— O Pedro que se aguente; passa o verão na casa de campo!
João enfiou os calções de banho dentro da mala de viagem com gestos bruscos e puxou o fecho com força. A cremalheira prendeu-se na curva. Ele soltou uma praga entre dentes, deu outro puxão, quase arrancando o cursor, e lançou à mulher um olhar rápido, carregado de irritação.
Ana continuava calada, a dobrar as t-shirts do filho.
— Ana, vais ficar muda agora?
João endireitou-se e pôs as mãos na cintura.

— Estou a explicar-te como deve ser. A minha mãe anda mal das articulações. O médico disse que lhe fazia bem apanhar ar do mar. A viagem ficou caríssima; para quatro pessoas era impossível. Já tive de pedir dinheiro emprestado.
— Eu ouvi, João.
Ana alisou com cuidado uma pequena t-shirt com um dinossauro estampado.
— Ouviu, diz ela…
Ele atravessou o quarto de um lado para o outro, tropeçou num carrinho deixado pelo Pedro no chão e afastou-o com um pontapé.
— Estás sempre com essa cara, como se eu tivesse cometido um crime! Prometi à minha mãe umas férias junto ao mar há dois anos. Ela criou-nos, não tem direito a descansar? E o miúdo só tem sete anos. Da Madeira ele nem se vai lembrar. A tua mãe toma conta dele na casa de campo. Tem ar puro, tem fruta, tem espaço para correr. Que mais é que ele precisa?
Só então Ana ergueu os olhos para o marido.
Três semanas antes, por acaso, abrira o e-mail no portátil lá de casa. João saíra à pressa para o trabalho e esquecera-se de terminar a sessão. A primeira mensagem que apareceu era uma notificação da agência de viagens: “Alteração de passageiro na reserva confirmada”.
Naquele momento, Ana não fez uma cena. Não gritou, não chorou, não lhe telefonou. Limitou-se a abrir o recibo em anexo. Ali estava, preto no branco, um pagamento adicional considerável, retirado das poupanças da família — dinheiro que ambos tinham guardado para arranjar o hall de entrada. Um valor pago para retirar o próprio filho da reserva e colocar no lugar dele Maria.
Ana fechou a janela do navegador. Preparou um café. Sentou-se num banco junto à janela e ficou muito tempo a observar o homem da limpeza a varrer as folhas caídas no pátio. Depois, foi buscar o seu cartão de salário.
— João, tínhamos combinado isto.
Disse-o com voz serena, sem drama, sem levantar o tom.
— Passámos um ano inteiro a juntar dinheiro para estas férias. O Pedro andava a contar os dias. Na escola, já não falava de outra coisa: dizia a toda a gente que ia voar num avião grande.
— Não lhe acontece nada por esperar!
Maria surgiu do corredor com a solenidade de quem entra em palco. Usava uma camisola de algodão berrante, batom vivo nos lábios e um anel pesado no indicador. Doente, não parecia nem um pouco. Pelo contrário: tinha ar de quem vinha preparada para a batalha.
— O João tem toda a razão.
A sogra apertou os lábios, assumindo aquele tom pedagógico que lhe era tão característico.
— Ai, Aninha, não transformes isto numa tragédia. Crianças nessa idade só dão trabalho. Ora querem tirar o chapéu, ora pedem água, ora precisam de ir à casa de banho.
