— Teu? — troçou a sogra, com um sorriso duro. — E quem foi que te sustentou durante estes três anos? Quem te pôs roupa no corpo? O meu filho!
Era mentira, e Ana sabia-o bem. Trabalhava como professora, recebia praticamente o mesmo que João e, desde o início do casamento, as despesas tinham sido divididas ao meio. Renda, compras, contas, tudo. Mas discutir com Maria era como falar para uma parede: no mundo dela, só existia a versão que lhe convinha.
— A minha mãe tem razão — interveio João, cruzando os braços. — Eu cuidei de ti, e é assim que me agradeces.
Ana respirou fundo, tentando manter a voz firme.
— João, nós os dois trabalhamos. Nós os dois contribuímos para a casa. E aquele dinheiro veio da minha avó. Foi uma herança. Nunca fez parte do orçamento familiar.
— Faz parte de tudo! — gritou Maria, quase num guincho. — Numa família decente não há cá “meu” e “teu”!
Ana, que até então se esforçara por não responder no mesmo tom, sentiu a paciência estalar.
— Então por que razão a casa de férias está apenas em seu nome? — perguntou. — E por que motivo o carro do João também está registado só em nome dele?
Durante um segundo, Maria ficou sem reação. O olhar dela vacilou, mas rapidamente recuperou a compostura e ergueu o queixo.
— Isso é diferente! Um homem deve ter património! Uma mulher… uma mulher tem é de confiar no marido!
Ana virou-se para João.
— Eu confio em ti. Mas confiar não significa entregar-te tudo o que é meu.
— És uma egoísta! — disparou ele. — Só pensas em ti!
A frase atingiu-a como uma bofetada. Egoísta? Ela, que durante três anos suportara as alfinetadas da sogra, preparara refeições para todos, lavara, limpara, organizara a casa? Ela, que passava fins de semana a levar Maria às compras, às consultas, a tratar de recados que nem sequer eram seus?
Ana levantou-se devagar.
— Sabem uma coisa? Por hoje chega. Falamos amanhã.
— Não vais a lado nenhum! — Maria também se pôs de pé num salto. — Isto resolve-se agora! João, diz-lhe alguma coisa!
— Ana, senta-te — ordenou ele, num tom que ela nunca lhe tinha ouvido. — A minha mãe ainda não acabou.
Mas Ana não se sentou. Ficou ali, imóvel, a olhar para aquelas duas pessoas que pareciam convencidas de ter autoridade sobre a sua vida, o seu dinheiro e as suas decisões.
— Não — respondeu, baixo, mas sem hesitar. — Vou deitar-me. Se têm tanto para discutir, discutam entre vocês.
Virou costas e seguiu para o quarto, deixando João e Maria parados na sala, atónitos. Atrás de si, ainda ouviu a sogra elevar a voz, indignada, mas não olhou para trás.
No quarto, fechou a porta à chave e encostou-se a ela. O coração batia-lhe desordenado. Tinha consciência de que acabara de ultrapassar uma linha invisível, uma daquelas regras não escritas daquela família: a sogra mandava, a nora calava-se e obedecia.
O telemóvel vibrou em cima da cómoda. Era uma mensagem de Sofia, a amiga: “Então? Compraste o apartamento? Parabéns!”
Ana sorriu, mas o sorriso saiu-lhe triste. Sim, tinha comprado. Mas a que preço?
Nos dias seguintes, a casa transformou-se num território gelado. João deixou de lhe dirigir a palavra de forma ostensiva, e Maria, sempre que a via, soltava suspiros dramáticos e levava a mão ao peito, como se Ana tivesse cometido uma crueldade imperdoável. Ana suportou aquele boicote em silêncio. Sabia que qualquer tentativa de reconciliação acabaria numa nova discussão.
Na sexta-feira, ao regressar do trabalho, encontrou uma surpresa à sua espera. Na sala não estavam apenas João e a mãe. Sentada no sofá, com ar grave, encontrava-se também Helena, tia de João e irmã de Maria.
— Ora, finalmente chegou! — anunciou Maria, como se Ana fosse uma ré perante um tribunal. — Helena, olha bem para ela. Esta senhora não quer confiar no meu filho!
Helena percorreu Ana de alto a baixo com um olhar avaliador.
— Já ouvi a história toda — disse, com desaprovação. — Muito feio, Ana. Muito feio mesmo. Na nossa família, essas coisas não se fazem.
— Na vossa família não se aceita que uma mulher tenha alguma coisa em nome dela? — perguntou Ana, mantendo a calma.
— Não distorças as palavras! — rosnou Maria. — Estamos a falar de confiança! De valores familiares!
— Exatamente — confirmou Helena, muito séria. — A minha filha, quando se casou, pôs tudo em nome do marido. O apartamento, o carro, tudo. E vivem muito bem.
Ana conhecia aquela história. A filha de Helena divorciara-se dois anos depois e ficara sem nada. Mas dizer isso em voz alta só serviria para incendiar ainda mais a sala.
— Ana, senta-te — disse João, apontando para uma cadeira. — A tia Helena veio de propósito para conversar contigo.
— Conversar sobre o quê? — Ana continuou de pé. — O apartamento já foi comprado e está registado em meu nome.
— É precisamente disso que se trata! — Maria puxou de alguns papéis que estavam sobre a mesa. — O João encontrou uma solução. Podes passar o apartamento para ele por doação. O contrato está aqui. Só tens de assinar.
Ana olhou para as folhas, incrédula. Estariam mesmo à espera de que ela oferecesse, sem mais nem menos, o apartamento comprado com o dinheiro da avó?
— Não — disse apenas.
— Como assim, não?! — explodiu Helena. — Mas quem é que tu pensas que és para falar desse modo? A Maria acolheu-te nesta família e tu…
— E eu o quê? — interrompeu Ana. — Trabalho, ganho o meu salário, trato da casa. Sou uma boa mulher para o João. Mas isso não me obriga a entregar tudo o que tenho!
— Claro que obriga! — berrou Maria. — Tens de respeitar o teu marido! Tens de confiar nele!
Ana sentiu a revolta crescer-lhe por dentro, quente e pesada.
— Eu respeito-o. E confio nele. Mas respeito não significa que eu deixe de ter direitos.
— Como te atreves a falar assim? — Maria pôs-se novamente de pé. — João, estás a ouvir o que ela diz?
— Ana, já chega — João levantou-se também. — Não estás a portar-te como uma pessoa normal. Assina esses papéis e acabamos com este circo.
Ana soltou uma gargalhada curta, amarga.
— Eu é que não me estou a portar de forma normal? Vocês montaram uma reunião de família para me obrigarem a ficar sem o meu apartamento.
