— Só em impostos, seguros mínimos e contas de manutenção, já lá deixei mais de mil euros este ano — continuou Inês, sem desviar os olhos do irmão. — E em troca recebi o quê? Nada. Nem um cêntimo.
O silêncio caiu sobre a sala com um peso desconfortável. Ouviam-se apenas os ponteiros do relógio preso à parede, marcando os segundos com uma regularidade quase cruel.
João encolheu os ombros, esforçando-se por manter aquele ar desprendido que usava sempre que queria parecer acima da discussão.
— Também podes arrendá-la.
Inês inclinou ligeiramente a cabeça, como se o estivesse a observar pela primeira vez.
— A quem, João? Tu viste em que estado aquilo está? Nem alguém desesperado aceitava viver ali. O telhado mete água, as janelas estão tapadas com tábuas, o fogão antigo nem funciona, o soalho está podre. Aquilo não é uma casa. É uma ruína com paredes.
— Então vende — respondeu ele, com a mesma facilidade com que se aconselha alguém a deitar fora uma cadeira partida ou um guarda-chuva velho.
— Vender? — repetiu Inês, e a voz dela ganhou uma dureza fria. — Portanto, se eu vender a casa, não há problema nenhum. Mas se fosses tu a vender o apartamento, a mãe não te censurava? Não vinha dizer que era uma lembrança do pai, que não se deve desperdiçar uma herança?
Maria mexeu nervosamente no guardanapo que tinha diante de si.
— Inês, filha, para quê falar assim? Nós somos família…
— Não digas isso — cortou Inês, de imediato. — Por favor, não uses essa frase.
A mãe ficou imóvel, assustada com a interrupção. Inês nunca fazia aquilo. Nunca levantava a voz, nunca cortava a palavra a ninguém, nunca contrariava abertamente. Habituara-os a vê-la calada, obediente, sempre pronta a aceitar o que lhe davam e o que lhe tiravam.
— Mãe, tu repetes que recebemos partes iguais. Mas não é verdade. O João recebeu um bem que gera rendimento. Eu recebi um encargo, uma coisa que só consome dinheiro. Percebes a diferença?
— Uma casa também é património — tentou João intervir, embora já não soasse tão seguro. — Imobiliário é sempre…
— Imobiliário no qual eu gastei mais de mil euros num ano sem receber absolutamente nada — interrompeu Inês, agora com uma calma ainda mais desconcertante. — Enquanto tu, no mesmo período, recebeste sete mil e duzentos euros do apartamento. Consegues ver a diferença ou queres que eu faça um desenho?
João fechou o rosto. Os números estavam certos, e isso irritava-o mais do que qualquer acusação. Detestava quando lhe punham diante dos olhos aquilo que ele preferia fingir que não existia.
— Tu aceitaste — disse ele, mais seco, já em tom de desafio. — Ninguém te obrigou. Estavas sentada a esta mesma mesa, ouviste tudo e acenaste com a cabeça. Falámos do assunto, e não te opuseste.
— Aceitei, sim — confirmou Inês. — Porque me explicaram que era justo. Porque tu vivias na cidade e precisavas de um apartamento. E eu, como tenho essa imagem de pessoa simples, ligada ao campo, devia ficar contente com uma ruína perdida no meio de lado nenhum. Eu acreditei.
— Inês! — protestou Maria, ofendida. — Que maneira de falar é essa?
— É a verdade, mãe. A mim coube-me o que sobrou. O João ficou com aquilo que tem utilidade, valor e rendimento. Eu fiquei com o que só se mantém à custa de meter dinheiro num buraco sem fundo.
Devagar, Inês levantou-se da cadeira. Não havia pressa nos seus gestos, nem dramatismo. Abriu a mala, tirou de lá um molho de chaves — duas chaves antigas presas a um porta-chaves de couro já gasto e desbotado — e pousou-o junto ao prato da mãe. O metal bateu na cerâmica com um som pequeno, mas que pareceu encher a divisão.
— Portanto, para o meu irmão ficou a herança; para mim, ervas daninhas, telhas partidas e impostos. Bela noção de justiça. Fiquem com as chaves.
Maria arregalou os olhos, incapaz de acreditar no que via.
— O que… o que estás a fazer?
— Estou a recusar esta vossa maravilhosa justiça.
João empurrou a cadeira para trás com brusquidão.
— Não podes simplesmente recusar uma herança agora! Já aceitaste, já está em teu nome! Passou mais de um ano!
— Eu não estou a recusar a herança — corrigiu Inês, gelada. — Estou a recusar continuar a sustentá-la com o meu dinheiro. A casa está em meu nome, por isso posso decidir o que faço com ela. E não vou continuar a pagar por uma coisa que me foi empurrada para cima com o pretexto de ser uma divisão justa.
