— Maria, não vamos por aí.
— Não vamos por onde? Pela verdade? — A sogra já avançava para a mesa, com as mãos cravadas na cintura. — Para que é que tu serves aqui, afinal? Dona de casa não és, mulher como deve ser também não!
— Mãe, já chega. — João apareceu à porta do quarto, despenteado, de t-shirt, com aquela cara de quem fora arrancado do sono à força.
— Não chega coisa nenhuma! — Maria subiu ainda mais o tom. — Se estás mal, vai para casa da tua mãe!
Ana ficou imóvel durante um segundo. Depois assentiu, com uma calma tão lenta que até pareceu estranha.
— Está bem.
Levantou-se, agarrou na pasta dos documentos — a mesma onde guardava a certidão do registo predial, o contrato do crédito à habitação e todos os comprovativos das prestações pagas ao longo de três anos — e dirigiu-se ao quarto. Abriu o roupeiro e tirou lá de dentro uma mala que já estava feita. João ficou parado no vão da porta, a observá-la.
— Ana, o que é isso? Para onde vais?
— Para casa da minha mãe — respondeu ela, sem dramatismo.
— Estás a falar a sério? Por causa do que ela disse?
Ana fechou o fecho da mala. Pegou no telemóvel, no carregador e nas chaves do carro. A pasta ficou por cima de tudo.
— Estou.
Maria permanecia no corredor, calada. Pela primeira vez naquela manhã, não tinha resposta pronta. Talvez não tivesse contado com aquilo. Talvez tivesse imaginado que Ana, como sempre, engoliria a humilhação, se fecharia na casa de banho por uns minutos e voltaria depois à rotina, como se nada tivesse acontecido.
Mas Ana abriu a porta de entrada, saiu e fechou-a atrás de si devagar, sem a bater.
No elevador, baixou os olhos para a pasta que trazia nos braços. Os papéis da casa. Três anos de prestações. A casa dela.
O telemóvel vibrou passados dois minutos. Era João. Ela rejeitou a chamada. Tocou novamente. Rejeitou outra vez. Guardou o aparelho no bolso e atravessou o parque de estacionamento.
O carro pegou à primeira. Um bom sinal.
A mãe vivia do outro lado da cidade; sem trânsito, eram uns quarenta minutos. Ana conduziu pela avenida larga e, para seu espanto, dentro da cabeça não havia ruído. Nem suposições, nem culpas, nem aquele pensamento viscoso de “e se eu estiver a exagerar?”. Havia apenas a estrada, os semáforos e a rádio baixinha.
O telefone insistiu mais três vezes. Duas chamadas de João, uma de um número desconhecido. Ana não atendeu nenhuma.
A mãe abriu a porta antes mesmo de ela tocar à campainha. Devia tê-la visto chegar pela janela.
— Entra. Já pus a água ao lume.
Não perguntou o que tinha acontecido. Não se lamentou, não levou as mãos à cabeça, não fez teatro. Pegou apenas na mala, encostou-a a um canto, e as duas sentaram-se na cozinha, frente a frente, como quando Ana era pequena, cada uma com a sua caneca entre as mãos.
— Vais ficar muito tempo? — perguntou a mãe.
— Ainda não sei — respondeu Ana, com sinceridade.
A mãe limitou-se a acenar e serviu-lhe mais chá.
João apareceu no dia seguinte, domingo, por volta do meio-dia. Tocou à campainha, e Ana viu-o pelo óculo da porta: casaco aberto, ombros um pouco caídos, expressão arrependida. O costume.
Ela abriu.
— Ana, vá lá, vamos conversar. — Ele entrou para o hall e olhou em redor, como se não estivesse em casa da sogra, mas numa reunião complicada. — A minha mãe exaltou-se. Tu sabes como ela às vezes é…
— João. — Ana cruzou os braços. — Vieste pedir desculpa ou justificar o que aconteceu?
Ele hesitou.
— Bem… as duas coisas.
— Então começa pela primeira.
João fez uma careta quase impercetível, mas ela viu. Era aquela expressão de sempre, quando lhe pediam algo concreto e esse “algo” o obrigava a assumir uma posição. Ele nunca gostara de coisas concretas. O concreto exigia responsabilidade.
— Desculpa — disse por fim. — Eu devia ter falado com ela mais cedo. Tens razão.
— Quando falares com ela a sério e quando ela voltar para a casa dela, liga-me. Nessa altura eu volto.
João abriu a boca.
— Ana, ela não pode simplesmente…
— Ela tem casa própria — interrompeu Ana, tranquila. — As obras acabaram há muito. Há oito meses, para ser exata.
Ele foi-se embora vinte minutos depois, sem ter conseguido nada. Na cozinha, a mãe de Ana resumiu a visita numa frase curta, mas certeira:
— É bom rapaz. Pena é ainda ser tão da mamã.
Na segunda-feira, Ana foi trabalhar como se nada fosse: às nove em ponto, com um café tirado da máquina do átrio. Os colegas não notaram, ou fizeram de conta que não. O dia passou depressa — época alta, viagens, clientes, telefonemas, orçamentos. Às seis da tarde, por momentos, quase se esqueceu de que a vida tinha mudado.
Quase.
Na quarta-feira, foi Maria quem ligou. Ana ficou a olhar para o ecrã, indecisa entre atender e deixar tocar. Acabou por aceitar a chamada.
— Ana — a voz da sogra vinha baixa, estranhamente contida. Quase humana. — Tu és uma pessoa adulta. Não se faz isto, pegar nas coisas e ir embora.
— Faz-se — respondeu Ana.
— Eu talvez tenha dito umas coisas a mais…
— Maria, sejamos honestas. A senhora vive na minha casa há oito meses. Sou eu que pago o empréstimo. A senhora recebe visitas, deixa tudo por arrumar e ainda deita fora coisas minhas. Isso não é “dizer umas coisas a mais”. É um padrão.
Houve silêncio do outro lado.
— Padrão? Qual padrão? — soltou Maria, e a antiga voz atravessou logo a máscara: seca, afiada, conhecida. — A casa só está em teu nome porque o João tinha o histórico bancário estragado. Em termos humanos, a casa também é dele.
Ana quase se riu. “Em termos humanos.”
— Já percebi a sua posição — disse, sem alterar o tom. — Adeus.
E desligou.
Nessa noite, tirou a pasta da mala e leu tudo novamente, devagar, com atenção. Contrato do crédito à habitação: mutuária, Ana Silva. Certidão do registo predial: proprietária, Ana Silva. Comprovativos: ordenante, Ana Silva. Estava tudo claro. Tudo limpo. Tudo era dela.
Depois abriu a aplicação do banco e consultou o valor ainda em dívida. Faltavam ainda quatro anos de prestações.
