Ana comprou aquele apartamento praticamente com o próprio esforço. Não era algo que ela andasse a contabilizar de propósito; as coisas simplesmente tinham acontecido assim. Na altura, João acabara de mudar de emprego, recebia pouco, e a maior fatia da entrada acabou por sair do bolso dela. Ana pôs 7.300 euros das suas poupanças — dinheiro juntado ao longo de quatro anos, enquanto trabalhava como contabilista sénior numa empresa de construção. João contribuiu com 800 euros. O crédito ficou em nome dos dois, mas as prestações, de cerca de 210 euros por mês, eram pagas quase sempre por ela, porque o salário de Ana era regular, ao passo que havia meses em que o marido mal conseguia cobrir as despesas de supermercado. No papel, a casa pertencia aos dois. Mas, no fundo, Ana sempre soube: aquele apartamento era dela. Não por egoísmo. Apenas porque era a verdade.
Maria entrou na vida deles logo a seguir ao casamento. Ou melhor, nunca tinha estado verdadeiramente fora dela; antes, porém, isso dizia respeito apenas a João. Depois da boda, passou também a dizer respeito a Ana. A sogra ficou com uma cópia das chaves desde o início. João entregou-lhas ainda antes de se mudarem, “para qualquer eventualidade”, explicou ele. Nunca se sabe. Podia rebentar um cano enquanto eles estivessem no trabalho.
— A minha mãe mora aqui perto — dizia João. — São dez minutos a pé. Dá jeito.
Naquele momento, Ana não respondeu. Nos primeiros tempos, aliás, calava-se muitas vezes. Observava, tentava adaptar-se, esforçava-se por não criar conflitos onde talvez não existisse nenhum. Talvez Maria fosse apenas assim: inquieta, prestável, incapaz de largar o filho de vez. Há pessoas assim. Ana decidiu aguentar.
As aparições de Maria não obedeciam a horário nenhum. Às vezes surgia às sete e meia da manhã, quando Ana ainda nem tinha lavado a cara. Noutras ocasiões, aparecia a meio do dia, precisamente quando Ana estava a trabalhar a partir de casa. Havia também tardes em que chegava perto do anoitecer, sem telefonema, sem aviso, sem uma mensagem sequer. Ouvia-se apenas a fechadura a rodar e, logo depois, a voz da sogra no corredor:

— Sou eu, não se assustem.
Ana assustava-se sempre.
Maria nunca entrava apenas para se sentar um pouco, beber chá ou conversar. Cada visita dela parecia uma inspeção. Percorria a casa com método, abria os armários da cozinha, espreitava o frigorífico, mudava os tachos de lugar porque, na sua opinião, ficavam melhor de outra maneira. Uma vez deitou fora meio quilo de trigo-sarraceno, convencida de que já estava velho. Ana tinha-o comprado três dias antes. Noutra ocasião, transferiu todas as toalhas da casa de banho para outro armário, simplesmente porque achava que ali ficavam “como devia ser”.
Depois de cada uma dessas rondas, Maria telefonava a João. Ana não ouvia as conversas completas, mas bastava-lhe ver a cara com que o marido entrava em casa para perceber o teor do relatório.
— A minha mãe disse que não limpaste o fogão depois de cozinhar.
— A minha mãe disse que a casa de banho voltou a ficar cheia de coisas espalhadas.
— A minha mãe diz que tu não sabes organizar uma casa.
Ana olhava para ele e perguntava-se, em silêncio, se João se ouvia a si próprio. Será que tinha noção do que estava a dizer?
— João — disse-lhe ela um dia, com toda a calma que conseguiu reunir —, eu não quero que a tua mãe entre aqui sem avisar. É desconfortável. É invasivo. Eu preciso de me sentir segura dentro da minha própria casa.
João suspirou, com a expressão de quem explica uma evidência a uma criança.
— Ana, é a minha mãe. Ela não faz por mal. Só quer ajudar. Tem um pouco de paciência, ela há de acalmar.
Mas Maria não acalmou.
Passou-se um ano. Depois outro. As visitas não se tornaram menos frequentes. As críticas também não desapareceram. Ana aprendeu a manter uma aparência serena: não respondia torto, não levantava a voz, não se deixava arrastar para discussões. Por dentro, no entanto, alguma coisa ia-se deslocando devagar. Todas as manhãs, ao abrir os olhos, prendia a respiração por um segundo, pensando se naquele dia a sogra apareceria ou não. E, a cada regresso a casa, a mesma tensão voltava a apertar-lhe o peito.
