — devolveu Ana.
— Esta casa é do meu filho!
— E também é minha. Somos casados, caso se tenha esquecido.
Maria fungou com desdém.
— Casados… Veremos por quanto tempo. — Depois virou-se para João, que permanecera calado, como se cada palavra lhe caísse em cima. — Decide-te. Ou eu, ou ela.
A cozinha mergulhou num silêncio pesado. Ana prendeu a respiração e fixou o olhar no marido. Era aquele o momento que temera e esperara ao mesmo tempo. Durante três anos suportara as investidas da sogra, acreditando que um dia João encontraria coragem para pôr limites. Esse dia tinha chegado.
João empalideceu. Os olhos dele saltavam da mãe para a mulher, perdidos, aflitos.
— Mãe, não faças isto. Não me ponhas contra a parede…
— Ponho, sim! — cortou Maria, sem hesitar. — Não vou continuar a tolerar a falta de respeito desta pessoa. Ou te divorcias dela, ou esquece que tens mãe.
Ana sentiu o coração afundar-se. Por um instante, pareceu-lhe impossível que alguém fosse capaz de levar a crueldade tão longe. Mas Maria estava ali, de queixo erguido, à espera da sentença.
— Mãe… tu não podes estar a falar a sério — murmurou João.
— Estou a falar muito a sério. Cansei-me de ser humilhada. A tua mulher não me respeita, fala-me como se eu não fosse ninguém e ainda te envenena contra mim. Não aceito mais isto.
João parecia preso entre duas paredes a fecharem-se sobre ele. Ana via-lhe o desespero nos ombros tensos, na forma como apertava os dedos, procurando uma saída onde não havia nenhuma.
— Vamos todos acalmar-nos — disse ele, por fim, num tom baixo. — Mãe, vai para casa. Descansa. Falamos mais tarde, quando estivermos todos mais tranquilos.
— Não! — Maria bateu o pé no chão. — Eu não saio daqui enquanto não ouvir a tua resposta. Quem escolhes?
João inspirou fundo. Quando voltou a olhar para a mãe, havia tristeza no rosto dele, mas também uma firmeza que Ana raramente lhe vira.
— Mãe, eu amo-te. És minha mãe e isso nunca vai mudar. Mas a Ana é a minha mulher. Eu fiz-lhe uma promessa diante de Deus e diante de todos. E não vou quebrá-la.
Maria recuou um passo, como se tivesse levado uma bofetada.
— Então é ela que escolhes?
— Escolho a minha família — respondeu João, com a voz mais segura. — E tu podes fazer parte dela, se quiseres. Mas tens de respeitar a minha mulher. E tens de respeitar as nossas decisões.
— Respeitar? — Maria soltou uma risada aguda, quase histérica. — Eu respeitar isto… esta…
— Basta! — João levantou a voz, algo tão raro nele que até Ana estremeceu. — Mãe, estou a pedir-te que vás embora. Agora. Quando te acalmares, liga-me, e conversamos como pessoas civilizadas.
Maria ficou a encará-lo como se o visse pela primeira vez.
— Criei um filho ingrato — sibilou, com os olhos brilhantes de raiva. — Dei-te a minha vida inteira, e é assim que me retribuis.
