— Ninguém te está a roubar coisa nenhuma! — ofendeu-se Helena. — Mas, numa família decente, os bens ficam nas mãos do homem!
— Numa família decente, as pessoas respeitam-se — respondeu Ana, sem desviar o olhar. — Não se organiza uma campanha contra alguém por causa de dinheiro.
— Campanha? — Maria levou outra vez a mão ao peito, como se a palavra a tivesse ferido fisicamente. — João, ouviste isto? Ela disse… Ai, sinto-me mal!
Desta vez, porém, Ana já não caiu naquela encenação.
— Chega. Estou farta. Durante três anos aguentei chantagens, ataques de nervos, tentativas constantes de controlar cada passo que eu dava. Mas o meu apartamento, esse, eu não entrego.
— Então desaparece daqui! — berrou João. — Sai já da minha casa!
— Da tua casa? — Ana sorriu, mas havia mais amargura do que riso naquele gesto. — Este apartamento é arrendado pelos dois, e a renda é paga a meias. Mas sabes uma coisa? Tens razão. Vou-me embora. Para a minha própria casa.
Virou-lhes as costas e entrou no quarto para arrumar as suas coisas. Atrás dela continuavam a ouvir-se os gritos estridentes de Maria, os pedidos aflitos de Helena e as ameaças de João. Nada daquilo a fez parar. A decisão, dentro dela, já estava tomada.
Duas horas depois, Ana surgiu à entrada com uma mala na mão. João colocou-se à sua frente, bloqueando-lhe a passagem.
— Estás mesmo a falar a sério? Vais destruir uma família por causa de um maldito apartamento?
— Não é por causa do apartamento, João — respondeu ela, exausta. — É por causa do respeito. É por eu ter direito a existir como pessoa, e não como uma sombra da tua mãe.
— Tu sabes lá o que é uma família! — sibilou Maria. — És uma mulher vazia. Três anos de casamento e nem um filho conseguiste dar ao meu filho!
Aquelas palavras atingiram-na em cheio. Ana sabia que tinham dificuldades em engravidar. Já tinham feito exames, consultas, esperas angustiantes. Mas transformar essa dor numa arma era de uma crueldade que ela não esperava ouvir, mesmo vindo de Maria.
— Passe bem, Maria — disse Ana, abrindo a porta. — João, se algum dia quiseres conversar como um adulto, tens o meu número.
O apartamento novo recebeu-a com silêncio e cheiro a tinta fresca. Era pequeno, tinha apenas uma divisão, mas pertencia-lhe. Ana deixou a mala no corredor e aproximou-se da janela. Lá em baixo havia um pátio sossegado, com um parque infantil e algumas árvores ainda claras de primavera.
O telemóvel não parava de tocar. João. Maria. Até Helena tentou ligar. Todos queriam alcançá-la, todos queriam puxá-la de volta para aquela teia. Ana pôs o aparelho em silêncio e deitou-se no sofá novo, entregue nesse mesmo dia.
Ficou a olhar para o teto e pensou nos últimos três anos. Em como, aos poucos, se tinha perdido de si própria enquanto tentava corresponder às exigências da sogra. Em como João, que antes fora carinhoso e atento, se transformara num homem incapaz de dar um passo sem olhar primeiro para a mãe. E pensou também que amor nenhum justificava aceitar humilhações.
Na manhã seguinte, foi acordada pelo toque da campainha. Ana vestiu à pressa um roupão e espreitou pelo óculo da porta. Do outro lado estava João, com o rosto amarrotado e os olhos vermelhos.
— Ana, por favor, abre — pediu ele, com a voz cansada, quase suplicante. — Precisamos de falar.
Ela destrancou a porta.
— Entra.
João passou para dentro e olhou à volta, demorando-se nos cantos ainda vazios.
— É bonito — murmurou. — Pequeno, mas… acolhedor.
— Obrigada — Ana encaminhou-se para a cozinha. — Queres chá?
— Quero — respondeu ele, sentando-se. — Ana, temos de resolver isto. A minha mãe disse…
— Para — interrompeu-o ela de imediato. — Se vieste aqui apenas para me entregar mais um recado da tua mãe, podes ir embora.
— Não, eu… — João hesitou, como se tivesse perdido o discurso que preparara. — Eu quero falar contigo. Só que a minha mãe está preocupada. Ela sempre se habituou a que as coisas fossem feitas à maneira dela.
— E tu também te habituaste — observou Ana, enquanto servia o chá.
— Talvez — admitiu ele, com uma sinceridade que a surpreendeu. — Mas isso não é motivo para rasgarmos a nossa família ao meio.
Ana pousou a chávena diante dele e sentou-se do outro lado da mesa.
— E aquilo que nós tínhamos era uma família, na tua opinião? A tua mãe decidia a nossa vida. Dizia-me que roupa vestir, o que cozinhar, como me comportar, quando falar e quando calar. E tu, invariavelmente, ficavas do lado dela.
João baixou os olhos.
— Ela é minha mãe. Não posso virar-me contra ela.
— E eu sou tua mulher. Ou era. E tu nunca, nem uma única vez, te puseste ao meu lado.
Durante algum tempo, João ficou calado, girando a caneca entre as mãos. Depois levantou o olhar.
— Desculpa. A sério. Acho que nunca percebi o quanto isto era pesado para ti. A minha mãe sempre parecia… tão certa de tudo.
— Ela é tua mãe, e tu amas-a. Isso é normal — suspirou Ana. — Mas, quando um homem casa, constrói uma nova família. E essa família precisa de passar a estar em primeiro lugar.
— Queres divorciar-te? — perguntou ele, num fio de voz.
Ana demorou a responder. Ainda o amava. Ou, pelo menos, amava o João que tinha conhecido quatro anos antes. O homem que ria com ela, que lhe pegava na mão na rua, que fazia planos sem consultar ninguém. Mas esse João parecia ter desaparecido havia muito.
— Quero viver separada — disse finalmente. — Preciso de pensar. E tu também precisas de perceber o que é mais importante para ti: a tua mãe ou a tua mulher.
— Isso não é justo. Estás a obrigar-me a escolher.
— E foi justo esperares que eu te oferecesse o meu apartamento? — Ana abanou a cabeça. — João, estou cansada de lutar por um lugar na tua vida. Cansada de provar que tenho direito a uma opinião, a limites, a dignidade.
Ele levantou-se devagar.
— Entendi. Espero que sejas feliz no teu apartamentinho. Sozinha.
— E eu espero que um dia te tornes um homem adulto, e não o menino preferido da mãe para sempre — respondeu Ana, sem erguer a voz.
Quando a porta se fechou atrás dele, Ana não chorou. Foi até à janela e abriu-a de par em par. O ar fresco da primavera entrou pela casa, leve e limpo. No parque infantil, as crianças riam enquanto corriam de um lado para o outro.
Ana sorriu. Sim, doía. Sim, talvez o divórcio fosse inevitável. Mas, pela primeira vez em três anos, sentia-se livre. Livre do controlo, das humilhações, da necessidade permanente de se defender.
O telefone voltou a tocar. No ecrã apareceu o nome de Maria. Ana recusou a chamada e bloqueou o contacto. Em seguida, fez o mesmo com o número de Helena.
Quando chegou ao contacto de João, parou. Ainda havia nela uma ponta de esperança de que ele mudasse, de que um dia percebesse tudo o que tinha deixado acontecer. Mas essa esperança, frágil e cansada, começava a desvanecer-se um pouco mais a cada dia.
Passou uma semana.
