“Não tenho de continuar a sustentar uma inútil que vive à nossa custa!” disse Ana com voz controlada, pousando o prato no lava-loiça num estalo seco que fez João estremecer

Histórias
Indiferença cômoda: atitude egoísta e profundamente vergonhosa.

Maria só apareceu cerca de uma hora depois, bocejando e espreguiçando-se, de calções curtos de seda e top, como se a casa inteira lhe pertencesse. Por força do hábito, dirigiu-se logo à máquina do café; encontrou-a, porém, limpa, vazia e silenciosa.

— Oh, acabou-se o café? — lançou para o ar, convencida de que Ana se apressaria a resolver aquela pequena “emergência”.

Ana, que nesse momento passava por água a própria chávena, nem sequer se virou.

— Não faço ideia. Eu já bebi o meu — respondeu, num tom neutro, quase impessoal, como se falasse com uma desconhecida no meio da rua.

Maria ficou imóvel por um segundo. Depois soltou um sopro irritado e fechou a porta do frigorífico com força suficiente para fazer tremer as prateleiras. Tirou de lá um iogurte, comeu-o em pé, diretamente do copo, à colher, e deixou tudo abandonado em cima da bancada: o copo vazio, a colher suja, o rasto pegajoso. Era o primeiro disparo daquela guerra doméstica. Ana não acusou o toque. Lavou apenas o que era seu, secou o lava-loiça, passou um pano pela bancada que usara e retirou-se para o quarto, a fim de se preparar para o trabalho. O copo do iogurte permaneceu ali, pequeno monumento viscoso à falta de educação alheia.

Os dias começaram a correr assim. O apartamento dividiu-se em dois territórios separados por fronteiras invisíveis, mas perfeitamente sentidas. Ana cozinhava o jantar para duas pessoas. Comprava alimentos para duas pessoas. Na máquina de lavar, entravam apenas as roupas dela e de João. A montanha crescente de peças de Maria no cesto da roupa suja não lhe provocava a menor reação. Limpava a sala, mas deixava deliberadamente intacto o canto do sofá onde Maria acumulava canecas, guardanapos usados e papéis de chocolate. A casa de banho transformou-se no principal campo de batalha. Ana deixava o espelho e o lavatório a brilhar, mas ignorava, com precisão cirúrgica, as tampas soltas, os tubos abertos e os cabelos que a cunhada espalhava atrás de si.

Quando percebeu que a provocação silenciosa não produzia o efeito desejado, Maria passou ao ataque aberto. Falava ao telefone em voz alta, comentando com as amigas que “certas pessoas” enlouqueciam de ciúme e de frustração por terem uma vida vazia. Começou a trazer gente barulhenta para casa justamente quando Ana e João estavam presentes, enchendo o espaço antes tranquilo de gargalhadas estranhas, perfumes agressivos e vozes invasivas. Já nem deixava a loiça suja no lava-loiça; pousava-a diretamente sobre a mesa, ao lado do lugar de Ana, como uma declaração de desafio.

João via-se esmagado entre duas frentes. Queria desempenhar o papel de conciliador, mas as suas tentativas eram frouxas, mal calculadas e sempre tardias.

— Ana, não podias fazer um bocadinho mais de sopa? Eu fico numa posição desagradável perante ela… — arriscou ao terceiro dia, com uma doçura forçada na voz.

— Se te sentes desagradado, cozinha tu. As panelas continuam no mesmo sítio — devolveu a mulher, sem levantar os olhos do livro.

Quando tentou falar com a irmã, a conversa descambou imediatamente para a chantagem emocional.

— Joãozinho, eu vejo muito bem a maneira como ela olha para mim! Ela detesta-me! Estou a mais nesta casa! Se tu também pensas assim, faço já a mala e vou para a estação!

E ele cedia. Começou a lavar às escondidas a loiça que Maria deixava espalhada, sempre que Ana não estava por perto. Encomendava pizzas para todos, na esperança de evitar aqueles jantares constrangedores a dois. Tentava preencher o silêncio com piadas sem graça e histórias do trabalho, mas esbarrava num muro gelado do lado da mulher e num meio sorriso insolente, quase trocista, do lado da irmã. Não resolvia nada. Limitava-se a empurrar o problema para diante, tornando o ar da casa cada vez mais pesado, tóxico e irrespirável. A contagem decrescente que Ana pusera em marcha continuava a avançar; a cada dia, o seu tique-taque parecia soar mais alto.

No sexto dia, sábado à noite, João fez a sua última tentativa, já marcada pelo desespero. Chegou carregado com dois sacos pesados de um supermercado caro. Lá dentro vinham bifes marmoreados, espargos, uma garrafa de vinho — exatamente aquelas coisas que, noutros tempos, compravam para as noites especiais, íntimas, quase festivas. Era a sua bandeira branca, uma oferta de paz desajeitada. Encontrou as duas mulheres na sala: Ana entrincheirada atrás de um livro, Maria a pintar as unhas, enquanto o cheiro ácido do verniz tomava conta do ambiente.

— Então, tive uma ideia — começou João, erguendo os sacos como quem tenta anunciar uma trégua.

Casa da Encarnação