Helena abriu uma gaveta e retirou alguns impressos, pousando-os diante dela com cuidado.
— A questão agora é outra: está preparada para enfrentar isto? Porque ele não vai aceitar sem reagir.
Ana imaginou, com uma nitidez dolorosa, o rosto de João no momento em que recebesse a notificação do tribunal. Viu-lhe os olhos duros, ouviu os gritos, as acusações, as tentativas de a esmagar como sempre fizera. Por um instante, o medo voltou a apertar-lhe o peito. Mas logo lhe veio à memória a conversa daquela manhã, a humilhação por causa do queijo fresco e das bolachas, a forma como, durante trinta anos, tivera de pedir dinheiro para comprar o indispensável dentro da própria casa.
Respirou fundo.
— Estou preparada — respondeu.
Uma semana depois, João regressou da viagem de trabalho bronzeado, bem-disposto, satisfeito consigo mesmo. Ao jantar, falou sem parar sobre o sucesso do projeto, sobre os elogios da direção e sobre o prémio que lhe tinham prometido. Ana ouvia-o em silêncio, mexendo a comida no prato, enquanto pensava na pasta com os documentos escondida no roupeiro, entre os lençóis.
— Já agora — disse ele, recostando-se na cadeira —, amanhã tenho de passar pelo banco. Vou tratar de renovar a aplicação. Estás em casa de manhã?
— Estou — respondeu Ana, quase num murmúrio.
Não lhe disse que, nessa mesma manhã, iria entregar no tribunal o pedido de divórcio e de partilha de bens. Dir-lhe-ia à noite, quando ele voltasse do banco e descobrisse que metade do dinheiro da conta ficara indisponível por ordem judicial.
Helena tinha-lhe explicado tudo: assim que a ação de partilha desse entrada, poderia ser decretada a retenção dos bens em disputa, para impedir movimentações suspeitas. João só perceberia quando tentasse mexer no dinheiro.
Nessa noite, Ana não conseguiu dormir. Ficou deitada, de olhos abertos, a imaginar cada minuto do dia seguinte. Sentia medo? Sim, um medo frio, quase físico. Mas, pela primeira vez em muitos anos, havia também outra coisa dentro dela: a sensação estranha e poderosa de que a sua vida voltava a pertencer-lhe.
De manhã, ao despedir-se do marido, entregou-lhe a pasta como fazia todos os dias e deu-lhe um beijo rápido na face. João nem reparou que ela tinha as mãos a tremer.
O edifício do tribunal recebeu-a com o frio das escadas de pedra e o eco seco dos corredores. Ana caminhou até ao balcão da secretaria, segurando a pasta contra o peito.
— Venho entregar uma ação — disse.
E surpreendeu-se com a serenidade da própria voz.
Uma hora depois, saiu para a rua como se já não fosse a mesma mulher que ali entrara. O processo estava iniciado. Já não havia caminho de volta.
O telefone tocou por volta das três da tarde. Era João.
— Mas que raio é isto?! — berrou ele, mal ela atendeu. — O que é que tu fizeste? No banco dizem-me que a conta está bloqueada! Que história é essa de divórcio?
Ana fechou os olhos por um segundo.
— Entreguei o pedido em tribunal — respondeu. — Quero a partilha dos bens.
Do outro lado, caiu um silêncio pesado. Depois, a voz dele voltou, mais baixa, mas carregada de ameaça:
— Tu perdeste o juízo? Daqui a meia hora estou em casa. E vais retirar essa porcaria, estás a ouvir?
— Não vou retirar nada.
Desligou antes que ele continuasse. Depois ficou sentada, imóvel, preparando-se para a conversa mais difícil da sua vida.
João entrou em casa como uma tempestade. Abriu a porta com violência, atravessou o corredor aos gritos, gesticulando, exigindo explicações. Maria, encolhida a um canto, lamentava-se em voz alta e acusava a nora de ingratidão, como se Ana tivesse cometido uma traição imperdoável. Ana permaneceu sentada à mesa da cozinha, calada, com as mãos pousadas uma sobre a outra.
— Tu destruíste-me a vida! — gritava João. — Trinta anos a trabalhar como um desgraçado por tua causa! A casa, o carro, a casa de férias… tudo foi para ti! E tu pagas-me como uma víbora!
Ana levantou os olhos para ele.
— Tudo isso foi para ti — disse, sem alterar o tom. — Eu, nesta casa, fui criada. Não tive dinheiro meu, não tive decisões minhas, não tive voz.
— Tu não percebes nada de dinheiro! — Ele levou as mãos à cabeça, furioso. — Uma mulher deve tratar da casa, não meter-se em contas e bancos!
— Então um homem deve sustentar a mulher, não obrigá-la a pedir dinheiro para comprar pão.
A frase caiu na cozinha como uma bofetada. João ficou sem resposta. Durante alguns segundos, apenas se ouviu a respiração dele, pesada, descontrolada. Depois virou-se bruscamente, atravessou o corredor e fechou-se no quarto. A porta bateu com estrondo.
