— Chega de brincares às diretoras, Ana! — disparou Maria, erguendo o meu portátil de trabalho acima da mesa. — Na tua idade, uma mulher já devia estar em casa, não a dar ordens a homens.
— Pouse isso no lugar — respondi.
— Agora já é tarde — disse Pedro.
O computador bateu primeiro na quina da mesa da sala de reuniões e, logo depois, caiu no chão. A carcaça abriu uma fenda. O ecrã cintilou por um segundo e apagou-se.
Maria estava no centro da sala fechada da CedroSoft, Lda., de casaco claro, com um cartão de visitante pendurado ao pescoço por uma fita. Tinha setenta e quatro anos. Mesmo dentro de um escritório que não lhe pertencia, comportava-se como se tivesse vindo inspecionar a própria casa.

Pedro, meu marido e meu adjunto, nem sequer se mexeu.
Limitou-se a endireitar o punho da camisa e olhou para mim com a expressão de quem esperava que eu começasse a justificar-me.
— A mãe partiu-te esse portátil idiota — comentou ele. — Já não vale a pena chorar.
Baixei os olhos para a tampa amolgada. Para a dobradiça rebentada. Para o autocolante do departamento de segurança informática, agora meio descolado, torto, a sair pela lateral.
Naquele equipamento estavam ficheiros de apoio a pedidos de patente. Uma ramificação reservada do código-fonte. Descrições técnicas de módulos que preparávamos para apresentar a investidores.
Chaves sem segundo fator de autenticação, ali, não existiam. Cópias de segurança também havia. Eu não era uma miúda com a única pen na mala.
Mas nada disso anulava o essencial.
Diante de mim, tinham acabado de danificar um bem da empresa.
E não acontecera durante uma discussão em casa. Nem no átrio do prédio. Nem por acidente.
Fora numa sala de reuniões. Sob câmaras. Com o sistema de gravação ligado. Na presença do meu adjunto, que trouxera uma pessoa de fora para uma zona de acesso condicionado.
— Pedro — perguntei, com a voz igual —, quem autorizou a entrada da tua mãe como visitante?
Ele encolheu um ombro.
— Fui eu. E depois?
— Quem a trouxe até aqui sem pedido formal à segurança?
— Eu trouxe-a. Ana, não comeces com os teus regulamentos. A mãe queria conversar.
— Conversou.
Maria soltou um riso seco.
— Finalmente alguém te mostrou que não és nenhuma rainha. O Pedro carrega esta empresa às costas há anos. Tu ficas sentada na tua cadeira, a fazer de chefe.
Assenti uma única vez.
— Percebo.
Aquela palavra curta mudou tudo.
Pedro ainda não o entendeu naquele instante. Estava habituado a ver-me discutir. A explicar. A recordar-lhe que eu fundara a empresa antes de ele entrar. Que os primeiros contratos tinham sido assinados por mim. Que o primeiro servidor ficara debaixo da minha secretária. Que, durante muito tempo, eu pagara os salários da equipa antes de pagar o meu.
Habituara-se a que eu sustentasse a casa, o escritório, os relatórios, os clientes e até o seu orgulho ferido.
Naquele momento, deixei de o sustentar.
Peguei no telefone interno pousado sobre a mesa.
— Chamem à sala de reuniões a segurança, a assessoria jurídica e o Miguel. Com urgência. Sim, agora. E preparem uma reunião extraordinária do conselho de administração para as onze e quarenta. Ordem de trabalhos: dano em património corporativo, bloqueio dos acessos do diretor-adjunto e cancelamento do pacote de opções atribuído a Pedro.
A serenidade de Pedro quebrou-se quando ouviu a palavra “opções”.
— Que disparate é esse?
— Estou a formular a ordem de trabalhos.
— Ana, estás a agir de cabeça quente.
— Não.
E era verdade. Não havia calor nenhum dentro de mim. Só uma linha limpa de procedimentos.
Maria ergueu o queixo.
— Que conselho, que nada? Sou mãe do teu marido. Tenho o direito de dizer o que penso.
— Dizer, tem. Destruir equipamento da empresa, não.
— Equipamento… Que exagero. É só uma máquina.
— É equipamento corporativo sujeito a acesso restrito.
— Estás a ouvir, Pedro? — virou-se ela para o filho. — Em casa também fala assim? Como se toda a gente fosse empregada dela?
Pedro deu um passo na minha direção.
— Ana, acaba já com este circo. Agora.
Reparei então na mão direita dele. Entre os dedos, segurava o meu antigo cartão de acesso de gestora de projeto. Preto. O mesmo que desaparecera uma semana antes.
Na altura, convenci-me de que o teria deixado no carro.
— Entrega-me o cartão.
— Que cartão?
— O meu cartão antigo. Está na tua mão.
Ele apertou o plástico com mais força.
— Isso não interessa.
— Agora interessa tudo.
A porta abriu-se. Entrou Bruno, da segurança. Atrás dele vinha Catarina, a jurista da sociedade, com um tablet e uma pasta fina. Em seguida apareceu Miguel, diretor técnico. O olhar dele foi imediatamente para o chão.
— Este era o portátil de trabalho da Ana? — perguntou.
— Era — respondi. — Pede já aos administradores o bloqueio de todas as sessões, a reemissão dos tokens e uma auditoria aos acessos dos últimos sete dias.
— Trato disso já.
Miguel tirou o telemóvel do bolso e saiu para o corredor sem fazer uma única pergunta desnecessária.
Pedro virou-se bruscamente para mim.
— Vais fazer-me passar por ladrão à frente da tua gente?
— Estou a registar um incidente.
— Sou teu marido.
— E és meu adjunto. Nesta sala, isso pesa mais.
A frase atingiu-o com mais força do que qualquer grito. Em casa, ainda podia representar o papel de cônjuge ofendido. No escritório, restavam cargos, regras internas e assinaturas.
Maria agarrou na mala que deixara na cadeira ao lado.
— Pedro, vamos embora. Que esta senhora importante trate sozinha das suas sucatas.
— Por enquanto, não vão sair — interveio Catarina. — Precisamos de recolher as vossas explicações.
A minha sogra rodou sobre os calcanhares.
— E a senhora quem é?
— Jurista da sociedade.
— Estão todos pela mão dela, é isso.
Catarina desbloqueou o tablet.
— Bruno, por favor, garanta a presença de testemunhas e preserve a gravação das câmaras.
O segurança colocou-se junto à porta. Sem agressividade. Apenas ficou ali.
Pedro olhou para mim já sem a confiança de antes.
— Ana, estás a passar dos limites.
— Não. Estou a repô-los.
Às onze e quarenta, reunimo-nos na sala grande. Não naquela onde o portátil ficara no chão. Lá dentro, um técnico já trabalhava: fotografava os danos, confirmava o número de inventário e guardava pequenas peças da carcaça num saco transparente.
Nos nossos estatutos, o conselho de administração existia como órgão separado, previsto para investidores, para o plano de opções e para decisões que exigiam autorização especial.
