“Portanto, para o meu irmão fica a herança a sério, e para mim sobram ervas daninhas e impostos?” disse Inês, pousando o molho de chaves sobre a mesa com uma serenidade glacial

Histórias
Que frieza tão cruelmente injusta e humilhante.

— Portanto, para o meu irmão fica a herança a sério, e para mim sobram ervas daninhas e impostos? Que bela noção de justiça. Fiquem com as chaves — disse Inês, pousando o molho sobre a mesa com uma serenidade tão fria que parecia estar a livrar-se de um peso que nunca lhe pertencera.

Maria ficou imóvel, a chávena suspensa entre os dedos. João levantou os olhos do telemóvel e encarou a irmã, sem perceber de imediato se ela falava a sério. A cozinha mergulhou num silêncio espesso, cortado apenas pelo tique-taque do relógio preso à parede. Ninguém ali esperava uma reação daquelas. Muito menos de Inês, que sempre fora a mais dócil, a que calava, a que engolia desgostos sem transformar nada em discussão.

Tudo tinha começado ano e meio antes, quando o pai morrera de repente, vítima de um enfarte, no próprio local de trabalho. Tinha apenas cinquenta e oito anos. Era um homem reservado, habituado a resolver as coisas sozinho e pouco dado a explicar planos ou intenções. Guardava os documentos importantes num cofre antigo, cuja chave andava sempre misturada com as de casa. Depois do funeral, descobriram que não havia testamento. Dentro do cofre encontraram apenas as certidões de propriedade: uma relativa ao apartamento na cidade, outra à casa antiga no campo. Assim, pela lei, tudo teria de ser dividido em partes iguais entre os dois filhos, Inês e João.

Os primeiros seis meses foram consumidos em papéis, certidões, requerimentos e idas ao notário. A notária, uma mulher de meia-idade, de rosto cansado e voz sem pressa, repetia cada etapa com método: entregar a declaração, reunir documentos, pagar taxas, aguardar prazos. Inês e João iam juntos, sentavam-se lado a lado nas filas, assinavam onde lhes indicavam e voltavam para casa quase sem trocar palavra. Não havia propriamente hostilidade entre eles, mas também não existia aquela intimidade calorosa que se imagina entre irmãos. Tinham crescido sob o mesmo teto, sim, mas a vida levara cada um para o seu lado.

Quando passaram os seis meses legais e a notária marcou a data para a entrega dos certificados de habilitação e partilha, Maria convocou uma espécie de reunião familiar. Ela vivia no seu próprio T1, herdado da mãe. Quanto aos bens do marido, não tinha qualquer direito direto: o casamento fora oficializado tarde demais, numa altura em que tudo já estava exclusivamente em nome dele.

Sentaram-se na mesma cozinha onde agora se encontravam. Maria colocou sobre a mesa uma garrafa térmica com chá, cortou umas fatias de bolo comprado no supermercado, acomodou-se diante dos filhos e abriu as mãos, como se apresentasse uma solução evidente:

— Então, vamos decidir o que fica para cada um.

João permaneceu calado, à espera. Inês também não disse nada.

— Estive a pensar — continuou Maria. — O João vive na cidade, trabalha lá, precisa de casa. Tu, Inês, sempre tiveste um carinho especial pelo campo. Lembras-te de quando eras pequena e pedias para ficar com os avós o verão inteiro? Nem querias regressar à cidade. Portanto, ficas com a casa. Assim parece-me honesto. Justo para todos.

Na altura, Inês assentiu. De facto, gostava do campo: do silêncio depois do ruído urbano, do cheiro da erva cortada, dos fins de tarde no alpendre, quando se podia simplesmente ficar sentada a ver o sol desaparecer. João trabalhava como gestor numa empresa de logística e vivia num apartamento arrendado, pequeno, nos arredores. O raciocínio da mãe soara claro e até razoável. O irmão ficaria com o apartamento do pai; ela, com a casa de família no interior. Meio por meio. Cada um com a sua parte. Sem conflitos.

— Está bem — respondeu Inês.

João soltou quase um suspiro de alívio e acenou com a cabeça. Temera que tudo acabasse em tribunal, com acusações, ressentimentos e discussões intermináveis. Daquela forma, pelo menos, parecia que a família atravessaria a partilha em paz.

Os documentos foram levantados sem objeções. João tornou-se proprietário de um T2 num bairro recente da cidade, no sétimo andar de um prédio de nove pisos. Eram cinquenta e dois metros quadrados, com obras feitas pelo pai apenas três anos antes. Inês, por sua vez, ficou dona de uma velha casa de madeira com um terreno de cerca de dois mil metros quadrados em Ponte de Lima, a aproximadamente cento e vinte quilómetros da cidade onde viviam, numa zona afastada onde o autocarro só passava três vezes por dia.

