— Estás a dramatizar — respondeu João, com impaciência. — A minha mãe só quer que a casa esteja em ordem.
Ana fez um gesto de desdém, sem vontade de prolongar a discussão, e voltou para o quarto. Já tinha percebido que qualquer argumento seria inútil.
Com o passar dos dias, o ambiente tornou-se cada vez mais pesado. As discussões multiplicavam-se, a tensão instalava-se em todos os cantos da casa. Maria comportava-se como se fosse a dona daquele espaço, Ana fechava-se cada vez mais em si mesma, e João, apesar de dizer que não queria meter-se no meio, acabava sempre por defender a mãe.
No sábado, Ana tinha uma entrega decisiva. Tratava-se do site institucional de uma empresa de construção: um projeto grande, exigente, cheio de pormenores técnicos. Precisava de o terminar até ao fim do dia; se falhasse o prazo, perdia o cliente e também o pagamento. Não era uma tarefa que se pudesse fazer aos bocados, entre interrupções. Exigia concentração total.
Levantou-se às sete, preparou um café forte, fechou-se no quarto e sentou-se diante do computador. As horas começaram a passar sem que desse por elas. Ana trabalhava sem parar, nem sequer saiu para tomar o pequeno-almoço. Pôs o telemóvel virado para baixo ao lado do teclado, para não se distrair com notificações.
Perto do meio-dia, já tinha praticamente concluído as páginas principais. Faltava-lhe apenas finalizar o rodapé, testar a versão móvel e enviar tudo para o servidor. Encostou-se por instantes na cadeira, esticou os braços, massajou a nuca dorida e pegou no telemóvel para verificar as mensagens profissionais. Foi nesse preciso momento que a porta se abriu com violência, batendo contra a parede.
João apareceu à entrada, de rosto congestionado e punhos cerrados.
— Mas que raio estás tu a fazer? Entraste em greve?! — gritou. — A minha mãe não consegue dar conta de tudo sozinha e tu aí, entretida no telemóvel!
Ana bloqueou lentamente o ecrã e virou-se para ele. Durante alguns segundos, ficou apenas a olhá-lo, como se precisasse de confirmar que tinha ouvido bem.
— O que é que disseste?
— Disse que chega de preguiça! — disparou João. — A minha mãe está de pé desde manhã, a cozinhar, a limpar, a tratar da casa. E tu fechada aqui, sentada, a mexer no telefone!
Ana levantou-se devagar. Quando falou, a voz saiu baixa, fria e muito clara:
— Eu não estou a brincar com o telemóvel. Estou a trabalhar. Há cinco horas seguidas que estou agarrada a um projeto urgente, um projeto que traz dinheiro para esta casa.
— Trabalho? Que trabalho? — João soltou uma gargalhada seca e abanou a mão, como se aquilo não tivesse qualquer valor. — Estás na internet, mais nada. Trabalho a sério é sair de casa, ir para um escritório, cumprir horários, como eu faço. Tu ficas aqui instalada, confortável, e ainda respondes torto.
— Eu ganho tanto como tu! — Ana sentiu a raiva subir-lhe pelo peito. — São os meus trabalhos que ajudam a pagar a luz, a água, a comida, a roupa. Ou achas que o dinheiro aparece por milagre em cima da mesa?
— Não levantes a voz comigo! — berrou ele. — És egoísta. Só pensas em ti. A família para ti não significa nada!
— Família? Que família? — Ana avançou um passo na direção dele. — A tua mãe manda em tudo, trata-me como se eu não valesse nada, e tu ficas sempre do lado dela. Isto não é uma família, João. Isto é uma prisão.
— És uma ingrata! A minha mãe esforça-se por nós. Ela só quer ajudar!
— Não ajuda coisa nenhuma! Atrasa-me, invade o meu espaço, mete-se no meu trabalho, na minha rotina, na minha vida!
Nesse instante, Maria entrou no quarto, enxugando as mãos num pano de cozinha.
— Que se passa aqui? João, está tudo bem?
— Mãe, foi a Ana que armou isto tudo — disse ele de imediato, mudando para um tom quase queixoso.
— Eu bem sabia! — Maria lançou à nora um olhar severo. — Falta de respeito pelos mais velhos, falta de respeito pelo marido… Tu sabes sequer como uma mulher casada se deve comportar? Uma esposa apoia o marido, cuida da casa, mantém a família unida. Não fica o dia inteiro sentada à frente de um computador como se o resto do mundo não existisse.
Nesse momento, Ana sentiu qualquer coisa partir-se dentro dela. Todos os insultos engolidos, todo o cansaço acumulado, todas as pequenas humilhações e interrupções explodiram de uma só vez.
— Chega! Acabou! Quero os dois fora do meu apartamento!
Fez-se um silêncio abrupto. João e Maria ficaram imóveis, a encará-la como se ela tivesse dito algo impossível.
— O quê? — João foi o primeiro a recuperar a voz.
— Ouviste muito bem. Fora — repetiu Ana, agora com uma calma ainda mais assustadora. — Este apartamento é meu. Meu. Aqui, a dona da casa sou eu, e sou eu que tenho a palavra final.
