A caixa multibanco devolveu o cartão com um apito agudo e desagradável. No visor, em vez da mensagem habitual a convidá-la a levantar o dinheiro, apareceu uma inscrição vermelha: operação recusada.
Manuela pestanejou. Endireitou o gorro de pelo, que de repente lhe pareceu pesado demais, quase sufocante. Só podia ser engano. Com certeza era falha da máquina. Afinal, era dia dezasseis. O dia em que a nora lhe fazia a transferência mensal. Ana chamava-lhe “ajuda”, mas Manuela, havia muito, via aquele dinheiro como uma compensação legítima por ter criado um filho como João.
Introduziu novamente o cartão na ranhura. Os dedos, dentro das luvas de pele, escorregavam nos botões.
Saldo insuficiente.
Atrás dela, alguém suspirou com impaciência.

— Minha senhora, vai demorar muito? É que há fila, caso não tenha reparado.
Manuela virou-se de repente e mediu o rapaz de capuz com um olhar severo.
— Tenha calma! A máquina é que está avariada.
Afastou-se para junto da montra da loja e tirou o telemóvel da mala. Chamou uma vez, outra, outra ainda. O toque seguia, mas ninguém atendia. Nem Ana, nem João.
— Esperem só — murmurou entre dentes, sentindo a indignação subir-lhe por dentro. — Vou mostrar-vos o que é ficarem incontactáveis. Tenho manicure marcada hoje e vocês vêm estragar-me o dia?
Chegou ao apartamento do filho quarenta minutos depois. Durante todo o percurso de táxi, pago com as últimas notas que trazia na carteira, foi alimentando a própria irritação. Imaginava a entrada triunfal, as palavras duras que diria, Ana a justificar-se atrapalhada, João de olhos baixos, envergonhado. Deviam ter-se esquecido, claro. Gente nova, cabeça no ar. Mas ela trataria de lhes refrescar a memória.
Foi Ana quem abriu a porta.
Manuela encheu o peito de ar, pronta para começar logo em voz alta, mas as palavras ficaram-lhe presas. A nora tinha um aspeto terrível. Ana, que andava sempre arranjada, estava com uma T-shirt velha do marido, o cabelo preso num carrapito desfeito e o rosto tão abatido que metia impressão.
— A senhora? — A voz dela soou áspera, como uma dobradiça por lubrificar. — Não tentou telefonar antes?
— Tentei, sim! — Manuela entrou decidida, afastando a nora com o ombro. Em vez do aroma habitual a café acabado de fazer, bateu-lhe no nariz um cheiro pesado a medicamentos e ar fechado. — Vocês estão a ignorar-me. Os dois. Que história é esta? Porque é que a conta não tem dinheiro? Fiquei feita parva à frente de toda a gente na loja!
— Vá para a cozinha — disse Ana, fechando a porta sem encarar a sogra. — O João já vem.
Na cozinha reinava a desordem. Sobre a mesa amontoavam-se chávenas por lavar, papéis espalhados e embalagens de remédios. Manuela limpou as migalhas de uma cadeira com ar de nojo e sentou-se sem sequer desapertar o casaco.
— Estou à espera. E, já agora, eu tinha planos.
Ana deixou-se cair no banco em frente. Parecia completamente exausta.
— Não vai haver mais transferências, Manuela.
— Como disse? — A sogra soltou uma risadinha nervosa. — Isto é alguma brincadeira? Porque graça não tem nenhuma.
— Despedi-me. Foi há uma semana.
— Despediste-te? Daquele emprego? Perdeste o juízo? Vocês têm empréstimo da casa, têm uma criança prestes a entrar na escola! O João é que há de rebentar sozinho a trabalhar?
— O João sabe. Decidimos isto juntos. O médico foi muito claro:
