“A minha mãe não consegue dar conta de tudo sozinha, e tu aí, agarrada ao telemóvel!” — rosnou João, exigindo que a mãe venha ficar connosco durante o inverno

Histórias
Proposta insensata desencadeou raiva contida e medo.

— E sou eu que decide quem entra, quem fica e quem sai daqui.

— Ana, tu perdeste a cabeça?

— Não. Pela primeira vez em muito tempo, recuperei-a — respondeu ela, apontando para a porta. — Cansei-me de ser tratada como se não existisse dentro da minha própria casa. Cansei-me de ver o meu trabalho desvalorizado, interrompido, pisado. Agora fazem as malas e vão-se embora.

— Ana, tu não estás a falar a sério… — João tentou aproximar-se e segurar-lhe no braço, mas ela afastou-se antes que ele lhe tocasse.

— Estou a falar muito a sério. Têm uma hora para juntar as vossas coisas.

— Mas ela é minha mãe! Para onde é que queres que ela vá?

— Devia ter pensado nisso antes de vir para o meu apartamento mandar em mim — disse Ana, cruzando os braços. — Uma hora. Depois disso, chamo a polícia e trato da vossa saída por vias oficiais.

Maria abriu os braços num gesto teatral, como se tivesse acabado de ser mortalmente ofendida.

— João! Estás a ouvir isto? Estás a ouvir a maneira como ela fala comigo?

— Mãe, por favor, acalma-te… — murmurou João, dividido, olhando para ela sem saber o que fazer.

— Acalmar-me? Ela está a pôr-nos na rua!

— Não vos estou a pôr na rua — corrigiu Ana, com uma frieza cortante. — Podem voltar para a casa da aldeia de onde vieram. Ou alugar um quarto. Ou arranjar outra solução qualquer. Isso já não é comigo. Mas aqui não ficam mais.

Sem esperar resposta, virou costas, entrou no quarto e fechou a porta à chave. Do outro lado da parede começaram de imediato as vozes indignadas, os passos pesados, as gavetas abertas com violência, as portas a bater. Ana sentou-se diante do computador, mas por alguns minutos foi incapaz de escrever uma única linha. As mãos tremiam-lhe demasiado.

Passaram talvez vinte minutos. Depois ouviu João arrastar malas pelo corredor. Maria fungava, lamentava-se em voz alta, soltava suspiros dramáticos, mas também recolhia as suas coisas. Ana permaneceu imóvel à secretária, com o rosto fechado, a escutar aquele movimento todo como se viesse de muito longe.

Cerca de quarenta minutos depois, bateram à porta.

— Ana, abre.

Ela levantou-se e destrancou. João estava no limiar, de olhos avermelhados, o casaco já vestido.

— É mesmo isto que queres? Que eu vá embora?

— É.

— Para sempre?

— Sim.

Ele engoliu em seco, acenou devagar com a cabeça e desviou o olhar. Depois voltou para o hall. Ana seguiu-o. Junto à entrada estavam as malas, sacos e casacos amontoados. Maria enfiava o sobretudo, fungando com força, como se quisesse que até os vizinhos ouvissem a sua desgraça.

— Espero que encontres alguém que te ature! — atirou ela, à laia de despedida. — Mulheres como tu acabam sempre abandonadas pelos maridos!

Ana não respondeu. João abriu a porta, levou primeiro as malas para o patamar e regressou para buscar a mãe. Maria passou ao lado da nora de queixo erguido, com uma dignidade ofendida e artificial.

A porta fechou-se.

Ana ficou sozinha.

Durante alguns instantes permaneceu no meio da sala, sem se mexer, a ouvir aquilo que restava. Nada. Não havia acusações. Não havia ordens. Ninguém invadia o quarto. Ninguém lhe arrancava o tempo das mãos. Da cozinha vinha apenas o zumbido discreto do frigorífico.

Aproximou-se da janela e olhou para baixo. João e Maria carregavam as bagagens para dentro do carro. Ele fazia tudo em silêncio; ela ainda gesticulava, certamente a dizer mais alguma coisa. Poucos minutos depois, o carro arrancou e desapareceu na rua.

Ana voltou ao quarto, sentou-se diante do computador e encarou o projeto inacabado. Faltavam o rodapé, a adaptação para telemóvel, a revisão final e o envio para o servidor. Três ou quatro horas de trabalho, no máximo.

Respirou fundo, estalou os dedos, puxou o teclado para mais perto e mergulhou no ecrã. Aos poucos, os pensamentos começaram a alinhar-se. O tremor nas mãos passou. Moveu blocos, ajustou margens, escolheu cores, testou o código, corrigiu pequenos erros que antes lhe teriam parecido impossíveis de resolver naquele caos.

Ninguém irrompeu pelo quarto aos gritos.

Ninguém lhe exigiu que largasse tudo e corresse ao supermercado.

Ninguém a acusou de egoísmo, preguiça ou falta de respeito.

Ana trabalhou até às dez da noite. Quando terminou, carregou os ficheiros no servidor, verificou se tudo abria corretamente e enviou a ligação ao cliente. Só então se deixou cair para trás na cadeira e fechou os olhos.

Sim, estava sozinha. Sem marido. Sem aquela família que, durante tanto tempo, lhe pesara em cima como uma mobília velha e inútil. Mas tinha recuperado uma coisa essencial: o domínio da própria vida, do próprio espaço, do próprio silêncio. Nunca mais alguém lhe diria o que podia ou não fazer dentro da sua casa.

Levantou-se, foi à cozinha e preparou chá. Sentou-se à mesa com a chávena quente entre as mãos e ficou a olhar pela janela. As luzes da cidade brilhavam lá fora; ao longe, um carro passou e perdeu-se na noite.

Silêncio. Paz. Liberdade.

O telefone não tocou. João não ligou.

E Ana sentiu-se bem.

Casa da Encarnação