“Abre já, estás a ouvir? Ou chamo os bombeiros e arrombam-me essa fechadura sem dó nem piedade!” gritei, batendo na porta e exigindo que Mariana e o marido saíssem do meu apartamento

Histórias
Arrogância intolerável, invasão cruel e desprezível.

No meu apartamento constavam agora duas pessoas com registo temporário de residência: João e Mariana. Prazo: cinco anos. Fundamento: contrato de comodato para utilização gratuita do imóvel. E, no campo reservado ao “Proprietário”, lá estava uma imitação grosseira da minha assinatura.

Deixei-me cair contra as costas da cadeira. Os dedos ficaram-me gelados.

Por deformação profissional, percebi a jogada em segundos. Sendo advogada na área imobiliária, não precisei de muito para montar o puzzle: Mariana estava grávida; assim que a criança nascesse, seria associada à residência da mãe sem que fosse necessária nova autorização minha. E retirar um bebé daquela morada, deixando-o sem alternativa formal, seria uma batalha interminável com tribunais e com a proteção de menores. Eu ficaria atolada em processos durante anos, talvez até a criança atingir a maioridade, enquanto João se instalava na minha cozinha a beber cerveja como se a casa fosse dele.

Olhei para o porta-chaves vazio junto à entrada. O duplicado tinha desaparecido um mês antes, no dia em que Mariana aparecera com aquele ar inocente, dizendo que vinha “só tomar um chá”.

Uma mágoa antiga, daquelas que parecem cauterizadas mas nunca saram, voltou a arder cá dentro. Eu tinha dezoito anos quando os meus pais venderam às escondidas a casa de madeira da minha avó, já falecida, nos arredores de Sintra. Era o único lugar onde eu me lembrava de ter sido verdadeiramente feliz. O dinheiro servira para pagar o casamento espalhafatoso de Mariana, num clube de campo, com limusina, música ao vivo e convidados até de madrugada. Seis meses depois, o casamento acabou. A casa da minha infância, essa, desapareceu para sempre. Na altura, os meus pais limitaram-se a encolher os ombros: “A Marianinha precisava mais, coitadinha, é tão frágil.”

Naquela época, eu fiquei sem chão. Agora tinha trinta e três anos. E atrás de mim havia centenas de processos ganhos.

Fechei o portátil e inspirei fundo.

Eles achavam que eu ia correr para tribunal, choramingar e tentar anular o contrato? Não. Um processo cível arrasta-se. Eu entraria por outro lado, com cartas capazes de lhes destruir o jogo de uma vez por todas.

Na manhã seguinte, saí sem fazer barulho.

Mariana dormia profundamente no meu sofá. João ressonava na cozinha, com a face por barbear colada à mesa pegajosa, ao lado de uma lata vazia de Super Bock. Que pensassem que tinham vencido. Eu precisava era de ganhar tempo.

A primeira paragem foi no gabinete de um perito meu conhecido. Paguei cento e cinquenta euros pela urgência e, ao fim da tarde, já tinha sobre a secretária um parecer prévio de análise grafológica, formal e assinado. O carimbo azul não deixava margem para dúvidas: a assinatura aposta no contrato não era minha. Fora traçada por outra pessoa. Pelo peso irregular e excessivo da caneta, muito provavelmente por uma mão masculina.

Nesse mesmo dia, entreguei participação na esquadra da PSP. Falsificação de documento e declaração fraudulenta de residência. O tenente recebeu o processo com a lentidão cansada de quem ainda não fazia ideia do que eu trazia nas mãos.

Casa da Encarnação