ou eu parava de vez, ou o meu corpo não aguentava muito mais. Tenho trinta e cinco anos e a minha saúde já está por um fio.
Manuela apertou os lábios. Talvez houvesse ali qualquer coisa de lamentável, mas a sua mágoa falava mais alto.
— Ai, não dramatizes. Agora deu-te para dizer que estás doente. Nos anos noventa, nós criámos filhos sem um tostão no bolso e cá estamos. Sobrevivemos todos. Tu é que te habituaste mal, Ana. O meu filho pôs-te demasiado à vontade.
— Vamos passar a viver só com um ordenado — respondeu Ana, num tom baixo, sem levantar os olhos da mesa. — Vamos ter de cortar em muita coisa. E isso inclui o dinheiro que lhe dávamos. A senhora tem a sua reforma.
— Reforma! — Manuela ergueu os braços, indignada. — E o que é que eu compro com isso? Pão e leite? Eu habituei-me a viver com alguma dignidade! Preciso de vitaminas, preciso de tratamentos! Sou mãe, afinal de contas. Tenho direitos!
João entrou na cozinha nesse momento. Trazia umas calças de estar por casa, a barba por fazer e um cansaço fundo no olhar. Sem dizer palavra, colocou-se atrás da mulher e pousou-lhe as mãos nos ombros.
— Mãe, não comeces.
— Eu não estou a começar nada, estou a tentar pôr juízo nesta casa! — Manuela virou-se para ele. — João, diz-lhe alguma coisa! Ela decide ficar em casa e a tua mãe que se arranje?
— Mãe, não há dinheiro.
— Como assim, não há? Tu trabalhas!
— Estamos a pagar as dívidas dos tratamentos da Ana. E… — ele respirou fundo, como se cada palavra lhe custasse — já não conseguimos sustentar os teus caprichos. Isto deixou de ser ajuda, mãe. Passou a ser sustento.
— Sustento? — O rosto de Manuela ficou em brasa. — Seu ingrato! Dediquei-te a vida inteira! Não me voltei a casar para não te meter um padrasto em casa! E agora atiras-me à cara um pedaço de pão?
— O dinheiro que lhe dávamos ia para táxis, almoços fora e malas novas — disse Ana, quase num sussurro. — Enquanto isso, eu andava com roupa gasta.
— Não te ponhas a contar o meu dinheiro! — gritou a sogra. — Era meu!
— Era meu, Manuela. Ganhei-o eu, engolindo calmantes como quem engole rebuçados.
— Dá-me o cartão! — Manuela levantou-se de repente. — Mesmo vazio, é meu. Eu decido o que faço com ele.
Estendeu a mão. Ana tirou lentamente o cartão do bolso e ficou a virá-lo entre os dedos.
— Devolve-me isso! Já estou habituada a ele! — insistiu Manuela, fora de si.
Ana levantou finalmente o olhar. A submissão tinha desaparecido.
— Não.
— O quê?! João, estás a ouvir? Ela está a ficar com o meu cartão!
João aproximou-se da mesa. Mas, em vez de falar, pousou diante da mãe um talão de penhor.
O papel amarelado ficou sobre a toalha plastificada, entre as duas. Manuela imobilizou-se. Os olhos dela prenderam-se às linhas conhecidas: Corrente de ouro, 15 gramas. Entregue por: M. Silva.
Um silêncio pesado caiu sobre a cozinha.
— Onde é que… — a voz dela saiu rouca.
— Encontrei-o — respondeu João, sem expressão. — Há três meses. Pediste-me para procurar as chaves da casa de férias dentro da tua mala. Lembras-te? Foi aí que dei com isto.
Manuela deu um passo atrás.
— João, eu… eu posso explicar…
— Naquele dia em que a corrente da Ana desapareceu. A prenda do pai dela. Tu tinhas estado cá em casa. Vieste visitar-nos. Até ajudaste a arrumar as coisas no armário.
