— Por causa das mentiras. Por causa daquele teu “faz as malas”. E porque, mesmo agora, não vieste por mim. Vieste recuperar a vida confortável que tinhas.
— Eu amo-te.
Ana baixou os olhos para o ramo.
— Tu gostas é de eu pagar as contas da casa, ficar calada à mesa e transferir dinheiro sem fazer perguntas.
— Isso não é justo.
— E foi justo chamarem-me encostada?
João ergueu o olhar de repente.
— Eu nunca disse isso.
— A tua mãe disse. E tu ficaste calado. Para mim, bastou.
Ele atirou o ramo para cima do banco.
— Então vive sozinha. Quero ver quanto tempo aguentas.
— Aguento.
— Com esses teus vestidinhos?
— Com os meus vestidinhos.
João foi-se embora depressa, quase a correr. Ana não apanhou as flores. Um minuto depois, uma vizinha saiu do prédio, reparou nas rosas e perguntou:
— São suas?
— Não — respondeu Ana. — Enganaram-se na morada.
Em setembro, convidaram-na para orientar uma oficina no centro municipal de artes e ofícios. Era um grupo pequeno, mulheres comuns, desejosas de aprender a coser roupa para si mesmas. Ana ficou diante delas, com a fita métrica pendurada ao pescoço, e percebeu de súbito uma coisa simples: ali ninguém lhe perguntava a quem devia gratidão. Ninguém tratava o seu trabalho como passatempo sem valor. Ninguém exigia que ela entregasse o dinheiro dela para alimentar sonhos alheios.
No fim da aula, uma senhora de cerca de sessenta anos aproximou-se.
— A senhora explica como se tivesse ensinado a vida inteira.
— Não. Apenas tive de recomeçar muitas vezes.
A mulher sorriu.
— Nota-se.
Nessa noite, Ana comprou uma mala nova. Não era cara. Era apenas resistente, verde-escura, com uma pega firme. A antiga, cinzenta, não a deitou fora. Deixou-a na arrecadação de Carolina.
— Fica aqui — disse. — Foi ela que me tirou de lá.
Carolina riu-se.
— E a nova vai para onde?
— Para uma viagem. Inscrevi-me numa feira de tecidos em Coimbra.
— Vais sozinha?
— Vou.
Em outubro, o divórcio ficou resolvido sem grandes cenas. João apareceu com Maria. Ela sentou-se ao lado do filho no corredor e fingiu não ver Ana. Mas, quando João se afastou para junto da janela, a antiga sogra inclinou-se na sua direção.
— Está satisfeita?
— Estou tranquila.
— O João ficou de rastos por sua causa.
— Por minha causa, ele deixou de viver à minha custa.
— A senhora é uma mulher cruel.
Ana guardou o cartão de cidadão na mala.
— Não. Só deixei de ser vossa.
Maria abriu a boca para responder, mas João voltou. Tinha um ar zangado e perdido ao mesmo tempo.
— Ana, pergunto-te pela última vez. Não queres mesmo chegar a um acordo decente?
— Sobre o quê?
— Bem… ao menos ajudar-me a liquidar a dívida do carro. Foram tantos anos juntos.
Ela olhou-o sem se alterar.
— João, pediste-me seis mil euros para a tua mãe. Depois, os dois tentaram fazer de conta que fui eu quem destruiu a família. Agora queres que eu pague a dívida do carro. Alguma vez vieste ter comigo só para pedir desculpa?
Ele desviou os olhos.
— Eu já disse que me exaltei.
— Isso não é um pedido de desculpas.
— Então o que é que ainda queres?
— Nada. É precisamente essa a diferença.
Depois do divórcio, Ana saiu para a rua. O dia estava seco e fresco. Não havia beleza especial, nem música de celebração, nem sinais vindos de parte alguma. Era apenas um dia em que uma história comprida chegava ao fim.
Foi até à paragem, mas não entrou no primeiro autocarro. Telefonou a Carolina.
— Está feito.
— Como estás?
Ana viu o próprio reflexo no vidro da paragem. O cabelo castanho preso num apanhado simples, o casaco abotoado, a mala verde-escura nova na mão, pronta para a viagem.
— Inteira.
— Vem cá. Celebramos com chá.
— Vou. Mas antes passo pelo ateliê. Tenho uma encomenda à espera.
— Tu não tens emenda.
— Pelo contrário. Acho que foi agora que me endireitei.
Uma semana depois, João enviou-lhe uma mensagem curta: “A mãe diz que, apesar de tudo, podias ajudar a Sofia. Ela não tem culpa.”
Ana leu-a e, pela primeira vez em muito tempo, não procurou a resposta perfeita para evitar ferir alguém. Escreveu apenas:
“Os meus euros já não resolvem os problemas da vossa família.”
Depois guardou o telemóvel dentro da mala.
No ateliê cheirava a tecido novo e ao vapor quente do ferro. Sobre a mesa estava o molde de um vestido azul-escuro para uma mulher que, depois da reforma, decidira subir ao palco num grupo de teatro amador. Ana passou a palma da mão pelo pano, confirmou a linha do ombro e sorriu.
Lá fora, alguém discutia em voz alta. Na sala ao lado, as alunas riam. A vida continuava sem João, sem Maria, sem pedidos para “transferir com urgência” e sem dívidas que não eram suas.
Ana acendeu o candeeiro.
A tesoura assentou-lhe na mão com segurança.
A mala cinzenta ficara no passado. E os seis mil euros permaneciam na sua conta. Não como vingança. Não como prova de coisa nenhuma. Apenas como o apoio silencioso de uma mulher que ouviu a verdade a tempo e, finalmente, se escolheu a si própria.