O primeiro choque veio uma semana depois da conclusão da partilha, quando Inês tirou um dia de folga para ir ver aquilo que agora era seu. Apanhou o autocarro da manhã e passou duas horas e meia a sacolejar por estradas secundárias, gastas e cheias de remendos. Desceu junto a uma mercearia torta, com o letreiro desbotado, e seguiu a pé por uma rua poeirenta, ladeada por casas abandonadas e pequenos jardins tomados pelo mato.

A casa de que se lembrava como acolhedora e cuidada tinha-se transformado quase numa ruína. O pai não punha lá os pés havia cinco anos; depois da morte do avô, faltaram-lhe tempo, vontade e forças. O avô partira, a avó já tinha morrido antes, e a casa ficara entregue ao abandono. O telhado metia água em três pontos; no sótão, viam-se manchas escuras de humidade e bolor. O revestimento exterior estava enegrecido pela chuva, e em vários sítios a madeira apodrecera de uma ponta à outra. A varanda abatera de um lado, os degraus tremiam sob o peso dos pés. A vedação inclinara-se e, nalguns troços, simplesmente caíra: restavam postes tortos e pedaços de rede enferrujada, pendurada como trapo velho. O terreno estava coberto por ervas mais altas do que a cintura — bardanas, urtigas, cardos, gramíneas bravas. Algures debaixo daquela selva deviam existir os canteiros que a avó, em tempos, cultivara com tanto zelo.

Inês ficou parada no meio daquele abandono e sentiu um amargo subir-lhe à garganta. Não era saudade da infância. Nem sequer era tristeza doce. Era uma perceção lúcida, quase física, do tamanho do problema que lhe tinham posto nas mãos. Para tornar aquela casa habitável, seriam necessários meses de trabalho e muitos milhares de euros. Ou então deitá-la abaixo e construir tudo de novo. Não havia uma terceira solução.

Deu a volta ao edifício, espreitou o barracão — uma construção empenada, com parte da cobertura desabada — e tentou abrir a porta principal. Estava presa; teve de empurrá-la com o ombro. Lá dentro, o ar cheirava a humidade fechada e a ratos. A mobília ainda ali estava: um sofá antigo, uma mesa, uma cama de ferro. Tudo coberto por uma camada espessa de pó. O papel de parede descolara-se e pendia em tiras, como pele morta. O fogão a lenha, único meio de aquecimento, precisava de uma inspeção séria; talvez, na verdade, tivesse de ser substituído por completo.

Inês voltou ao alpendre, sentou-se num degrau instável e tirou o telemóvel do bolso. O sinal mal aparecia, mas conseguiu ligar à mãe.

— Mãe, estou na casa.

— Então? Como está isso? — perguntou Maria, com uma vivacidade que soou deslocada.

— Mãe, isto está tudo a cair. O telhado mete água, o soalho está podre, a vedação veio abaixo. Isto não é uma casa, são destroços.

— Oh, Inês, o que esperavas? Esteve cinco anos sem ninguém. É natural que se tenha degradado. Mas a terra é boa, o ar é limpo. Arranjas as coisas aos poucos e ficas com uma bela casa de férias.

— Para arranjar isto são precisas quantias enormes.

— Devagar se vai ao longe. Também não estás a pensar mudar-te para aí amanhã, pois não?

Inês percebeu que discutir seria inútil. Despediu-se, guardou o telemóvel e ainda passou quase uma hora a percorrer o terreno, tentando calcular por onde começar. Era uma tentativa absurda. Havia trabalho para nunca mais acabar.

Na semana seguinte chegou a primeira notificação: imposto sobre o terreno. Cento e vinte euros por ano. Depois veio o imposto relativo ao imóvel: mais cinquenta euros. A seguir, uma cobrança da junta pelos serviços de recolha de resíduos e manutenção dos espaços comuns: outros trinta euros. Inês sentou-se com uma calculadora e somou tudo. Só em encargos obrigatórios eram duzentos euros anuais. Quase a quinta parte de um ordenado mensal dela. Como professora do primeiro ciclo numa escola pública, não ganhava o suficiente para gastar dinheiro, sem pensar, numa casa vazia que nem sequer podia usar.

E ainda havia o essencial: a casa precisava de obras. Se nada fosse feito, em poucos anos transformar-se-ia definitivamente em madeira podre e entulho. Mesmo assim, as finanças continuariam a exigir pagamentos, nem que fosse pelo terreno.

Foi então que Inês decidiu contratar alguém da terra para avaliar, com olhos práticos, o estado real da casa.

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