Ana chorou durante uma semana inteira, convencida de que a tinha perdido em qualquer lado. E tu… tu sentavas-te ao lado dela, fazias-lhe festas no ombro e dizias: “não faz mal, querida, é só uma coisa; importante é haver saúde”.
— Eu ia resgatá-la! — gritou Manuela, percebendo que já não havia por onde escapar. — Precisei do dinheiro com urgência! Tinha um problema nos dentes e não ia meter-me numa consulta qualquer! Eu ia repor tudo!
— Com esse dinheiro compraste uma estadia nas termas, mãe. Eu vi os bilhetes.
— E depois?! — a voz dela subiu, áspera, defensiva. — Comprei, sim! Sou mãe, trabalhei a vida toda, merecia descansar! E vocês têm joias que cheguem, não ficavam pobres por causa disso! Era só uma peça!
— Era uma recordação do meu pai — murmurou Ana. — A morte dele custou-nos demasiado.
João fitava a mãe como se, de repente, tivesse diante de si uma desconhecida.
— Vai-te embora.
— Estás a pôr-me fora? A tua própria mãe? Por causa de um pedaço de metal?
— Por causa das mentiras. E porque tu não gostas de nós, mãe. Tu aproveitas-te de nós.
— Então fiquem lá com a vossa vida! — Manuela agarrou na mala, atrapalhando-se até com as asas. — Vivam como quiserem! Passem dificuldades sozinhos! Ainda hão de bater-me à porta quando a água vos chegar ao pescoço!
Saiu do prédio quase a correr, batendo a porta com força. Com os dedos a tremer, tentou chamar um táxi pelo telemóvel, mas a aplicação avisou que não havia saldo suficiente. Teve de ir apanhar o autocarro. O vento cortava-lhe a cara, enquanto uma frase lhe martelava a cabeça: eles ainda se vão arrepender. Vão arrepender-se, de certeza.
Não se arrependeram. E também não telefonaram.
No primeiro mês, Manuela alimentou-se da própria raiva. Gastava o que sobrava da reforma em bolos e passava, de propósito, diante da casa deles, de queixo levantado, como se nada a atingisse.
Depois, porém, o dinheiro acabou. De vez.
O frigorífico ficou vazio. Descobriu, com espanto, que o queijo de que gostava custava uma fortuna e que as contas da casa lhe levavam metade da reforma. Começou a comprar a massa mais barata e ossos de frango para fazer sopa.
O apartamento tornou-se silencioso. Antes irritava-se quando a nora lhe ligava; agora, o telefone passava dias inteiros calado. Só tocava para mensagens automáticas e propostas de crédito.
— O seu pedido foi aprovado… — anunciava uma voz animada do outro lado.
— Vão chatear outro! — berrava ela, desligando de imediato, para, minutos depois, se desfazer em lágrimas.
Ao terceiro mês, o fecho de uma das botas de inverno partiu-se. Na sapataria, disseram-lhe um preço que quase a fez perder o equilíbrio.
— Mas isso é trabalho para cinco minutos! — protestou.
— Então faça a senhora — resmungou o homem.
Manuela voltou para casa e foi buscar, ao fundo do armário, uma mala antiga. Lá dentro estava a máquina de costura: pesada, firme, de outro tempo. Quando João era pequeno, ela costurava para metade da vizinhança.
Enfiou a linha na agulha. As mãos, desacostumadas ao trabalho, tremiam-lhe. Passou a noite inteira às voltas com a bota, picou os dedos vezes sem conta e partiu duas agulhas. Mas conseguiu.
No dia seguinte, engolindo a vergonha, afixou um papel à entrada do prédio: “Arranjos de roupa. Preços baixos. 2.º esquerdo.”
A primeira a aparecer foi uma vizinha, uma rapariga nova, estudante.
— Dona Manuela, rasguei as calças de ganga.
