…pois ele já não aparecia em minha casa há uns três meses. Nem sequer faço ideia do que estás a dizer.
Mas Maria não era ingénua. Calou-se porque, de repente, diante dela se abriu uma explicação muito mais feia, tão evidente que lhe revolveu o estômago.
Pois era. Quanto mais monstruosa é uma mentira, mais depressa alguém acredita nela. E Ana, coitada, não estava propriamente a mentir. Dizia a verdade que conhecia. João, muito provavelmente, alimentava-a com histórias sobre doenças da mãe, consultas urgentes, exames, crises. Só que Maria compreendeu no mesmo instante onde andava, na realidade, o seu dedicado filho. A nora, felizmente, ainda não.
— Ana — disse ela, baixinho, escolhendo cada palavra com cuidado para não deixar escapar nada que pudesse destruir tudo ali mesmo. — Perdoa-me por isto ter chegado a este ponto. Eu devia ter pensado que ele tem mulher, tem filhos, tem uma casa. Já fiz os exames, uma amiga ajudou-me, e em breve estarei completamente bem. Vai descansar um pouco. Eu fico com os pequenos.
Ana ergueu para ela os olhos inchados de tanto chorar.
— A sério?
— Claro que sim. Precisas de dormir. Juro-te pelo pouco de saúde que ainda me resta que o João não voltará a correr para minha casa. Vai ficar onde deve estar: aqui, contigo.
Ana fungou uma última vez e, exausta, foi para o quarto. Maria ficou com os netos, que entretanto acordaram, e tratou deles com as mãos firmes, embora por dentro começasse a formar-se uma fúria gelada. Infelizmente, ela sabia demasiado bem o que esperava a nora. Tinha passado pelo mesmo quando João tinha apenas dois anos. Durante muito tempo, depois disso, não conseguira confiar em ninguém; limitara-se a lamber as feridas em silêncio.
Saiu do apartamento já tarde. João ainda não tinha regressado; segundo Ana, estava “preso no trabalho”. Maria respirou fundo, pesada, e ligou-lhe.
— João, onde estás?
— No emprego. Porquê?
— Curioso. Hoje, afinal, não estás junto da tua mãe moribunda?
Do outro lado fez-se um silêncio comprido. Depois, a voz do filho surgiu hesitante:
— Mãe…
— Perguntei onde estás.
— No trabalho.
— Tens a certeza?
— Mãe, agora não…
— João, andas a dizer à tua mulher que vens ter comigo. Que eu estou praticamente às portas da morte. Não tens nada para me explicar?
— Mãe, não é aquilo que estás a pensar.
— Para casa. Já — rosnou ela, e desligou antes que ele inventasse outra desculpa.
O domingo inteiro passou-lhe como se estivesse sentada sobre agulhas. O filho não telefonou, e ela também não fez o menor esforço para o procurar. Na segunda-feira, à hora de almoço, Maria foi até ao escritório de João. À entrada havia segurança, detetor de metais, balcão de receção e um guarda com ar cansado. Gente entrava e saía em todas as direções; aquilo parecia menos uma empresa e mais um formigueiro em plena atividade.
Maria aproximou-se devagar do balcão.
— Boa tarde. Conhece João Silva?
O segurança olhou-a sem grande interesse.
— Conheço. E então?
Ela tirou discretamente uma nota de cinquenta euros da carteira e pousou-a no balcão, tapando-a com a mão.
— Meu senhor — murmurou —, preciso de saber com quem é que ele anda aqui dentro. Sou mãe dele e percebo muito bem o que se passa. Tenho pena dos meus netos.
O homem desviou os olhos para a nota, depois para ela. Soltou um suspiro. Maria nem teve tempo de pestanejar: o dinheiro desapareceu.
— Também não é propriamente segredo nenhum, por isso não estou a fazer mal a ninguém. Ele anda metido com a Rita, da contabilidade. Miúda nova, entrou há pouco tempo. Leva-a para todo o lado, até lhe arranjou apartamento. Se quiser, vejo-lhe a morada no sistema.
Dez minutos depois, Maria estava outra vez na rua, apertando na mão um papel com um endereço. Por dentro fervia, embora, no fundo, já esperasse algo daquela natureza. Um clássico. Restava saber se o filho teria descaramento suficiente para, nessa noite, “ir visitar a mãe doente” — ou se, desta vez, inventaria uma reunião interminável.
