— Percebo — respondeu ela, com uma calma que nem a si própria pareceu forçada. — Vai ter com a tua mãe, João.
Ele franziu o sobrolho, como se não tivesse ouvido bem.
— O quê?
— Estou a falar a sério. Vai. Amanhã, quando estiveres mais calmo, vens buscar as tuas coisas. Deixo as chaves com a vizinha.
João ficou a encará-la, à espera de que Ana recuasse, se risse nervosamente ou dissesse que não era aquilo que queria dizer. Mas Ana não se riu. Também não desviou os olhos.
— Tu não fazes ideia do que estás a fazer — murmurou ele, já sem a arrogância de há pouco.
— Faço. Desta vez, faço mesmo.
No corredor, Maria não se conteve e declarou, com uma satisfação mal disfarçada, que sempre soubera que aquela mulher não tinha coração nem juízo. Pedro acrescentou qualquer coisa em tom de concordância, mais por hábito do que por convicção. João permaneceu ainda alguns segundos parado, como se o chão lhe tivesse fugido debaixo dos pés. Depois pegou no casaco e saiu.
Ana fechou a porta devagar. A fechadura nova estalou com um som seco, definitivo.
Foi até à cozinha, encheu a chaleira e sentou-se junto à janela enquanto a água aquecia. Lá fora, a noite já tinha caído por completo.
João apareceu para recolher os pertences dois dias depois. Veio de manhã, numa hora em que sabia que Ana estaria no trabalho. Levou roupa, o portátil e uma parte dos documentos. Deixou, sobre a mesa da cozinha, as chaves novas que ela tinha confiado à vizinha. Ao lado, havia um papel dobrado. Escrevera que precisava de tempo para pensar.
Ana leu a nota uma vez. Depois dobrou-a de novo e guardou-a numa gaveta.
Tempo também ela tinha. Só que já não o queria gastar em esperas sem fim. Pensava agora com uma lucidez estranha, sem pressa e sem lágrimas, como acontece quando uma decisão adiada durante demasiado tempo deixa finalmente de pesar.
Na semana seguinte, marcou consulta com uma advogada. Não foi por urgência nem por impulso; queria apenas saber, com rigor, o que podia esperar. A advogada era uma mulher de idade madura, postura direita, olhar atento e uma maneira de falar limpa, sem rodeios inúteis. Ana contou-lhe tudo. A mulher ouviu-a até ao fim, tomou algumas notas e perguntou se ela tinha comprovativos da entrada inicial e o histórico dos pagamentos do crédito habitação.
Tinha. Ana guardara tudo: extratos bancários, recibos, contratos, declarações do banco, comprovativos de transferências. Os quatro anos a tratar de contas numa empresa de construção não tinham passado em vão. Havia nela uma disciplina que, até então, muitos tinham confundido com mania de controlo.
A advogada analisou cada papel com cuidado. Quando terminou, pousou a caneta, ergueu os olhos e disse:
— A sua posição é bastante sólida.
A partir daí, o processo seguiu o seu curso. Devagar, como quase tudo o que depende de tribunais. Houve notificações, prazos, avaliações, requerimentos e, naturalmente, tentativas de João para resolver o assunto “a bem”, desde que esse bem coincidisse com as condições dele. Ana comparecia às reuniões quando era necessário, ouvia sem se exaltar e respondia apenas ao essencial.
Certa tarde, Maria telefonou-lhe para dizer que ela ainda se arrependeria, porque a vida dava muitas voltas e o destino não perdoava. Ana deixou-a terminar. Depois respondeu, com toda a educação, que tomaria nota daquela opinião, e despediu-se.
O tribunal analisou o caso durante três meses. Ana apresentou a documentação completa: o contrato de compra e venda, os comprovativos da origem das poupanças que eram só suas, e o registo dos pagamentos do empréstimo, onde se via claramente que a maior parte das prestações tinha saído da sua conta. João tentou contestar a divisão, mas o advogado dele teve de trabalhar com os factos disponíveis. E os factos eram escassos do lado dele.
A sentença reconheceu a Ana dois terços do apartamento. João ficou com direito a uma compensação em dinheiro proporcional ao que, de facto, tinha investido. Maria não recebeu nada. Nunca tivera qualquer direito sobre aquela casa. A diferença era que, até então, ninguém se dera ao trabalho de lho dizer com todas as letras.
Ana soube da decisão num dia normal de trabalho, durante a pausa para almoço. A mensagem da advogada apareceu no ecrã enquanto ela estava sentada numa pequena mesa da cantina. Leu-a, bloqueou o telemóvel e acabou a sopa antes que arrefecesse.
Um mês depois de tudo estar formalizado, comprou um vaso novo para o ficus. Era grande, de cerâmica, num tom terracota quente. Em casa, espalhou jornal no chão, retirou a planta com cuidado e mudou-a para a nova terra. Depois colocou-a no mesmo canto junto à janela.
Nos primeiros dias, o ficus ficou um pouco abatido, como acontece às plantas quando são transplantadas. As folhas pareceram perder firmeza, e Ana chegou a perguntar-se se o teria feito tarde demais. Mas, pouco a pouco, endireitou-se. Os caules ganharam força, as folhas recuperaram brilho, e a planta voltou a inclinar-se na direção da luz.
De manhã, com a chávena de café entre as mãos, Ana ficava muitas vezes a observá-la. E pensava que talvez aquele ficus precisasse de mais espaço havia muito tempo.
Só que ninguém o tinha mudado de vaso.
