“Por sua causa, eu e o João estamos prestes a divorciar-nos” — Ana explode na porta e deixa Maria em choque

Histórias
A invasão bem-intencionada revelou consequências terríveis e injustas.

Maria apareceu em casa da nora sem avisar, num sábado, já depois do almoço. Sabia que os netos estavam doentes, mas, nos últimos tempos, Ana deixara de lhe pedir ajuda. Dizia sempre que se desenrascava sozinha. Sozinha, sim… mas Maria também era mãe e sabia demasiado bem como três crianças pequenas podiam deixar qualquer pessoa de rastos. Além disso, os pais de Ana viviam noutra cidade e não podiam aparecer de um momento para o outro.

Por isso, depois de hesitar um pouco, decidiu ser atrevida e tocar à campainha sem convite. Ana abriu a porta, e bastou um segundo para Maria perceber que fizera bem em ir. A nora tinha um aspeto deplorável: o rosto chupado pelo cansaço, olheiras fundas, o cabelo preso à pressa num rabo de cavalo torto e uma nódoa de papa infantil na T-shirt.

— Olá, querida. Como estão os miúdos?

Ana pestanejou devagar, como se tivesse sido arrancada de um sono em pé, e respondeu com uma voz sem forças:

— O Pedro adormeceu. A febre acabou de baixar. A Sofia consegui acalmá-la, está a ver desenhos animados. O Tiago ainda dorme… passou a noite com febre.

— Então fazemos assim: eu fico com eles e tu vais deitar-te um bocado — começou Maria, já a tirar o casaco.

Mas Ana interrompeu-a de forma brusca:

— Não, Maria. Por favor, sente-se. Tenho de falar consigo.

Maria ficou imediatamente alerta. Havia qualquer coisa naquele tom que lhe fez gelar o sangue. Um pressentimento desagradável percorreu-lhe os braços como uma corrente fria, e o peito apertou-se-lhe.

— Diz, Ana.

A nora respirou fundo, como quem se obriga a atravessar uma porta que não quer abrir.

— Maria, eu respeito-a muito. A senhora sempre nos ajudou, nunca neguei isso. Mas… — calou-se por um instante, engolindo em seco. — Mas eu não consigo continuar assim. Estou farta de me calar. Já não tenho forças. Por sua causa, eu e o João estamos prestes a divorciar-nos.

Maria olhou-a sem compreender.

— Por minha causa? Que queres dizer com isso?

— Quero dizer exatamente isso! — explodiu a mulher do filho, incapaz de conter o desespero. — A senhora está sempre a chamar o João para sua casa. Ele vai ter consigo quase todos os dias. Ora é o coração que aperta, ora é a tensão, ora são tonturas. Ele larga tudo: o trabalho, os filhos, a mim… e corre para si. Hoje, sábado, está enfiado no emprego porque não conseguiu acabar um relatório a tempo, precisamente por andar sempre atrás dos seus problemas! Eu entendo que a senhora viva sozinha, que ele seja o seu único filho. Mas não é uma velha indefesa, Maria. Tem cinquenta e quatro anos. E agora diga-me: veio cá para quê? Ajuda-me durante uma hora e depois passa uma semana de cama? E ainda por cima não para de lhe atirar à cara que ficou sem saúde por nos ajudar!

Maria abriu a boca, tentando intervir, mas Ana já não conseguia parar.

— Deixe-me acabar. O João também está exausto. E a senhora recusa-se a chamar um médico! Mesmo quando, supostamente, as pernas deixam de lhe obedecer, nem uma ambulância chama! Já chega destas manipulações com doenças!

Maria sentiu o ar faltar-lhe. Cada palavra da nora caía sobre ela como uma acusação absurda, monstruosa. Ana parecia convencida de que ela era uma espécie de tirana disfarçada de mãe frágil.

— Ana, eu…

— Basta! — Os olhos da nora encheram-se de lágrimas, mas, em vez de chorar, ela bateu com o punho na mesa. — Temos três filhos. Eu estou de licença, fechada em casa com eles. Eu preciso do meu marido, percebe? Eu! A senhora usa a saúde para o prender. A senhora não está doente; simplesmente não quer largar o filho da sua sombra. Nós já quase não dormimos juntos, já quase nem falamos. Ele chega, come qualquer coisa e foge para sua casa. Os miúdos estão com febre, e ele consigo! Afinal, porque veio? Como o João não atende o telefone, decidiu vir ver se o seu criado não tinha escapado?

Maria permaneceu sentada, branca como cal. Tinha na ponta da língua uma resposta simples e terrível: nunca o chamara, nunca se queixara da saúde, sentia-se forte e inteira. E havia ainda uma coisa, a mais importante, que não encaixava em nada do que acabara de ouvir.

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