A casa dos pais era, para Ana, o seu refúgio mais íntimo. Ali tinha corrido a infância dela, ali cada prego fora cravado pelas mãos do pai, já falecido, e cada tábua parecia guardar ainda o calor da sua presença.
— A honra de que família, João? — perguntou ela, num tom baixo. — O Pedro é um homem feito. Foi ele que assumiu riscos. Porque é que as minhas noites sem dormir e o dinheiro que juntei com sacrifício hão de servir para tapar a irresponsabilidade dele?
João inclinou-se bruscamente sobre a mesa, apoiando os cotovelos no tampo. O rosto ganhou manchas vermelhas, como se o sangue lhe tivesse subido de repente.
— Porque somos casados! Porque, em casamentos decentes, o dinheiro é dos dois e as desgraças também. És minha mulher, tens obrigação de estar do meu lado. Estou a explicar-te em bom português: eu já disse ao meu filho que resolvia o problema. Queres que eu fique diante dele como um homem sem palavra?
Então era isso. Ele já tinha prometido. Tinha disposto do dinheiro dela sem lhe perguntar nada, sem sequer a ouvir, apenas para aparecer aos olhos do filho como um pai capaz, generoso, presente — precisamente o pai que não fora durante tantos anos, depois do divórcio da primeira mulher.
De súbito, os cinco anos de vida em comum passaram pela cabeça de Ana como uma fita demasiado nítida, impiedosa. Quando se conheceram, João parecera-lhe um porto seguro. Era educado, atencioso, sabia cortejá-la, dizia as frases certas sobre cuidado, respeito e companheirismo. Mudara-se depois para o apartamento amplo dela, um T3 que Ana comprara muito antes de ele lhe entrar na vida. No início, tudo parecera equilibrado. Com o tempo, porém, a rotina assentara num esquema cada vez mais estranho.
Era Ana quem comprava a comida, pagava as contas da casa, substituía os eletrodomésticos quando avariavam. João trabalhava como engenheiro num gabinete de projetos e ganhava razoavelmente bem, mas o ordenado dele evaporava-se sem deixar rasto. Ora eram peças caras para o carro, ora roupa nova, ora subscrições pagas de canais desportivos. Sempre que ela, com cuidado, sugeria juntarem dinheiro numa conta comum, ele vinha com uma justificação convincente: a seguradora tinha de ser renovada, o dentista custara uma fortuna, surgira uma despesa inesperada. No fim, aquele orçamento “dos dois” era sustentado quase por inteiro pelo salário de Ana.
Ela aguentara. Repetira a si própria que o dinheiro não era tudo, que ao menos tinha ao lado uma presença masculina, um ombro em que se apoiar. Só que, quando a torneira da casa de banho se estragou, esse mesmo ombro aconselhou-a a chamar um canalizador, porque “mexer em canos não era trabalho para ele”. E a fatura do canalizador, como sempre, fora paga por Ana.
— Não vou levantar o dinheiro, João — disse ela.
A voz saiu serena, mas havia nela uma firmeza metálica, dessas que os subordinados de Ana no trabalho reconheciam como aviso para recuar imediatamente.
O marido piscou os olhos, como se não tivesse entendido.
— Como assim, não vais levantar?
— Assim mesmo. São as minhas poupanças. Guardei-as para um objetivo concreto. O teu filho meteu-se em dívidas por decisão própria. Que peça um crédito ao consumo, arranje um segundo emprego, venda o carro, se for preciso. Eu não vou financiar a falta de juízo dele.
João ergueu-se de um salto. O banco arrastou-se pelo linóleo com um guincho desagradável.
— Ah, então é isso! Para viver casada somos uma família, mas quando é preciso ajudar já cada um que se arranje? És uma mulher egoísta e calculista! Para ti, essas tábuas velhas da casa valem mais do que uma pessoa de carne e osso!
— Não te atrevas a gritar dentro da minha casa — cortou Ana, gelada, levantando-se devagar da mesa. — E não uses a palavra família para me manipular. Família é quando se conversa antes, não quando se apresenta uma decisão tomada à custa do trabalho dos outros.
Virou-se para o fogão, fingindo concentrar-se em retirar a espuma do caldo. As mãos tremiam-lhe ligeiramente, mas não lhe daria o prazer de perceber isso. Atrás dela, João respirava pesado.
— Muito bem — rosnou ele, entre dentes. — Muito bem. Se é assim que pões as coisas, eu encontro uma solução sozinho. Mas fica sabendo, Ana: isto eu não te perdoo. É nas dificuldades que se vê a lealdade de uma mulher ao marido. E tu acabaste de chumbar nessa prova.
Rodou nos calcanhares, saiu para o corredor, arrancou o casaco do cabide com gestos bruscos e bateu a porta de entrada.
