— Eu concordei que a tua irmã ficasse cá em casa enquanto estudava. Mas isso acabou há seis meses, João. Portanto, já vai sendo tempo de ela arrumar as coisas e desaparecer daqui. Não tenho de continuar a sustentar uma inútil que vive à nossa custa!
A voz de Ana saiu controlada, lisa, quase sem cor. Ainda assim, o modo como pousou o prato no lava-loiça, mesmo ao lado da loiça gordurosa e manchada de molho que Maria deixara para trás, dizia mais do que qualquer grito. O estalo seco da porcelana contra o metal fez João estremecer. Só então levantou os olhos do jantar, devagar. Havia dias que fingia não reparar na tensão que crescia dentro daquela casa, mas aquele som atravessou a couraça confortável da sua indiferença.
— O que é que se passa agora? — perguntou ele, com dificuldade em afastar a atenção do bife apetitoso que tinha no prato.
Não havia ternura na voz dele. Nem preocupação, nem verdadeira curiosidade. Apenas uma irritação cansada, como se Ana o estivesse a incomodar outra vez com uma insignificância qualquer.
— “O que é que se passa”? — Ana virou-se para ele. Encostou a anca à bancada da cozinha e cruzou os braços. O olhar, duro e cortante, fixou-se no marido. — Tu achas mesmo que isto é normal, João? A tua irmã, licenciada e adulta, jantou, largou a porcaria toda como se estivesse num restaurante e foi a correr para a discoteca.

Fez uma pausa breve, mas a calma dela tornava cada palavra mais pesada.
— Ainda agora recolhi da casa de banho uma montanha de toalhas molhadas. Depois tive de limpar a poça no chão, onde ela espalhou base como se estivesse a pintar uma parede. E agora também queres que eu lave a loiça dela, porque amanhã de manhã “sua excelência” não há de querer beber café ao lado de um lava-loiça sujo. Isto parece-te aceitável?
João engoliu a comida, pousou o garfo e soltou um suspiro fundo, quase teatral, como se fosse ele a vítima daquela situação. A conversa desagradava-lhe. Tudo o que queria, depois de um dia de trabalho, era sossego, paz, um canto silencioso em casa. Não lhe apetecia desempenhar o papel de juiz numa guerra entre mulheres.
— Ana, não comeces outra vez. Ela está a tentar. Anda à procura de emprego. Está a tentar perceber o que quer da vida. Não é fácil para ela. Precisa de tempo para se adaptar à vida adulta.
Aquelas frases eram tão previsíveis, tão gastas, que já nem conseguiam ferir Ana. Ela soltou apenas uma gargalhada curta, sem alegria nenhuma. Era o riso de quem já ouvira o mesmo disco cem vezes e conhecia de cor cada risco na superfície.
— Difícil é para mim, João. Difícil é chegar todos os dias a casa e encontrar o apartamento com ar de cruzamento entre um hostel barato e um salão de beleza. Sou eu que limpo, cozinho e lavo roupa por três, enquanto a tua irmã “se descobre” entre discotecas e centros comerciais. Ela não procura trabalho. Nem sequer se dá ao trabalho de fingir que procura. Limitou-se a instalar-se às nossas costas e a aproveitar-se da tua falta de firmeza.
— Agora estás a exagerar! — João ergueu a voz, apertando os lábios, ofendido. — Ela é minha irmã. Não posso simplesmente pô-la na rua.
— Pois eu posso — respondeu Ana, sem hesitar.
A serenidade dela era quase assustadora. Não gritava, não tremia, não fazia uma cena. Proferia uma sentença.
— Tem uma semana. Sete dias para encontrar outro sítio onde possa continuar essa grande “procura de si mesma”. Um apartamento, um quarto, a casa de uma amiga, tanto me faz. Se daqui a sete dias ela ainda estiver aqui, quem sai sou eu. Já fui ver um lugar. Depois decides qual de nós duas queres continuar a sustentar: ela ou eu.
Na manhã que se seguiu ao ultimato, não houve discussão. Houve silêncio. Um silêncio espesso, pegajoso, que enchia a casa e tornava o ar pesado.
Como sempre, Ana levantou-se às sete. Preparou café suficiente para duas chávenas, torrou duas fatias de pão e pôs na mesa um prato com omelete — apenas uma dose. Quando João entrou na cozinha, amarrotado e de mau humor, a parte dele já estava à espera.
Sentou-se sem dizer palavra, evitando cruzar o olhar com a mulher. Alimentava ainda a esperança de que, durante a noite, Ana tivesse arrefecido a cabeça; talvez tudo não passasse de uma explosão emocional, de uma ameaça dita no calor do momento. Mas a mesa, impecavelmente arrumada e posta com rigor para duas pessoas apenas, tirou-lhe a última ilusão.
