Chamava-se Pedro, embora toda a gente na aldeia o tratasse por senhor Pedro. Fora tratorista durante anos e, depois de se reformar, ia fazendo pequenos arranjos: telhados, portões, caleiras, fechaduras, o que aparecesse. Inês encontrou-o por indicação de uma vizinha e combinou que ele fosse ver a casa.
O homem chegou numa carrinha antiga, deu a volta ao edifício, subiu a uma escada, observou o telhado por algum tempo e, quando desceu, abanou a cabeça com ar carregado.
— Isto não é coisa pequena — disse, limpando as mãos às calças. — Remendar, remendar, não resolve. O certo era substituir uma boa parte da cobertura. Mas, se for só para desenrascar e impedir que meta água por enquanto, posso tapar com tela asfáltica e prender bem. Com material incluído, fica-lhe por volta de cem euros.
Inês nem teve forças para discutir.
— Faça isso, então.
Na semana seguinte, o senhor Pedro voltou. Desta vez pregou placas de contraplacado nas janelas, para evitar que miúdos da zona as partissem ou que algum sem-abrigo resolvesse entrar. Mais cinquenta euros. No barracão encontrou ainda umas latas de tinta velha e alguns pincéis esquecidos. Aproveitou o que dava para aproveitar e pintou as portadas, não por grande utilidade, mas para que a casa deixasse de ter aquele aspeto tão abandonado.
Antes de se ir embora, apontou para a vedação, uma rede torta, enferrujada e caída em vários pontos.
— E a cerca? Também quer que eu trate disto?
Inês olhou para o terreno, para a malha metálica inclinada e para os postes já meio soltos. Suspirou.
— Agora não. Não tenho dinheiro.
— Como quiser. Mas olhe que os vizinhos podem deixar entrar animais. Depois fica tudo pisado.
— Também não há grande coisa para pisar — respondeu ela, cansada.
Regressou à cidade com uma sensação amarga, como se tivesse sido enganada. Não porque alguém lhe tivesse mentido de forma direta. A verdade era mais subtil e, por isso mesmo, mais irritante: ninguém lhe tinha dito tudo. A mãe falara da casa como se fosse um refúgio encantador, uma casinha no sossego, com ar puro, liberdade e recordações de família. João, por seu lado, nem se preocupara em perceber. A ele coubera o apartamento; o resto já não lhe dizia respeito.
Enquanto Inês somava despesas, João pôs mãos à obra. Saiu da casa arrendada onde vivia, mudou-se temporariamente para o apartamento herdado e fez uma remodelação ligeira. Pintou as paredes, trocou algumas peças da casa de banho, arranjou a canalização mais evidente e comprou mobília nova, simples mas apresentável. Dois meses depois, colocou o imóvel no mercado de arrendamento.
Não demorou a aparecerem interessados. Um casal jovem, sem filhos e sem animais, ambos a trabalhar remotamente na área da informática. Assinaram contrato por um ano. Seiscentos euros por mês, livres para João; despesas à parte.
João passou a falar disso com orgulho nos almoços de domingo em casa da mãe, onde Inês aparecia, por hábito, uma vez por mês.
— Tive sorte com os inquilinos — dizia ele, enquanto barrava manteiga no pão. — Gente impecável. Vê-se logo que são responsáveis. Nada de crianças, nada de cães ou gatos. Mantêm tudo limpo e pagam sempre a horas. Às vezes até transferem antes do prazo.
Maria escutava-o enternecida e acenava com aprovação.
— Fizeste muito bem, meu filho. O teu pai havia de ficar contente. Soubeste aproveitar aquilo que recebeste.
Inês ficava calada, de colher na mão, a mexer a sopa no prato. Pensava que talvez o pai também se orgulhasse dela, se soubesse que todos os meses ela gastava dinheiro numa casa onde não morava, onde não tencionava morar e que, apesar dos remendos, continuava a caminhar para a ruína.
Passou um ano. Inês pagou o segundo período de impostos. Mais duzentos euros desapareceram sem deixar rasto. A casa continuava de pé, mas cada visita mostrava uma nova cedência: uma tábua mais mole, um cheiro mais forte a humidade, outra fissura, outro canto tomado pelo bolor. Na primavera e no verão, ela ainda foi lá duas vezes. Levou emprestado um aparador a gasolina de uma vizinha do prédio, cortou ervas, juntou lixo em sacos, arrastou ramos secos para junto do portão. Tudo aquilo lhe parecia inútil. Um mês depois, a vegetação voltava a crescer; o vento trazia sacos de plástico, garrafas vazias e embalagens atiradas por alguém na berma da estrada.
Certa noite, sentada ao computador, abriu a aplicação do banco para pagar mais uma conta associada à casa. Introduziu os dados quase em piloto automático. Mas, de repente, parou. Os dedos ficaram suspensos sobre o teclado.
Uma pergunta atravessou-lhe a cabeça, simples e brutal: para quê?
