“A minha mãe já tem idade. Aguenta mais um bocadinho, ela não vai ficar cá para sempre” disse João, enquanto Ana descobria uma câmara escondida na cozinha

Histórias
Vigilância traiçoeira e repugnante, confiança destruída.

A mãe de João instalara uma câmara na cozinha. Ana descobriu-a por acaso, escondida atrás da caixa do pão. A pequena lente negra, discreta e fria, apontava diretamente para a mesa onde todos jantavam.

Por um instante, a mão dela avançou quase sozinha, pronta a arrancar o aparelho dali e atirá-lo para o caixote do lixo. Mas Ana conteve-se. Se Maria andava a vigiá-la, era porque procurava alguma coisa. E Ana decidiu perceber o quê.

Ela e João viviam no apartamento dele, um T2 simples, mas suficiente para os dois. Ana dava aulas numa escola; saía de casa ainda de noite e só regressava ao fim da tarde. João trabalhava numa fábrica e costumava chegar um pouco depois.

A vida deles seguia calma, sem grandes sobressaltos, até que, alguns meses antes, Maria, a mãe de João, apareceu com uma mala e instalou-se no corredor como se aquilo já estivesse combinado.

— É só por uns tempos — declarou, pousando a bagagem. — Até o Pedro resolver a situação da casa.

Pedro, o filho mais novo dela, ficara sem o quarto que arrendava, porque o senhorio vendera o apartamento. Desde então, andava de sofá em sofá, alojado em casa de amigos.

Logo no primeiro dia, Maria começou a mandar em tudo como se fosse dona daquele espaço. Mudou a loiça de sítio para ficar “mais à mão”, reorganizou gavetas sem pedir licença e acabou por deitar fora o ficus de Ana, que estava no parapeito da janela, porque, segundo ela, “só servia para juntar pó”.

À hora do jantar, havia sempre um reparo. Ora a comida tinha sal a mais, ora a carne estava rija, ora a salada não era como devia ser. Ana engolia em seco, e João limitava-se a repetir:

— A minha mãe já tem idade. Aguenta mais um bocadinho, ela não vai ficar cá para sempre.

Numa noite qualquer, Ana viu João guardar uma pasta com documentos do apartamento dentro de um armário da cozinha. Empurrou-a para trás dos frascos de cereais e murmurou, quase para si:

— Aqui não se perde de certeza.

Maria entrou precisamente nesse momento. Ficou junto ao fogão, lançou um olhar rápido para o armário e nada comentou. Ana não ligou ao gesto. Devia ter ligado.

Cerca de uma semana antes, durante o jantar, Maria anunciara:

— Mandei pôr uma câmara no patamar, por cima da nossa porta. O prédio anda estranho, nunca se sabe.

João ajudou-a a ligar o Wi-Fi, e a aplicação ficou instalada no telemóvel dele. Ana encolheu os ombros e esqueceu o assunto. Uma câmara no patamar ainda se podia aceitar.

Mas aquela, escondida atrás da caixa do pão, era outra. E sobre essa Maria não dissera uma única palavra.

Casa da Encarnação