— Põe-te daqui para fora! Já não te suporto: sempre a andar de um lado para o outro, a espreitar, a farejar tudo! — Maria nem sequer se deu ao trabalho de se virar. Falava de costas, plantada diante da janela, como se estivesse a ralhar com a rua e não com a nora. — E fica sabendo: este apartamento é do meu filho. Se nos apetecer, metemos-te na rua!
Ana ficou imóvel no meio do corredor. Trazia um saco de compras numa mão e, no rosto, nem um músculo se mexeu. Tinha aprendido a controlar-se assim. Dois anos naquela vida ensinavam muita coisa.
A sogra instalara-se lá em casa oito meses antes. A princípio, seria “só por umas semaninhas”, por causa de umas obras no apartamento antigo onde vivia. As obras acabaram, mas Maria não voltou para lado nenhum. Limitou-se a ficar. Como um móvel pesado que alguém empurra para dentro de casa e depois se esquece de retirar.
O apartamento tinha duas assoalhadas, num prédio recente nas Avenidas Novas, em Lisboa. A prestação do crédito era paga por Ana, mês após mês, sem falhas, com o ordenado de gestora numa agência de viagens. João, o marido, trabalhava numa oficina, mas, por um motivo misterioso, o dinheiro dele desaparecia sempre antes de chegar a altura das contas. “Houve um imprevisto”, “atrasaram-me o prémio”, “tive de pagar uma dívida”: a explicação mudava, o resultado era o mesmo. Ana já nem perdia tempo a ouvir.
Numa sexta-feira à noite, Maria apareceu com visitas. Eram três: a amiga Catarina, o marido dela e um sujeito chamado Rui, que Ana vira apenas uma vez antes na vida. Espalharam-se pela cozinha, puseram garrafas em cima da mesa e ligaram a televisão num volume absurdo.

Ana entrou em casa por volta das oito e meia. Sobre a mesa acumulavam-se pratos sujos da última noitada daquele género; o cinzeiro transbordava; no chão havia uma mancha seca de qualquer coisa entornada.
— João. — Ela espreitou para a sala. O marido estava estendido no sofá, a passar o dedo pelo telemóvel. — Viste o estado da cozinha?
— A minha mãe veio com pessoal — respondeu ele, encolhendo os ombros. — Qual é o drama?
— Qual é o drama… — repetiu Ana, muito baixo. — Nenhum.
Virou costas, entrou na casa de banho e fechou a porta. Encarou-se no espelho. Trinta e um anos. Olheiras escuras. O cabelo preso de qualquer maneira. Na agência, a época estava ao rubro: trabalhava das nove às sete, às vezes até às oito, e chegava a casa espremida até à última gota. E era aquilo que a esperava.
Da cozinha vinha a gargalhada de Maria, alta, aberta, teatral, como se estivesse em palco. “Ai, Catarina, tu matas-me com essas coisas!” Ana abriu a torneira com mais força, só para abafar a voz.
Maria era daquelas mulheres que toda a gente descreve como “cheias de personalidade”. Em público, fazia-se de alma da festa: ria, servia comida, abraçava, contava anedotas. Mas isso era fora de casa. Entre quatro paredes, transformava-se. Dava ordens, resmungava, mexia nas coisas dos outros, mudava tudo de sítio e deitava fora o que não lhe agradava. Uma vez, atirara para o lixo uns ténis novos de Ana, porque “ocupavam espaço na prateleira”.
— Eu dei sessenta euros por esses ténis — disse Ana nessa altura.
— E então? Eram horrorosos — respondeu a sogra, antes de ir ver uma novela.
João assistira à conversa inteira. Não pronunciou uma palavra.
Naquele dia, Ana ficou muito tempo sentada dentro do carro, à porta do prédio. Apenas sentada. A pensar.
Começara, entretanto, a perceber o padrão. Sempre que tentava impor um limite, dizer alguma coisa ou exigir um mínimo de respeito, Maria desatava imediatamente a chorar. Lágrimas prontas a sair, olhos vermelhos, lábio a tremer. “Dei a vida inteira ao meu filho e agora querem correr comigo.” João corria logo para a consolar e lançava a Ana aquele olhar de censura, como quem dizia: viste o que fizeste?
Aquilo era uma arte. Uma verdadeira técnica.
Numa manhã de abril, Ana foi à Loja do Cidadão.
Não aconteceu nada de especial nesse dia. Simplesmente, chegara a altura. Ela andava a pensar nisso havia muito tempo, desde o verão anterior, quando Maria, em voz alta e à frente de Catarina, afirmara: “Este apartamento é do Joãozinho, convém que ela não se esqueça.” Ana não respondeu. Guardou apenas a frase.
Na repartição, esperou quarenta minutos. Pediu uma certidão do Registo Predial. Quando recebeu o papel, leu-o com calma: estava tudo ali, preto no branco. Proprietária: Ana Silva. Só ela. Porque o crédito fora feito em seu nome. Porque a entrada inicial, dois mil e trezentos euros, saíra das suas poupanças. Porque, na altura, João dissera: “Tu desenrascas-te melhor, tens um rendimento mais estável.”
Ana tirou uma fotografia à certidão com o telemóvel e guardou o documento na mala.
Depois atravessou a rua, entrou num café, pediu um cappuccino e telefonou à mãe.
— Mãe, o sofá do quarto de hóspedes está livre?
— Claro que está. Vais vir para cá?
— Talvez. Ainda não. Mas em breve.
A mãe não fez perguntas a mais. Tinha esse dom: percebia quando devia ficar calada.
Tudo ficou decidido no sábado.
Maria acordara de mau humor. Alguma coisa que Catarina lhe dissera ao telefone não lhe caíra bem, embora ninguém soubesse exatamente o quê. Passou a manhã a circular pela casa, suspirando alto, a mudar tachos de lugar e a bater com as portas dos armários. Ana estava sentada à mesa da cozinha, com café e papéis de trabalho à frente; precisava de confirmar reservas antes de segunda-feira.
— Podias ao menos limpar isto, não? — atirou a sogra, ao passar.
Ana ergueu os olhos.
— Limpo logo à noite.
— À noite! Ela limpa à noite! — Maria voltou-se de repente, e a voz dela ganhou aquele tom particular: alto, agressivo, carregado, como se não estivesse em casa, mas a discutir numa feira. — Tu tens noção da maneira como vives aqui? Há porcaria por todo o lado, uma desordem completa, nem há quem cozinhe para o Joãozinho…
— Basta. — Ana fechou a pasta.
