— Assine aqui, e o apartamento ficará em seu nome — disse o notário. Nesse instante, porém, eu recolhi a mão de repente, ao ver a minha sogra estender os dedos para os meus documentos.
— Assine neste ponto, e o imóvel passará a ser seu — repetiu o notário, empurrando os papéis para diante de Ana. Mas ela puxou a mão de volta num movimento brusco assim que percebeu Maria, a sogra, a tentar agarrar a documentação.
Aquela cena, dentro do cartório, marcou uma viragem na vida de Ana. Sentada em frente ao notário, apertava os documentos com tanta força que os dedos lhe ficaram brancos. Um arrepio gelado desceu-lhe pelas costas.
Ao seu lado estava o marido, João. Do outro lado da mesa, instalada como se fosse ela a dona da situação, encontrava-se Maria, mãe dele. Com o cabelo impecavelmente armado e uns olhos cinzentos, duros como pedra, aquela mulher vinha transformando a existência de Ana num inferno havia três anos.
— Então, confirmemos — disse o notário, ajustando os óculos sobre o nariz. — O apartamento será registado em nome de Ana, correto?

— De maneira nenhuma! — cortou Maria, com uma voz afiada. — Tem de ficar no nome do meu filho. É o mais natural. Numa família, o homem é que deve ser proprietário da casa.
Ana sentiu o sangue ferver-lhe por dentro. Aquele apartamento ia ser comprado com o dinheiro que herdara da avó. Dinheiro guardado, poupado e investido ao longo de cinco anos. E agora a sogra pretendia que o imóvel fosse colocado em nome de João?
— A minha mãe tem razão — disse João de súbito, sem a encarar. — Talvez fosse mesmo mais correto assim.
Ana virou-se para ele, atónita. Tinham falado sobre aquilo. Tinham combinado tudo. O apartamento ficaria em nome dela porque o dinheiro era dela.
— João, mas nós já tínhamos decidido… — começou ela.
Maria não a deixou terminar.
— Minha querida, não faças cenas diante de estranhos. Tu própria sabes que isto é o melhor para a família. Nunca se sabe o dia de amanhã. E se um dia vocês se separarem? O meu filho fica sem nada?
O notário tossiu discretamente.
— Peço desculpa, mas só posso proceder de acordo com o contrato de compra e venda. E, no contrato, a compradora é Ana.
— Isso altera-se! — exclamou Maria, erguendo a voz. — João, explica-lhe tu!
João remexeu-se na cadeira, desconfortável.
— Ana, talvez a mãe esteja a ver bem as coisas. Pomos no meu nome, que diferença faz? Somos uma família.
A garganta de Ana apertou-se. Quando se tinham casado, três anos antes, João era outro homem. Carinhoso, atento, capaz de a apoiar em tudo. Mas depois de se mudarem para mais perto da mãe dele, alguma coisa se partira.
Maria começara a mandar em cada detalhe da vida deles. E João… João deixara de ser marido. Tinha voltado a ser o menino da mamã, incapaz de dar um passo sem pedir licença.
— Que diferença faz? — repetiu Ana, esforçando-se por manter a voz firme. — Faz toda a diferença, João. É o meu dinheiro. É a herança da minha avó.
— E então? — bufou Maria. — Vocês são marido e mulher! Numa família normal, tudo pertence aos dois. Ou será que não confias no teu próprio marido?
Ana olhou fixamente para a sogra. Desde o primeiro dia, aquela mulher fizera questão de lhe mostrar que não a considerava digna do seu precioso filho. Demasiado simples, demasiado pobre, demasiado independente. Maria queria outra nora: obediente, calada, sempre pronta a cumprir as suas vontades.
— Eu confio no João — disse Ana devagar. — Mas o apartamento ficará em meu nome.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala. O rosto de Maria tingiu-se de vermelho.
— Ingrata! Nós recebemos-te na nossa família, e tu…
— E eu o quê? — Ana levantou-se. — Estou a comprar uma casa com o meu dinheiro e quero ser a proprietária. Isso é algum crime?
— João, estás a ouvir a maneira como ela fala comigo? — Maria levou a mão ao peito. — Ai… estou-me a sentir mal…
João saltou da cadeira e correu para junto da mãe.
— Mãe! Mãezinha! Ana, o que é que fizeste?
Mas Ana já conhecia aquele teatro de cor. Sempre que ela tentava defender-se, Maria sofria imediatamente de um “ataque cardíaco”.
— Quer que eu chame uma ambulância? — perguntou o notário.
Maria abanou a mão, dramaticamente.
— Não é preciso… Só água… João, leva-me para casa.
João ajudou a mãe a pôr-se de pé. Depois lançou a Ana um olhar carregado de acusação.
— Estás satisfeita? Vês ao ponto a que levaste a minha mãe?
— Eu só quero comprar o apartamento com o dinheiro que é meu — respondeu Ana, cansada.
— Em casa falamos melhor sobre isto — rosnou João, antes de sair com Maria pelo braço.
Ana ficou sozinha no gabinete. O notário observou-a com uma expressão de sincera pena.
— É uma situação complicada. Mas, do ponto de vista legal, a senhora tem todo o direito de registar o imóvel em seu nome. O dinheiro é seu. A decisão também.
— Obrigada — disse Ana, voltando a pegar nos papéis. — Então tratemos de concluir isto hoje.
Uma hora depois, saiu do cartório com a certidão do registo na mão. O apartamento era finalmente dela. Ainda assim, não sentiu alegria. O que lhe pesava no peito era a angústia de imaginar o que a esperava quando chegasse a casa.
Só regressou já tarde. Tinha demorado de propósito, andando sem rumo, adiando o inevitável. Mas não havia forma de escapar. Mal abriu a porta, ouviu a voz de Maria estalar vinda da sala:
— Ora, finalmente apareceu a senhora dona de tudo!
Ana entrou. João estava sentado no sofá ao lado da mãe. Ambos a olharam como se ela tivesse cometido uma traição imperdoável.
— Então? Estás contente? — perguntou João, num tom amargo. — Compraste o teu apartamentinho?
— Comprei — respondeu Ana, tirando o casaco. — Está tudo resolvido.
— E não tens vergonha? — disparou Maria. — Envergonhas a família inteira! O que é que as pessoas vão pensar?
— Que pessoas? — perguntou Ana, exausta.
— Todas! Os vizinhos, os parentes, toda a gente! Vão dizer que não confias no teu marido, que na tua casa não há união, que a família está toda ao contrário!
Ana sentou-se no cadeirão em frente deles.
— Maria, aquele dinheiro é meu. Tenho o direito de o usar como entender.
