— E que foi que ouviste, afinal? — perguntou ele, com desdém. — Duas velhas a dizer disparates, como sempre.
— Ouvi que não vai haver obra nenhuma. Que o dinheiro vai ser para a Sofia. Que ninguém pensa assinar declaração nenhuma. E que eu, pelos vistos, sou uma encostada.
— A minha mãe podia estar nervosa.
— Curioso. Parecia bastante serena.
João atirou o telemóvel para cima da mesa.
— Portanto é isto? Por causa de meia dúzia de frases vais virar as costas à minha mãe?
— Não. Por causa da verdade.
— Estás muito fina, Ana. Vives dentro da minha família, usas o meu apelido, e agora tens pena de dar 6 000 euros à mãe do teu marido?
— À tua mãe. Não à minha.
Ele soltou uma gargalhada seca.
— Finalmente. Aí está quem tu és de verdade.
Nesse instante, a porta de entrada abriu-se. Maria entrou com uma expressão tão fechada que parecia já saber que o plano tinha falhado.
— Joãozinho?
— Ela não vai transferir nada.
A sogra tirou o lenço devagar.
— E porquê?
— Porque ouviu a sua conversa com a Teresa, lá em baixo.
Maria fitou Ana. Não havia susto nos seus olhos; apenas irritação.
— Ficar à escuta é muito feio.
— Mentir também.
— Ai, agora somos cheias de princípios. Mas durante onze anos viver ao lado do meu filho já não foi feio, pois não? Ele carregou-te às costas este tempo todo.
Ana olhou de relance para o marido.
— João, mostra à tua mãe os pagamentos dos últimos oito meses. Contas da casa, compras, prestação do teu carro, medicamentos dela quando pedia ajuda.
— Não comeces com contabilidade.
— Vou começar, sim. Porque “carregar às costas” é uma expressão demasiado grande para o que aconteceu aqui.
Maria pousou a mala numa cadeira.
— Uma mulher tem obrigação de apoiar o marido.
— E o marido tem obrigação de mentir em conjunto com a mãe?
João bateu com a palma da mão na mesa.
— Chega! Agora fazes a transferência e acabamos com isto.
— Não.
— Então arruma as tuas coisas.
Maria ergueu ligeiramente o queixo. Esperava o costume: que Ana baixasse os olhos, se justificasse, pedisse calma, engolisse o orgulho. Tinha sido assim noutras discussões, depois de humilhações à mesa, depois das lições sobre “sabedoria feminina”, que para a sogra significavam apenas uma coisa: silêncio.
Mas Ana foi para o quarto.
João seguiu-a.
— Onde vais?
— Arrumar as minhas coisas.
Ele ficou parado à entrada.
— Estás mesmo a ir embora?
— Foste tu que sugeriste.
— Eu disse isso para te assustar!
— Não resultou.
Ana abriu o armário de cima e retirou uma mala cinzenta, antiga, com a pega gasta. Comprara-a por 15 euros antes da primeira viagem de trabalho. João sempre fizera troça dela.
— Vais sair com esse trambolho? — perguntou ele. — Até combina.
— É uma boa mala. Não leva peso desnecessário.
Lá dentro pôs os documentos, alguns vestidos, o portátil, a pequena caixa com o relógio do pai e uma pasta de cartão presa por elástico, cheia de recibos. Não era bonita, não tinha nada de especial, mas naquele momento valia mais do que muitas explicações.
João observava-a.
— Voltas logo à noite.
— Não.
— Amanhã, então.
— Também não.
— Ana, quem é que te vai aturar com esses princípios todos?
Ela fechou o fecho da mala.
— Eu.
Maria estava no corredor, a olhá-la de alto, embora fosse mais baixa.
— Agora armas-te em esperta? Pois sim. Mas depois não apareças arrependida. O João é mole, eu não. Eu não te deixo voltar.
— Não vai ser preciso.
— Ah, é assim?
— É exatamente assim.
Ana saiu do apartamento sem bater com a porta. No patamar cheirava a tinta velha e a pó acumulado. Junto ao elevador, tirou o telemóvel da mala e ligou a Carolina, amiga dos tempos em que trabalhavam no atelier.
— Carolina, tens o quarto livre?
— Tenho. O que aconteceu?
— Conto-te depois. Posso ficar umas duas semanas?
— Vem.
— Eu pago-te.
— Primeiro vem.
Quarenta minutos mais tarde, Ana estava sentada na cozinha da amiga. Carolina serviu-lhe chá quente e empurrou para junto dela um prato com queijo. Não fez perguntas. Não a olhou com pena. E isso valeu mais do que qualquer consolo.
— Seis mil euros? — repetiu Carolina, quando Ana acabou de contar tudo.
— Sim.
— E tu estiveste mesmo quase a transferir?
— Já tinha a aplicação aberta.
Carolina ficou algum tempo calada, a observá-la.
— O teu pai, lá de onde estiver, agarrou-te pela mão.
Ana tirou a aliança e pousou-a ao lado da chávena.
— Não. Fui eu que me agarrei a mim.
No dia seguinte, João enviou a primeira mensagem: “Não faças disparates. Volta para casa.”
Uma hora depois chegou a segunda: “A mãe está mal por tua causa.”
Ao fim da tarde veio a terceira: “Destruíste a família por dinheiro.”
Ana não respondeu. Foi trabalhar, despachou as encomendas urgentes e, depois do almoço, entrou no banco. Transferiu os 6 000 euros para um depósito com bloqueio de movimentações imediatas e cortou o acesso à conta-poupança comum, aquela onde durante anos tinha colocado parte do ordenado quase sem pensar.
Depois sentou-se num café pequeno, junto à janela, e abriu a pasta dos recibos.
O desenho que apareceu diante dela era simples. E desagradável.
Nos últimos meses, João quase não participara nas despesas da casa. O ordenado dele saía aos bocados para a mãe. Quanto ao resto, a resposta começava a tornar-se evidente.
