— Abre já, estás a ouvir? Ou chamo os bombeiros e arrombam-me essa fechadura sem dó nem piedade! — gritei, desferindo um murro na porta forrada a imitação de pele.
A chave rodou apenas até meio e ficou presa, com um som seco. Do lado de dentro ouviu-se o estalido de um ferrolho — um ferrolho que eu, por hábito, nunca trancava.
A porta começou a abrir-se devagar. No umbral apareceu a minha irmã mais nova, Mariana. Trazia pelos ombros o meu robe preferido, verde-esmeralda, de seda natural, comprado com o prémio que eu recebera. A bainha arrastava pelo chão sujo.
— Ai, Ana, para quê esse escândalo todo? — bocejou Mariana, segurando com a mão a barriga já arredondada. — Ainda estávamos a dormir, sabes?
Entrei, pisando sem querer uns ténis alheios, deformados e com as pontas gastas, largados no meio do corredor. Sobre a cómoda do hall acumulavam-se folhetos de publicidade, chaves imundas e um maço de cigarros vazio.

No vaso do meu ficus, que eu estimava como se fosse uma relíquia, estava espetada uma beata. Uma linha cinzenta de cinza sujava as folhas verdes, sempre tão bem cuidadas. Cravei as unhas nas palmas das mãos até doer.
— Mariana, tiras já esse robe, juntas as tuas tralhas e sais daqui. Têm exatamente dez minutos.
— Olha a doutora das leis — veio da cozinha uma voz arrastada e insolente.
João, o marido dela, surgiu no vão da porta. Usava apenas uns boxers de malha cinzentos e segurava uma garrafa de cerveja embaciada. No ombro via-se-lhe um arranhão recente.
— Qual é a berraria? — perguntou, sorrindo de lado, antes de beber diretamente pelo gargalo. — Nós estamos aqui de forma perfeitamente legal. Já ouviste falar em lei? Devias, não é a tua especialidade?
— João, cala essa boca antes que eu te deixe sem dentes — avancei até ficar a um passo dele. — Fora do meu apartamento. Agora.
— Não podes fazer isso, Ana — choramingou Mariana, fazendo beicinho e escondendo-se atrás das costas largas do marido. — O João disse que o teu T3 é enorme, que vives aqui sozinha como uma velha amarga, e eu estou quase a ter o bebé. Temos direito a condições decentes, pelo menos em família.
— Temos um papelinho, patroa — acrescentou João, abanando a garrafa. — Portanto respira fundo. Vamos ficar por cá bastante tempo.
Fui para o meu quarto e tranquei a porta mesmo à frente do nariz de João, que começou logo a praguejar do outro lado. O coração batia-me tão alto que parecia ter subido para a garganta.
Abri o portátil com as mãos frias, entrei na área pessoal do portal ePortugal e esperei. A página demorou uma eternidade a carregar, como se cada segundo fosse feito para me arrancar mais um pedaço de calma. Por fim, o ecrã piscou.
Na secção “A minha habitação” destacava-se uma notificação recente do Ministério da Administração Interna. A comunicação dizia respeito precisamente ao meu T3.