Era tão óbvia que a espantou nunca a ter encarado de frente. Para quê continuar a pagar? Para quê enterrar dinheiro, tempo e energia numa coisa que não lhe servia?
Por nostalgia? As lembranças eram dos avós, da infância, dos verões em que a casa tinha cheiro a comida, lençóis ao sol e vozes no quintal. Não pertenciam àquele casco húmido, roído, cheio de ratos e mofo.
Por esperança no futuro? Que futuro? Para tornar a casa habitável seriam necessários muitos milhares de euros, dinheiro que ela não tinha e que não via maneira de vir a ter. O ordenado de professora do primeiro ciclo ficava perto dos novecentos e cinquenta euros líquidos. Um terço ia para a renda de um T1 antigo, numa zona periférica. Outro terço desaparecia em alimentação, transportes e contas básicas. Sobrava-lhe pouco. E era desse pouco que saíam impostos, deslocações, pequenos arranjos e todas aquelas despesas sem retorno. Poupar, assim, era uma palavra bonita e vazia.
Inês fechou a aplicação sem concluir o pagamento. Sentou-se no sofá, puxou os joelhos contra o peito e ficou muito tempo a olhar pela janela. Lá fora caía uma chuva fina. No parapeito, uma mosca rastejava devagar, como se também ela não soubesse para onde ir.
No fim da primavera, Maria voltou a juntar os filhos para um almoço de família. O motivo era o aniversário de João, que fazia trinta e três anos. Estavam apenas os três: a mãe, o aniversariante e Inês. A mesa tinha o costume de sempre — saladas, frango assado, batatas, pão, uma garrafa de vinho aberta mais por cerimónia do que por vontade. Nada de especial. Só mais uma refeição familiar, igual a tantas outras.
A conversa avançou pelos assuntos habituais. A certa altura, João queixou-se de que os inquilinos lhe tinham pedido uma intervenção na casa de banho. Algumas peças de azulejo estavam a descolar, o silicone escurecera, e havia zonas com mau aspeto.
— Vou ter de meter algum dinheiro ali — comentou, com o ar grave de quem avalia um problema sério. — Talvez seiscentos ou setecentos euros. Mas é investimento, percebem? Se deixar aquilo em condições, depois consigo aumentar a renda para setecentos. Em menos de um ano recupero.
Maria inclinou a cabeça, compreensiva.
— Claro, filho. Uma casa precisa de manutenção. Mas depois também dá retorno.
Inês ouviu aquilo e sentiu crescer dentro de si uma irritação lenta. Não era raiva. Não tinha esse feitio explosivo. Era outra coisa: uma impaciência fria, lúcida, quase matemática. Irritava-a a naturalidade com que todos aceitavam aquela desigualdade.
João gastava setecentos euros e, a seguir, passava a receber mais todos os meses. Ela gastava dinheiro todos os anos e não recebia absolutamente nada. Ainda assim, à volta da mesa, parecia que tudo estava certo, equilibrado, justo.
— E a tua casa, Inês? — perguntou Maria de repente, virando-se para ela com um sorriso. — Tens ido lá?
— Fui no mês passado — respondeu Inês, sem se alongar. — Cortar ervas.
— E então? Podias arranjar o terreno, não? Plantar umas flores, uns arbustos… Ficava bonito.
Inês pousou o garfo no prato. Devagar. Depois olhou para a mãe. Maria sorria com sinceridade, sem perceber o absurdo do que acabara de sugerir. Era isso que mais doía: ela não estava a provocar. Não compreendia mesmo.
— Mãe, diz-me uma coisa — começou Inês, num tom calmo. — Achas que a herança ficou dividida de forma justa?
A pergunta caiu sobre a mesa sem gritos, sem drama, quase como uma observação banal. Mesmo assim, qualquer coisa no modo como ela a disse fez Maria calar-se. Piscou os olhos, apanhada de surpresa.
— Bem… eu acho que sim — respondeu por fim. — Cada um recebeu a sua parte. Ficou uma coisa para cada um.
Inês soltou um sorriso breve, cansado.
— Uma coisa para cada um?
João endireitou-se na cadeira. Havia na voz da irmã uma firmeza que ele não lhe conhecia, e isso incomodou-o. Inês sempre fora discreta, conciliadora, daquelas pessoas que engolem para não criar conflitos. Naquele momento, porém, havia no olhar dela algo novo.
— Qual é o problema, afinal? — perguntou ele, já com uma ponta de desafio.
Inês encostou-se às costas da cadeira e cruzou os braços, não para fazer teatro, mas porque precisava de se manter inteira enquanto tudo por dentro se apertava.
— O João recebeu um apartamento que arrenda por seiscentos euros por mês. Ao fim de um ano, isso dá sete mil e duzentos euros de entrada. Eu recebi uma casa que exige despesas constantes e que me tira dinheiro todos os meses, sem qualquer retorno.
