Não havia mais nada a rever. Nenhuma conversa, por mais longa que fosse, iria alterar o que quer que fosse. João não mudaria. Maria também não pararia por iniciativa própria.
Na manhã seguinte, Ana telefonou a um serralheiro.
O homem apareceu perto da hora de almoço. Demorou cerca de quarenta minutos a trabalhar. Quando se foi embora, a porta tinha duas fechaduras novas, sólidas e caras. Ana ficou por instantes com as chaves na palma da mão: dois molhos, ambos seus. Depois guardou-os dentro da mala.
Nesse dia, João atrasou-se no trabalho. Maria chegou por volta das seis e meia da tarde; Ana viu-a pelo óculo da porta. A sogra não vinha sozinha. Ao lado dela estava Pedro, com a expressão de quem tinha sido chamado para reforçar a autoridade.
Ouviu-se o som de uma chave a entrar na fechadura. Seguiu-se uma pausa. Depois, uma nova tentativa. A voz de Maria surgiu do outro lado, primeiro confusa, logo a seguir mais aguda:
— Mas que raio… Pedro, olha lá para isto. A chave não entra.
Ana permaneceu no hall, imóvel, separada deles apenas pela porta.
— Ana! — Maria começou a bater com força. — Abre já esta porta! Que história é esta?
Ana abriu.
Maria estava no patamar, com manchas vermelhas nas faces e o molho de chaves apertado no punho.
— Mudaste as fechaduras?! Sem dizer nada a ninguém?! Mas quem é que tu pensas que és para fazer uma coisa destas?!
— Alguém que pôde fazê-lo — respondeu Ana.
Disse-o sem levantar a voz, sem veneno e sem prazer. Naquelas palavras não havia triunfo, nem raiva. Apenas a serenidade firme de quem tinha tomado uma decisão e já não tencionava recuar.
— Tu tens noção do que fizeste?! — Maria avançou um passo, mas Ana não se desviou. — Esta casa é do meu filho! Tu não tens esse direito!
— Esta casa também é minha. E, a partir de hoje, ninguém entra aqui sem a minha autorização.
Atrás de Maria, Pedro cruzou os braços sobre o peito.
— Abre a porta — ordenou, num tom que não admitia discussão. — Ou chamo a polícia.
— Chame — disse Ana. — E explique-lhes que veio tentar entrar numa casa que não é sua, com umas chaves que ninguém lhe entregou.
Aquilo travou Pedro. Ele olhou para Maria, e Maria olhou para ele. A sogra voltou então a falar, desta vez mais alto, claramente a contar com os vizinhos que, àquela hora, já deviam estar atrás das respetivas portas a escutar. Falou de apropriação da casa, de uma nora que queria afastar a família, de João nem sequer saber o que a mulher andava a fazer.
João apareceu vinte minutos depois, chamado à pressa pela mãe. Vinha afogueado, com o casaco meio aberto e a respiração curta.
— Ana, o que se passa aqui? — perguntou, alternando o olhar entre a mãe e a mulher. — Porque é que mudaste as fechaduras?
— Porque não encontrei outra forma de fechar a porta da minha própria casa.
— Ela perdeu o juízo! — atirou Maria do corredor. — João, diz-lhe alguma coisa! Manda-a devolver as chaves!
João entrou no apartamento e ficou parado no meio do hall. Ana observou-o em silêncio. E voltou a ver exatamente aquilo que vinha a ver havia três anos: um homem a balançar entre duas margens, incapaz de escolher uma.
— A minha mãe tem razão — disse ele por fim, com uma culpa estranha na voz, como se nem ele soubesse se a sentia perante a mãe ou perante a mulher. — Devias, pelo menos, ter avisado. Dá-lhe as chaves e depois conversamos como deve ser.
— Não há nada para conversar, João.
— Ana…
— Durante três anos, eu conversei. Durante três anos, expliquei. Pedi. Repeti. Nada mudou.
João cerrou o maxilar. Do lado de fora, Maria continuava a falar, mas Ana já não lhe prestava atenção.
— Então vou pôr-te uma condição — disse ele, e a voz endureceu. — Ou devolves as chaves, ou… eu não sei o que vai acontecer à nossa família daqui para a frente. Estás a perceber o que estou a dizer?
Ana fitou-o demoradamente. Houve uma época, talvez, em que uma frase assim a teria feito ceder. Teria engolido a humilhação, teria procurado uma saída mansa, teria tentado salvar a paz a qualquer preço. Agora, porém, viu apenas um homem que acabara de mostrar, sem margem para dúvidas, de que lado estava. E, por estranho que parecesse, essa clareza era mais fácil de suportar do que os três anos de incerteza que a tinham consumido.