— Inês, espera lá — pediu a mãe, aflita, estendendo as mãos sobre a mesa. — Vamos conversar com calma, sem nervosismos…
— Não há nada para conversar, mãe. Já pensei nisto durante ano e meio. Chega.
João levantou-se também. Estava vermelho, a respiração pesada, como se tivesse sido ele o ofendido.
— Aquela casa é uma memória do pai! Não podes vendê-la assim, como se não significasse nada!
Inês olhou para ele durante alguns segundos. Não havia raiva nos olhos dela, nem sequer mágoa visível. Havia apenas um cansaço profundo, antigo, acumulado por meses de contas, silêncios e explicações engolidas.
— A memória do pai não devia servir para atirar despesas para cima de uma só filha. Se a casa é assim tão preciosa, se é realmente uma lembrança que não se pode perder, compra-ma. Faço-te metade do preço: seis mil euros. Ao fim e ao cabo, é quase o que tu recebes num ano com o apartamento.
— Eu não tenho esse dinheiro! — explodiu João. — Já gastei imenso em obras, em móveis, em arranjos!
— Mas eu devia tê-lo, não era? — Inês pegou na mala que estava na cadeira ao lado. — Curiosa matemática, João. Muito curiosa.
Virou-se para sair. Maria levantou-se num sobressalto e tentou alcançá-la.
— Inês, espera! Onde vais? Vamos falar, por favor!
Inês parou à entrada da sala e olhou para trás.
— Não há mais nada a dizer. Já disse tudo. Obrigada pelo jantar.
Saiu do apartamento, fechou a porta atrás de si e ficou por um instante encostada a ela, no patamar. O coração batia-lhe com tanta força que parecia querer rebentar-lhe no peito; as mãos tremiam, e só então percebeu o esforço que fizera para se manter firme. Mas, por baixo desse tremor, havia uma sensação inesperada de alívio. Como se tivesse largado no chão uma mochila pesada que transportara durante demasiado tempo.
Na manhã seguinte, segunda-feira, Inês pediu duas horas no trabalho por conta própria e foi a uma agência imobiliária. O escritório ficava no rés do chão de um prédio antigo, com uma montra discreta e anúncios amarelados colados ao vidro. A consultora, uma mulher já madura, de cabelo curto e expressão cansada, ouviu-a sem interromper. Depois ficou alguns segundos a bater com a caneta na mesa, pensativa.
— Uma casa nesse estado… — disse por fim. — O terreno é grande, isso ajuda. A zona é pouco procurada, o que complica. Mas terra continua a ter valor. Há sempre quem procure um sítio para recuperar, para férias, para horta, para fugir da cidade. Eu diria que podemos anunciar entre oito mil e nove mil euros. Talvez um pouco mais, se aparecer alguém disposto a investir.
— Serve — respondeu Inês, sem hesitar.
A mulher observou-a com atenção.
— Tem a certeza? Depois de vender, não há volta a dar. Sendo herança, às vezes as pessoas arrependem-se.
— Tenho a certeza — disse Inês, firme. — Absoluta.
O anúncio ficou pronto nesse mesmo dia. Foi publicado nos principais portais imobiliários e também em grupos locais nas redes sociais. As fotografias não favoreciam nada a casa, e nem havia forma de a favorecer: o telhado denunciava as falhas, as tábuas nas janelas davam-lhe um ar abandonado, e o interior pedia uma intervenção séria. Ainda assim, o terreno aparecia bem nas imagens: amplo, plano, com cerca de dois mil metros quadrados e restos de um antigo pomar que, com algum cuidado, talvez pudesse voltar a dar fruto.
Os telefonemas começaram uma semana depois. Algumas pessoas foram ver, franziram o nariz, abanaram a cabeça, fizeram perguntas, apontaram defeitos e tentaram baixar o preço. Ofereciam seis mil, cinco mil, às vezes ainda menos. Inês recusava com educação. Sabia perfeitamente que não estava a vender uma casa pronta a habitar, mas também sabia que o terreno valia dinheiro. Não tinha pressa.
João ligou-lhe duas vezes. A primeira chamada chegou três dias depois daquela noite em casa da mãe. Estava indignado. Disse que ela devia ter consultado a família, que não podia tomar uma decisão daquelas sozinha, que aquilo era errado e desrespeitoso.
— João, quando dividiram a herança, também não fizeram grande questão de me consultar — respondeu Inês, com serenidade. — Apenas me apresentaram a decisão como um facto consumado. Agora é a minha vez.
