Meio ano antes, dera-se um episódio que Ana ainda sentia como uma ferida mal fechada. Maria acusara-a de ter deitado fora os comprimidos do coração. Nessa altura, João ficara do lado da mãe. Mais tarde, acabou por encontrar a embalagem caída atrás do sofá, mas nem assim pediu desculpa. Limitou-se a resmungar:
— Afinal estavam aqui.
Ana guardou aquilo como uma lição: sem provas, quando era a palavra dela contra a de Maria, perdia sempre.
Certo dia, pouco antes do almoço, Maria entrou na cozinha, torceu o nariz e comentou:
— Ana, outra vez comida pré-feita? Isto já começa a ser demais, não achas?
João não disse uma palavra em defesa da mulher. E Ana, exausta, não teve forças para abrir uma discussão.
No dia seguinte, Maria telefonou a uma amiga ali mesmo, na cozinha, e falou alto, como se quisesse ser ouvida:
— A minha nora não tem jeito para nada. O João sofre, coitado. Mas que há de ele fazer? É tão brando, saiu ao pai.
Só que aquilo, percebeu Ana depois, ainda era apenas o começo.
Pouco tempo depois, começaram a desaparecer notas pequenas da carteira dela. Primeiro, Ana não deu grande importância. Convenceu-se de que talvez tivesse gasto o dinheiro sem se lembrar, culpou a própria cabeça distraída, irritou-se consigo mesma.
Até que, um dia, sumiram também as botas de inverno.
— Eu cá não lhes toquei — disse Maria, muito séria. — Se calhar foste tu que as deitaste fora.
— Eu? — Ana ficou a olhar para ela, incrédula. — As minhas próprias botas?
— Ora, nunca se sabe… — respondeu a sogra, abrindo as mãos, como se a hipótese fosse perfeitamente razoável.
Depois de descobrir a câmara escondida na cozinha, Ana procurou o modelo na internet. Encontrou no manual, no site do fabricante, a palavra-passe de origem. Maria nem se tinha dado ao trabalho de a alterar. Bastou-lhe ligar-se ao aparelho para aceder às gravações.
No ecrã surgiu a cozinha. E, dentro dela, Maria. Mexia em tudo com uma calma assustadora. Armário a armário, prateleira a prateleira, vasculhava os compartimentos. Tirava frascos, espreitava por trás deles, voltava a pô-los no lugar. A câmara era barata e gravava sem som, por isso Ana não conseguia perceber o que a sogra procurava.
Noutra gravação, Maria falava com alguém. Gesticulava muito, apontava qualquer coisa num pedaço de papel e, no fim, enfiava-o no bolso do roupão.
Sem áudio, continuava a ser impossível entender o conteúdo da conversa. Ainda assim, por precaução, Ana descarregou os dois vídeos para o telemóvel.
Tão absorvida pelas manobras da sogra, quase deixou de reparar no marido. Mas João também andava diferente. À noite, ficava colado ao telemóvel; e, mal Ana se aproximava, virava-o de imediato com o ecrã para baixo.
