“Se nos apetecer, metemos-te na rua!” exclamou Maria, de costas diante da janela, deixando Ana imóvel no corredor

Histórias
Essa convivência sufocante é absolutamente injusta e humilhante.

Quatro anos. Não era pouco, mas também não era o fim do mundo. Se tinha conseguido aguentar os últimos três, havia de aguentar os restantes.

A mãe entrou no quarto com um prato de queijo cortado em fatias finas, pousou-o ao lado dela e não fez perguntas. Ana deu por si a pensar que já nem se lembrava da última vez que sentira aquilo: silêncio sem peso. Um silêncio em que não era preciso ficar à espera do estrondo de uma porta, de uma frase venenosa, de uma provocação lançada do nada.

Na quinta-feira, João enviou-lhe uma mensagem:

«A minha mãe aceita sair. Podemos encontrar-nos e conversar?»

Ana leu a frase duas vezes. A palavra “aceita” ficou-lhe atravessada. Soava como se Maria estivesse a conceder um favor, e não a reparar uma situação que ela própria tinha criado. Mas, naquele momento, isso era secundário.

Respondeu:

«Está bem. Amanhã à noite. Às sete, no café da Rua de Santa Catarina.»

Terreno neutro. Isso, para ela, era essencial.

O café não tinha nada de especial: mesas junto às janelas, música baixa, cheiro a café acabado de tirar e a bolos quentes. Quando Ana entrou, João já lá estava. Chegara antes dela. Parecia exausto, com sombras fundas debaixo dos olhos e o casaco amarrotado, como se tivesse saído de casa sem sequer se olhar ao espelho.

— Olá — disse ele.

— Olá.

Ana sentou-se à frente dele e fez o pedido à rapariga que se aproximou da mesa. João ficou calado, a amachucar um guardanapo de papel entre os dedos.

— Ela vai-se embora este fim de semana — acabou por dizer. — Eu ajudo-a com as coisas.

— Está bem.

— Ana… — Ele ergueu finalmente os olhos. — Tu voltas?

Ela observou-o com atenção. Aquele homem com quem vivera quatro anos. Não era mau, no fundo. Era apenas demasiado confortável. Confortável para todos, menos para ela.

— Ainda estou a pensar — respondeu, sem mentir.

— Isso não é um sim.

— Também não é um não.

João assentiu devagar. Aceitou. E essa reação pareceu-lhe nova. Antes, teria começado a insistir, a apelar à pena, talvez até a telefonar à mãe ali mesmo, à mesa, para lhe pedir instruções.

Trouxeram o café. Lá fora, os carros passavam pela rua. Na mesa ao lado, um grupo ria-se de qualquer coisa sem importância.

— Eu não sabia que estavas assim tão mal — murmurou João.

— Sabias — corrigiu Ana, sem agressividade. — Era mais fácil fingir que não vias.

Ele não protestou. Também isso era diferente.

Ana bebeu um gole de café e desviou o olhar para a janela. Na cabeça, começava a formar-se uma ideia, não propriamente angustiante, mas prática: precisava de confirmar se havia alguma coisa no apartamento de que ela não tivesse conhecimento. A conversa com Maria deixara-lhe uma ponta solta. Aquela frase sobre o apartamento ser “dele, em termos humanos” tinha sido dita com confiança a mais.

Confiança a mais para ser apenas despeito.

Na sexta-feira ao fim da tarde, Ana foi até ao prédio. Não tencionava entrar. Queria apenas ver. Estacionou do outro lado da rua e ficou dentro do carro uns dez minutos. As luzes estavam acesas. Por detrás da cortina, passava uma sombra. Maria andava pela sala.

Ana pegou no telemóvel e ligou a Pedro, um advogado que conhecia desde a universidade. Tinham estudado juntos e, de vez em quando, falavam por causa de assuntos profissionais.

— Pedro, preciso de te perguntar uma coisa. Se um apartamento está registado em nome de uma única pessoa, se o crédito está no nome dessa pessoa e se a entrada também foi paga por ela, outra pessoa pode reclamar uma parte?

Do outro lado houve uma pausa breve.

— Estás a falar de um casamento?

— Sim. Mas o marido nunca pagou nada. Mesmo nada.

— Tens provas? Recibos, extratos bancários, comprovativos das prestações?

— Tenho três anos de comprovativos. Está tudo em meu nome.

— Então, numa eventual partilha, é possível defender com bastante força que o imóvel foi adquirido com dinheiro teu. Ainda por cima se ele nem sequer entrou com a entrada inicial. Mas porque é que estás a perguntar isso agora?

— Para já, por nada — respondeu Ana. — Quero apenas saber exatamente onde estou.

— Percebo — disse ele, e pela voz pareceu-lhe que sorria. — Estás a entender bem a situação. Guarda muito bem esses documentos.

— Estão comigo.

O sábado começou com outra mensagem de João:

«Vem ao meio-dia. A minha mãe está a arrumar as coisas.»

Ana chegou por volta do meio-dia e meia. João abriu-lhe a porta com o aspeto de quem não dormira a noite inteira. Do quarto vinha um barulho pesado, como se estivessem a arrastar móveis ou malas demasiado cheias.

No corredor havia um saco grande de xadrez e duas malas encostadas à parede. Ana olhou para aquilo sem dizer nada.

— Ela juntou o essencial — explicou João em voz baixa. — O resto leva depois.

— Depois quando?

— Ana…

— Estou só a perguntar.

Maria apareceu à porta do quarto com mais uma mala, azul-escura, tão cheia que parecia prestes a rebentar. Ao ver Ana, parou.

Durante alguns segundos, ficaram a encarar-se. Depois, a sogra soltou um riso curto pelo nariz e desviou os olhos.

— Então vieste.

— Vim — confirmou Ana, calma.

— Podes ficar contente. Conseguiste o que querias.

Ana não respondeu. Passou para a cozinha e pôs a chaleira ao lume. Do corredor chegava-lhe a voz de João, baixa, a tentar dizer qualquer coisa à mãe; Maria respondia com frases secas, irritadas, cortadas ao meio.

A cozinha parecia não ser limpa há uma semana. No peitoril da janela havia marcas secas de copos. A mesa estava cheia de migalhas. No fogão, manchas escuras de origem duvidosa. Ana ficou a olhar para aquilo e pensou que, mais tarde, pegaria num pano e deixaria tudo em ordem. Sem raiva. Sem espetáculo. Faria apenas o que tinha de ser feito.

Então a voz de Maria subiu no corredor:

— Eu, por acaso, dei muitos anos da minha vida por este filho! E agora aparece ela armada em dona disto tudo!

— Mãe, fala mais baixo — pediu João.

— Mais baixo nada! Que ela oiça! Tem os papéis, pois tem! — O tom dela tornou-se trocista. — E então? Lá porque tem papéis? Eu sou mãe!

Ana saiu da cozinha e ficou parada à entrada do corredor.

— Maria, os documentos contam, sim — disse, num tom liso, sem levantar a voz. — Contam porque significam que, nesta casa, quem decide sou eu. Não é a senhora.

A sogra virou-se para ela de repente.

— Tu…

— Durante oito meses, fiquei calada — disse Ana, mantendo exatamente a mesma voz.

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