“Vá, põe qualquer coisa na mesa!” exigiu Ana, entrando sem pedir licença e empurrando Catarina para o lado

Histórias
Privacidade violada; reação covarde revela dor escondida.

Mas Catarina não tinha a menor intenção de tratar da roupa de Ana. Pegou num saco, enfiou-o nas mãos da cunhada e, com uma calma gelada, informou:

— Há uma lavandaria no prédio ao lado.

Ana limitou-se a encolher os ombros, como se a resposta não a atingisse, e instalou-se à mesa.

— Vocês estão bem servidos, sim senhora — comentou, de boca cheia de enchido. — A casa ficou toda arranjadinha, os móveis são bonitos… De onde é que veio tanto luxo?

— Como disse? — Catarina julgou, por um instante, ter ouvido mal.

— Perguntei onde arranjaram dinheiro. O Ricardo anda sempre a dizer que não tem um cêntimo. E, afinal, vivem no centro, num apartamento destes!

Catarina sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. Ainda assim, conteve-se. Entre os familiares do marido havia pessoas decentes, e Ana era bem capaz de espalhar veneno se se sentisse contrariada.

— Existe um sítio secreto… — começou ela.

Os convidados até se inclinaram para a frente, atentos. Catarina deixou a expectativa crescer durante alguns segundos e depois, pronunciando cada sílaba com nitidez, disse em voz alta:

— Chama-se: arranjar trabalho!

— Nós trabalhamos, querida — respondeu Ana, sem se ofender. — Só que, com trabalho honesto, ninguém enriquece. Já vocês, pelo que vejo, estão muito bem. Portanto, alguma coisa hão de desviar aqui e ali. Partilhem uma moedinha com a família e nós ficamos calados.

Catarina bateu com a caneca na mesa com tanta força que o líquido quase saltou. Levantou-se de rompante.

— Para mim chega, Ricardo! Ou chamas um táxi para a tua irmã, ou ficas tu a servir e a entreter a tua família. Eu vou dormir. E ai de quem me acordar: chamo a polícia.

Ainda ficou bastante tempo deitada a ouvir vozes abafadas, passos e ruídos vindos da cozinha. Acabou por pôr o despertador para as seis da manhã e adormeceu.

Como já previra, Ana e os seus “meninos” passaram a noite lá em casa. Mas Catarina não tinha qualquer vontade de se cruzar outra vez com aquela mulher descontrolada. Por isso, levantou-se em silêncio, preparou-se sem fazer barulho e saiu para o trabalho. Ricardo telefonou-lhe e enviou-lhe mensagens, porém ela não respondeu. Preferiu saborear a tranquilidade. Chegou ao escritório uma hora e meia mais cedo, serviu-se de café e começou, sem pressa, a organizar documentos.

No fim do dia, passou pelo supermercado. Já no estacionamento, ligou ao marido.

— Ricardo, desce. Há compras para levar para cima.

— Não consegues trazê-las tu? — perguntou ele, bocejando.

— Não — respondeu Catarina, já a perder a paciência. — E agradece por eu não te ter mandado fazer as compras. Sou eu que estou a preparar o meu próprio aniversário.

Na verdade, era ela quem sustentava a casa. Nos últimos anos, à medida que a sua carreira avançava, o salário também crescera. Fora graças a esse rendimento que tinham feito uma remodelação moderna no apartamento e comprado um bom carro. Ricardo, em tempos, também fora bastante competente e ambicioso, mas ano após ano tornara-se mais acomodado. Em vez de investir em formação ou voltar ao desporto, preferia ficar estendido a ver futebol na televisão.

Ele deixou os sacos no hall e regressou imediatamente ao sofá.

Quando Catarina abriu a porta da cozinha, ficou sem fala.

Havia loiça suja por todo o lado. Restos de comida espalhados, embalagens abertas de enchidos e queijos caros — precisamente aqueles que ela guardara para a festa. No frasco das ovas de salmão, comprado com antecedência para a ocasião, viam-se beatas. O cheiro era insuportável.

— Mas que… — nem conseguiu encontrar uma palavra decente.

As bebidas mais caras, compradas para o aniversário, tinham sido bebidas ou simplesmente abertas e deixadas ali.

— Catarina… — chamou Ricardo, com ar culpado. — Aconteceu uma coisa. O meu irmão, Rafael Silva, e o tio Fernando escreveram. Disseram que não vêm ao teu aniversário.

— Porquê? — perguntou ela, magoada.

Tinha planeado o menu para um número certo de pessoas. Além disso, queria aproximar-se deles. A cidade não era grande, e a família Silva tinha bastante prestígio.

— Não sei… — murmurou Ricardo, desviando o olhar.

Catarina estreitou os olhos.

— Estás a esconder-me alguma coisa. Vamos, conta.

Casa da Encarnação