“Não tenho de continuar a sustentar uma inútil que vive à nossa custa!” disse Ana com voz controlada, pousando o prato no lava-loiça num estalo seco que fez João estremecer

Histórias
Indiferença cômoda: atitude egoísta e profundamente vergonhosa.

— …mimar-nos um bocadinho! — anunciou, com uma animação exagerada, enquanto despejava as compras sobre a mesa da cozinha. — Fazemos um jantar de família em condições, sentamo-nos todos, conversamos com calma.

Ana ergueu os olhos por cima do livro, sem dizer palavra. Percebeu de imediato. Aquilo não era uma tentativa sincera de reconciliação; era a preparação de uma espécie de julgamento, no qual ela seria a acusada e a boa comida serviria apenas para a amolecer antes da sentença. Maria, pelo contrário, iluminou-se. Viu ali a sua oportunidade. O seu palco.

— Oh, Joãozinho, que querido! Há tanto tempo que não jantávamos assim, todos juntos! — cantarolou ela, lançando a Ana um olhar rápido, vitorioso.

O jantar decorreu debaixo de um silêncio pesado. João andava de um lado para o outro, enchia copos de vinho, cortava a carne, tentava lançar uma ou outra piada. Mas as graças caíam no vazio e desfaziam-se contra as expressões fechadas das duas mulheres. Por fim, incapaz de suportar mais aquela tensão, pigarreou e avançou.

— Meninas, porque é que estamos a portar-nos desta maneira? Somos família. Temos de conseguir chegar a algum entendimento. Ana, Maria… vamos encontrar um meio-termo.

Maria pousou logo o garfo, como se tivesse esperado por aquela deixa, e o rosto dela assumiu uma expressão trágica. A cena era sua.

— Eu nem sei o que há para discutir, João! Eu disse-te logo desde o princípio: eu estou a mais para ela! Sou um incómodo, uma pedra no sapato! Ela quer-te só para ela, quer que não tenhas mais ninguém além dela! Eu sou tua irmã, sou do teu sangue, e ela… ela quer simplesmente pôr-me na rua!

Falava alto, com gestos teatrais, representando para o seu único público: o irmão. Ana nem sequer se dignou a olhar para ela. Limpou devagar os lábios com o guardanapo e só então virou a cabeça na direção do marido. A voz saiu baixa, controlada, mas naquela cozinha imóvel soou mais forte do que qualquer grito.

— João, eu não vou discutir nada com ela. Esta conversa é entre nós os dois. Foste tu que me pediste para esperar, para lhe dar tempo. Passou meio ano. Durante estes seis meses, ela foi a quatro entrevistas de emprego e chegou atrasada a duas. Nunca limpou nada fora do quarto dela. Nunca trouxe para casa sequer um pão. No mês passado, no cartão de crédito que lhe deste para “pequenas despesas”, desapareceram cento e cinquenta euros em táxis e cafés. E nem vou falar do secador partido nem do tapete da casa de banho encharcado em perfumes e cremes. Isto são factos. O resto é conversa.

Cada frase entrava como um prego, cravado com precisão no caixão das frágeis esperanças de paz que João ainda alimentava. Ana não insultava, não levantava acusações vagas, não dramatizava. Limitava-se a enumerar factos. E aquela verdade fria, concreta, impossível de rebater, assustava João muito mais do que qualquer ataque de histeria. Olhou para a irmã: tinha o rosto deformado pelo ressentimento. Olhou para a mulher: estava serena, fechada, impenetrável. Sentiu-se encurralado.

E escolheu. Fez a escolha típica de um homem fraco, habituado a procurar sempre a saída menos dolorosa. Era mais simples ceder à manipulação da irmã do que enfrentar a realidade de frente.

— Mas porque é que tens de ser assim… tão dura? — acabou por dizer, espremendo as palavras num tom de censura. — Não podias ter sido um bocadinho mais… humana com ela? Ajudá-la, compreendê-la? Tu vês que ela está a passar por uma fase difícil! Porque é que não consegues ceder nem um pouco? Transformaste a nossa casa num campo de batalha!…

Era exatamente a frase que Ana precisava de ouvir. Ele não se limitara a defender a irmã. Tinha-a culpado a ela. Nesse instante, Ana compreendeu que aquela semana inteira tinha sido inútil. A decisão, afinal, já fora tomada por ele.

A manhã de domingo chegou envolta numa calma enganadora. Era o sétimo dia, o último. Maria, convencida da sua vitória absoluta e sem condições, demorou-se ostensivamente na casa de banho, chapinhando e fazendo barulho como quem já se sentia dona do espaço. Depois apareceu na cozinha a cantarolar, murmurando uma batida de música de discoteca, com o ar de quem acabara de assumir oficialmente o comando da casa. João estava sentado à mesa.

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