Junto à porta, antes de meter a chave, abrandava sempre, quase sem dar por isso: estaria tudo como deixara ou alguém teria voltado a entrar durante a sua ausência?
A casa que devia ser o seu refúgio deixou, pouco a pouco, de ser um lugar onde Ana conseguisse respirar.
O ponto de rutura chegou numa terça-feira banal. Ana saiu mais tarde do trabalho e só chegou por volta das oito da noite. Mal entrou, percebeu que havia gente em casa. Na cozinha encontrou Maria e, sentado à mesa, um homem que não conhecia, talvez com trinta e cinco anos, uma mala pousada ao lado da cadeira. Comia tranquilamente, como se aquela cozinha também lhe pertencesse.
— Este é o Pedro, meu sobrinho — informou Maria, com a maior naturalidade do mundo. — Está sem sítio onde ficar por uns dias, por isso disse-lhe que podia ficar aqui convosco. Espaço não falta.
Ana ficou parada à entrada da cozinha. Pedro levantou os olhos, fez um aceno curto com a cabeça e voltou ao prato, sem qualquer embaraço.
— Maria — disse Ana, depois de engolir a primeira reação —, esta casa é nossa. A senhora não pode instalar aqui ninguém sem falar connosco antes.
A sogra fez um gesto largo com a mão, como se afastasse uma mosca.
— Ai, que exagero. São só dois ou três dias, não é nenhum drama. O João não se importa.
Mais tarde, Ana descobriu que João, de facto, não se importava. Ou melhor: não tinha sido informado com antecedência, mas, assim que soube, achou tudo perfeitamente aceitável.
— Ana, são poucos dias. O homem está numa situação complicada.
— João, nós não estávamos em casa. A tua mãe abriu a porta do nosso apartamento a uma pessoa que eu não conheço, sem sequer nos telefonar. Achas isto normal?
— O Pedro não é um estranho. É família.
— Para mim, é um estranho.
Como tantas outras vezes, a conversa acabou sem saída. Pedro permaneceu ali quatro dias. Durante esse tempo, Ana movia-se pela própria casa como quem está hospedada em casa alheia, medindo passos, evitando ruídos, sem se sentir dona de nada.
Quando ele finalmente foi embora, Ana pediu a Maria que lhe devolvesse as chaves. Não levantou a voz, não fez cena, não atirou acusações. Limitou-se a pedir, de forma clara.
Maria riu-se. Não foi um riso nervoso, nem envergonhado. Riu-se mesmo, como se Ana tivesse dito uma coisa absurda, quase cómica.
— Esta casa é do meu filho — declarou. — E eu entro aqui quando entender. As chaves ficam comigo.
— Maria, legalmente este apartamento pertence aos dois. A mim e ao João. E estou a pedir-lhe que…
— Tu não me vais pedir coisa nenhuma — cortou a sogra, sem agressividade aparente, mas com uma segurança tão fria que parecia dispensar qualquer explicação. — João, diz-lhe tu.
E João disse. Disse que a mãe tinha razão, que sempre fora assim, que Ana transformava gestos de preocupação em ofensas, que estava a reagir de forma demasiado sensível a uma coisa simples.
Depois dessa conversa, Ana deixou de tentar explicar. Percebeu que, naquela casa, as palavras já não tinham utilidade.
Então começou a esperar. Não por fraqueza. Por cálculo.
O desfecho veio numa quinta-feira igual a tantas outras. Ana tinha tirado o dia para descansar; o cansaço acumulado pesava-lhe no corpo, e tudo o que queria era ficar em silêncio, sem visitas, sem comentários, sem invasões. Perto do meio-dia, ouviu a fechadura rodar.
Estava na sala, com uma chávena de café numa mão e um livro pousado no colo. Ficou imóvel. Vieram passos pelo corredor, depois o som inconfundível de uma porta de armário a abrir no quarto.
Ana pousou a chávena e levantou-se.
Quando chegou à porta do quarto, viu Maria diante do roupeiro aberto. Tinha nas mãos um casaco de Ana: novo, azul-escuro, comprado duas semanas antes e usado apenas três vezes. A sogra examinava-o com atenção, virando o cabide de um lado para o outro, alisando a gola, como se já se imaginasse dentro dele.
— Maria — chamou Ana, da ombreira.
A sogra nem sequer se sobressaltou. Voltou-se devagar, perfeitamente tranquila.
— Ah, estás em casa. Não sabia. — Depois ergueu ligeiramente o casaco e acrescentou: — Olha, importas-te que eu leve este? Estou mesmo a precisar de um assim, e tu tens tanta roupa.
— Não toque nas minhas coisas.
Ana ficou a encará-la durante alguns segundos. Não disse mais nada. Apenas se virou e saiu do quarto.
Maria foi-se embora meia hora depois. O casaco continuou pendurado no roupeiro. Mas, dentro de Ana, alguma coisa se alinhou nesse dia de forma definitiva, nítida, sem hipótese de recuo.
