A campainha tocou precisamente quando Catarina estava na casa de banho, já a preparar-se para dormir. Ricardo, o marido, ressonava há muito no sofá, completamente alheado do mundo. Ela sobressaltou-se, hesitou por uns segundos, mas acabou por se aproximar da porta.
— Abram lá! Estou a ver a sombra a tapar o óculo! — berrou uma voz conhecida do outro lado.
Era Ana, a irmã de Ricardo. Discrição nunca fora uma qualidade dela. Com o seu corpo volumoso e aquela energia excessiva, conseguia chamar a atenção em qualquer lugar, mesmo sem querer.
— Olá… — murmurou Catarina, abrindo a porta, visivelmente desorientada.
Tinha uma máscara facial para pele sensível espalhada pelo rosto e rolos presos no cabelo.

— Olá, amiga! Ainda bem que estão acordados. Andámos por aqui a passear e perdemos o último metro. Portanto, vamos ter de ficar convosco — anunciou Ana, entrando sem esperar convite e empurrando Catarina para o lado.
Atrás dela enfiaram-se Pedro, o marido, e Tiago, o filho dos dois.
— E onde está o mano? Ricardo! Que é isso, homem, a dormir? Toca a levantar, a tua irmã chegou! — gritou ela, soltando uma gargalhada.
O riso parecia uma mistura de rugido de hipopótamo com soluço de elefante. Catarina sentiu logo uma pálpebra a tremer. Naquele instante percebeu que a noite calma e agradável tinha acabado.
— Catarina! Ficaste aí feita estátua? Vá, põe qualquer coisa na mesa! Os teus queridos parentes vêm cheios de fome da rua.
Catarina lançou ao marido um olhar carregado de significado, mas Ricardo limitou-se a encolher os ombros.
— Vamos todos para a sala, vemos um bocado de televisão. A Catarina prepara-nos qualquer coisinha leve para comer. Rapazes, bora ver futebol!
Ela ficou a alternar o olhar entre o marido e Tiago, de sete anos, que já se tinha instalado no seu cadeirão preferido sem sequer tirar as sapatilhas. Pedro, magricela e com ar sonhador, acrescentou:
— Com futebol iam mesmo bem umas batatas fritas. Diz lá, Ana, achas que a Catarina tem alguma coisa para acompanhar?
— E tu, Ricardo — disse Catarina em voz baixa, sem desviar os olhos dele —, achas que o Pedro trouxe dentes suplentes?
Pedro engasgou-se de imediato. Ana, porém, desatou novamente a rir.
— Tu és terrível, amiga! Pronto, vá, mostra-me lá o palácio. Eu ajudo-te.
— Claro. Assim que o Tiago limpar o meu cadeirão.
— Mas que peste! Tiago, à entrada de uma casa tira-se o calçado!
Sem erguer os olhos do telemóvel, o rapaz atirou as sapatilhas para o chão e, com ares de grande pensador, meteu um dedo no nariz.
Catarina fez uma careta de repulsa e conduziu a cunhada até à casa de banho.
— Aqui tens um pano. Limpa o cadeirão. Depois faço-te a visita guiada.
— Ora bolas… Que receção calorosa… — resmungou Ana, enfiando o pano nas mãos do filho.
Tiago abanou a cabeça como se tivesse entendido, mas não se mexeu para limpar fosse o que fosse.
Catarina pensava resolver o assunto com umas sandes rápidas e, logo a seguir, chamar um táxi para despachar os visitantes para casa. Enquanto cortava chouriço, ouviu um ruído viscoso atrás de si. Virou-se e viu Ana com uma concha na mão, a tirar sopa diretamente da panela e a comê-la ali mesmo.
Ana sorriu antes de engolir. Resultado: a sopa escorreu-lhe pelo queixo e caiu sobre a blusa.
Sem o menor embaraço, limpou a cara com a ponta da própria roupa, despiu a blusa e estendeu-a a Catarina.
— Lava-ma, por favor. Tens uma máquina tão moderna! A nossa é velhíssima, uma dessas só posso sonhar ter…
Catarina abriu a boca para responder, mas tudo estava a acontecer depressa demais. Com a peça suja nas mãos, tentou reunir indignação suficiente para protestar. Nesse momento, Tiago apareceu na cozinha.
— Tenho de ir à casa de banho! Lá dentro há tomada?
— Não… — respondeu Catarina, confusa. — Para que precisas tu de uma tomada?
— Pedro! — rugiu Ana. — O Tiago precisa da casa de banho!
Durante os dez minutos seguintes, todos correram pela casa à procura de uma extensão. O problema era que Tiago tinha dificuldades de estômago: ia à casa de banho raramente, demorava uma eternidade e só conseguia lá ficar com o telemóvel. Naquele momento, porém, a bateria estava a acabar.
Depois de garantirem eletricidade à criança, os adultos regressaram à cozinha. Quanto à blusa, Ana parecia convencida de que Catarina a lavaria sem discussão.
