— …e umas novas estão fora de questão. Não tenho dinheiro para isso. A senhora consegue dar um jeito?
Manuela pegou nas calças, examinou o rasgão e remendou-as com paciência, ponto atrás de ponto, sem deixar a costura repuxada. A rapariga, radiante, deixou-lhe uma nota amarrotada em cima da mesa e ainda uma tablete de chocolate.
— Muito obrigada! Salvou-me mesmo!
Nessa noite, Manuela ficou sentada na cozinha, a beber chá simples e a partir quadradinhos daquele chocolate. E, de repente, percebeu uma coisa que lhe apertou o peito: há muitos anos que não recebia dinheiro ganho pelas próprias mãos. Não tinha pedido, não tinha exigido, não tinha feito chantagem. Tinha apenas sido útil.
Depois vieram outros trabalhos. Pequenos, mal pagos, quase nada: fazer bainhas, trocar fechos, apertar uma saia, coser um forro. As costas doíam-lhe, a vista ardia-lhe ao fim de poucas horas, os dedos ficavam doridos. Ainda assim, à noite, enquanto a máquina batia naquele ritmo certinho, Manuela começou a pensar de outra maneira.
Já não lhe vinham à cabeça apenas as mágoas. Lembrava-se de Ana a procurar-lhe um bom médico, sem reclamar. Lembrava-se de João a subir cinco andares com uma televisão nova às costas, só para que ela ficasse contente. Lembrava-se das tentativas que os dois tinham feito para serem família. E ela? Ela olhara para eles como se fossem apenas uma carteira aberta.
E o fio… Meu Deus, o fio. A lembrança do pai de Ana. Ela sabia o que aquilo significava. Sabia, e mesmo assim levara-o à casa de penhores, só para poder descansar com algum conforto.
Meio ano depois, num sábado cinzento, Manuela estava diante da porta do filho. O coração batia-lhe tão depressa que parecia querer saltar-lhe do peito. Trazia um saco nas mãos.
Carregou na campainha. Por um segundo, ainda pensou em fugir antes que alguém abrisse. Mas a fechadura estalou.
João apareceu à entrada. Estava mais magro, mais fechado.
— Mãe? Aconteceu alguma coisa?
— Olá, João. Eu… é só um minuto.
Ana surgiu no corredor. Ao ver a sogra, ficou rígida, como se se preparasse para uma nova discussão.
— Trouxe isto — disse Manuela, estendendo o saco ao filho. — É para vocês.
João espreitou lá para dentro. Havia um frasco de doce de groselha e um envelope.
— O que é isto?
— O doce fiz eu. E no envelope… vai algum dinheiro. Pouco. Mas vou pagando aos poucos. Pelo fio.
Ana aproximou-se devagar.
— Dona Manuela, para quê? Não precisa.
— Precisa, sim — respondeu ela, com uma firmeza cansada, olhando a nora nos olhos. — Fui à casa de penhores saber quanto valia. Hei de devolver tudo. Palavra. Agora trabalho. Faço costuras.
Tirou uma luva. Ana viu-lhe as mãos: unhas curtas, marcas de agulha, pele áspera e endurecida. Mãos de quem passava horas a ganhar o pão.
— Eu fui… — a voz de Manuela falhou. — Fui uma tola, Aninha. Perdoa-me. Não pelo dinheiro. Por eu não ter sabido ser gente. Achei que tinham obrigação de me amar sem mais nem menos. E afinal o amor também se cuida.
Virou-se depressa, escondendo os olhos húmidos.
— Mãe, espera.
João agarrou-lhe a manga do casaco.
— Aonde vais? A chaleira já ferveu.
Ana tirou o saco das mãos do marido, pegou no frasco e levantou-o contra a luz.
— É de groselha? — perguntou, baixinho.
— É. Daquele clarinho, como o João gostava quando era pequeno.
— Entre, Dona Manuela. Mas descalce-se, que lavei o chão.
Sentaram-se os três na cozinha. Beberam chá. O fio, claro, já não podia voltar. Mas, naquele instante, ao ver João barrar o doce no pão, Manuela compreendeu que outra coisa, muito mais valiosa, talvez ainda tivesse sido salva. Mesmo no último momento.
