“Da tua conta-poupança” disse João com ar condescendente, deixando Ana em choque junto ao lava-loiça

Histórias
Exigência mesquinha destruiu a confiança que parecia inquebrável.

— Ana, tens de levantar o dinheiro da tua poupança. De preferência amanhã de manhã, antes de o banco fechar para o fim de semana.

A voz de João saiu-lhe sem pressa, quase distraída. Estava sentado à mesa da cozinha, a passar o dedo pelo telemóvel, preso às notícias, e nem se dignou a erguer os olhos para a mulher. No fogão, o caldo de carne fervilhava em lume brando; pela divisão espalhava-se o cheiro intenso do louro e da pimenta preta. Ana, imóvel junto ao lava-loiça, com uma cenoura meio descascada na mão, voltou lentamente a cabeça. Por um instante pensou que tinha percebido mal, talvez por causa da água a correr. Fechou a torneira e limpou as mãos molhadas ao pano de cozinha.

— Levantar dinheiro? — repetiu, num tom controlado, embora por dentro já sentisse a ansiedade a apertar-se como uma mola. — De que poupança estás tu a falar, João?

Só então o marido largou o ecrã. No rosto dele surgiu aquela expressão condescendente que costumava reservar para crianças teimosas ou pessoas que, na sua opinião, não compreendiam o óbvio. Encostou-se à cadeira e cruzou os braços sobre o peito.

— De qual havia de ser? Da tua conta-poupança. A minha, como sabes, está a zeros. Surgiu uma situação inesperada que exige dinheiro já. Não é uma ninharia, anda à volta de oito mil euros. Fiz as contas e o que tens guardado chega para resolver isto sem complicações nem demoras.

Ana aproximou-se da mesa, afastou a cadeira com cuidado e sentou-se em frente dele. Oito mil euros. Era o dinheiro que juntara ao longo dos últimos quatro anos, abdicando de férias decentes, de roupa melhor, de pequenas vaidades e de consultas de estética que adiava sempre para “um dia”. Trabalhava como contabilista-chefe numa pequena empresa, aceitava relatórios extra para fazer em casa e passava noites diante do computador até os olhos arderem. Aquele montante tinha destino marcado: a remodelação profunda da casa de campo que herdara dos pais. João sabia-o perfeitamente. Tinham falado disso vezes sem conta: substituir o telhado, pôr janelas novas, instalar um aquecimento decente, para que a casa pudesse ser usada não apenas no verão, mas durante todo o ano.

— Que situação inesperada é essa? — perguntou Ana, esforçando-se por manter a voz firme. As mãos, porém, entrelaçadas sobre os joelhos, denunciaram-na: os nós dos dedos estavam brancos.

João soltou um suspiro pesado, como se aquelas perguntas fossem uma perda de tempo absurda.

— O Pedro precisa de ajuda.

Pedro era filho de João do primeiro casamento. Um homem feito, com trinta anos, que mudava de emprego com a mesma facilidade com que mudava de planos, dizia andar “à procura do seu caminho” e acabava, de tempos a tempos, metido em negócios pouco claros. Ana nunca lhe fora hostil, mas também não o tratava como filho. A relação entre ambos era distante e educada; ele aparecia sobretudo em datas festivas, cumpria o ritual familiar e desaparecia de novo.

— Está com problemas no negócio? — quis saber ela.

— Pode dizer-se que sim — respondeu o marido, desviando o olhar para a janela. — Ele fez um contrato de leasing para equipamento da oficina de pneus. A coisa correu mal. O sítio não dava movimento, a concorrência esmagou-o, enfim… acumulou-se uma dívida. E não é uma dívida qualquer. É a gente que não gosta de esperar. Se até segunda-feira não se pagar, o Pedro arrisca-se a ir a tribunal, a ficar com as contas penhoradas e a perder o carro. E o carro faz-lhe falta, agora anda a fazer uns serviços de transporte para ganhar algum. Eu, como pai, não posso virar-lhe as costas.

Ana ouviu aquela explicação atabalhoada com a sensação de que lhe estavam a apresentar uma conta sem faturas. A sua cabeça, habituada a números exatos, prazos, saldos e justificativos, recusava-se a encaixar as peças.

— Espera lá. O Pedro alugou equipamento, o negócio falhou e agora a responsabilidade é nossa? E, mais importante ainda, porque é que falas como se já tivesses decidido por nós dois? A minha poupança era para as janelas e para o telhado da casa.

— Ana, que telhado? — João levantou a voz; a irritação, até ali disfarçada, apareceu-lhe nas palavras. — O rapaz está a ver a vida desmoronar-se! Que importância têm umas janelas quando alguém da família pode acabar em tribunal e com agentes de execução à perna? A casa pode esperar. A tua barraca não vai cair de um dia para o outro. Aqui está em causa a honra da família.

A palavra “barraca”, atirada assim, como se nada fosse, feriu-a mais fundo do que o próprio pedido para entregar o dinheiro.

Casa da Encarnação